17 de dezembro de 2011

Um eterno refazer-se

Por vezes, no caminho em que me encontro, tenho de aceitar uma abissal e constitutiva ânsia; talvez seja ela o principal sentimento que vem segurando e mantendo tudo aquilo que me permite continuar, sentimento esse que talvez seja: um amor incontornável pela existência junto a uma expansão violenta de um ódio por tudo aquilo que vive! Uma estranha e tamanha contradição que, na sua inteireza e gratuidade, mantém-me em uma eterna confiança e medo por eu nunca conseguir negar-me inteiramente a mim mesma e, ao mesmo tempo, por eu ser quase sempre a própria desconfiança da eterna confiança nesse recebimento constante de meu próprio. Quem sabe talvez eu seja um jazz que, num improviso estranho e melindrado, retorna num ápice de loucura para uma ordem imprevista e inevitável; talvez um improviso que, imprevisivelmente, vê-se nas amarras de uma ordem mais clássica e tradicional, e assim se perde, perde-se encontrando-se dentro dessa ordem, para assim depois se reconciliar novamente com a angústia da eterna propensão à vertigem da queda. Na verdade, talvez eu seja um "por um triz". Eu sei...: estranho de mais é viver para poder dizer sem estranhar: "eu sou"; mas assim se fez agora, então, ao menos agora, assim será: não um "eu" mesmo, mas um jazz cambaleante, que retorna para a ordem somente por um triz, e que consegue se encontrar apenas no durante ao topar por acaso de frente com certas notas que não poderiam se permitir somente por acaso. Algo no entre da gratuidade do contingente junto da redenção do retorno inevitável para um possível destino. Um amor que sempre se perde dentro de um ódio pela demasiada ordem, e que dentro desse mesmo ódio, perdendo-se na ordem, — se encontra! Um ódio que se mantém nos limites de uma paixão séria e fiel àquilo do qual não se consegue fugir, e que se contém em sua expansão somente pela impossibilidade de sua plenitude sem seu existir junto dessa serenidade clara e vacilante de uma quase-certeza. Uma completude que se dá somente no incompleto, e vice-versa; ou um perfazer que, aberto, se ilumina em seu eterno refazer-se...

19 de novembro de 2011

O ideal do anti-idealista

O homem, quando anseia por um tipo de homem que não idealiza, já idealiza. 

Liberdade de consciência

O próprio conceito de liberdade de consciência, na grande maioria das vezes, é usado como um jargão inconsciente. 

12 de outubro de 2011

Sobre a beleza do que já morreu

Num funeral, o morto, pela primeira vez, mostra a vida mostrando a não-vida; tem assim seu primeiro grau de esquecimento. Este esquecimento permanece, mas retornará transformado pela saudade, que tornará o morto mais vivo do que quando vivo. Não sei o que ocorre, mas o que já não existe mais parece ter maior força de beleza sobre nós, parece nos tomar com uma suavidade e importância ainda não experimentada naquilo que é presente como concretude. Pensando pela cabeça de Schopenhauer, talvez esse seja o engodo que a natureza nos criou para pensarmos com mais suavidade na morte. Já pela cabeça de Heidegger, talvez esse seja o modo que encontramos para tentar escapar da responsabilidade de sermos um algo que se projeta estando sempre desde a angústia com a certeza da morte; desse modo, esse embelezamento do que já morreu, poderia ser apenas um engodo com relação à responsabilidade de decidir, responsabilidade essa que é trazida justamente pela certeza de que um dia findaremos também; é como se fosse uma fuga do fim mediante a imortalidade da imagem embelezada do depois-do-fim. Talvez a beleza exacerbada de algo que já se foi possa mesmo ser um engodo, algo que advém de uma incapacidade de suportar o nosso próprio fim e, de alguma forma, seja junto com isso a tentativa de embelezarmos a "idéia" que vem da projeção de nossa própria morte.

Porém, pensando melhor, agora isso tudo me parece algo outro: parece-me ter a ver com um lançar-se para além-de-si, um projetar-se para uma comunidade inexistente mas desejada; parece-me uma espécie de voluntarismo involuntário do homem que, mediante uma obstinação de seu modo de ser, não consegue abrir mão daquilo que deseja; talvez seja uma incapacidade de sair do que Hegel chamou de consciência infeliz. Quem sabe seja o modo de lida de um tipo de homem que consegue ver somente na beleza de si, advinda da imagem que ele projeta do depois de sua morte individual, a possibilidade de uma reconciliação com alguma totalidade.

Dostoiévski em Os Irmãos Karamazov fala a respeito de um tipo de homem que ama a humanidade como um todo, mas que ao mesmo tempo não consegue lidar com os homens em particular: quanto mais esse tipo ama a humanidade em geral, menos consegue suportar o homem individual, e quanto mais conhece o homem particular, mais ama a humanidade como um todo. É o homem cindido, um tipo que lembra a da consciência infeliz hegeliana: o homem desenraizado da participação política de sua terra e que, para suprir tal desligamento, se torna um livre pensador, que estabelece verdade somente na concordância consigo mesmo. Esse homem, depois, se torna um cético, começa a tomar a realidade como inexistente, simplesmente por ela não ser aquilo que ele deseja. Quando ele se dá conta de que não é possível viver em comunidade desse modo, ele toma consciência da cisão que se formou em seu ser, toma consciência de que ele mesmo não possui o que Hegel chama de espírito: ele se dá conta de sua incapacidade de se reconhecer na comunidade em que vive. Tal homem consegue ter somente o que Dostoiévski chamou nesse mesmo trecho de "amor contemplativo", sem conseguir ter o que ele chamou de "amor ativo", pois esse tipo de homem não é capaz de concretizar seu amor pela humanidade nos homens particulares, já que provavelmente sua idéia de humanidade (e também de homem em particular) não coincide nem com a comunidade na qual ele vive, nem com os homens com os quais ele convive. Esse homem muito facilmente se torna um daqueles sábios obstinados.

Vejo especialmente Nietzsche como um tipo de consciência infeliz, um sábio obstinado que não conseguiu se estabelecer em uma comunidade e que, para se livrar do fardo de ter que lidar com isso, chamou de espírito de rebanho a vontade de estar em comunidade. Vejo que especialmente este homem via na projeção da imagem da morte de si uma beleza extraordinária, e que se reconciliou com o mundo mediante o que ele mesmo falou em carta para sua mãe: pelo medo de que um dia o tornem santo. Esse medo, aos meus olhos, era na realidade uma vontade oculta que ele interpretou de um modo diferente desse que faço agora. Talvez toda sua filosofia possa ser interpretada como a tentativa de reconciliação com a comunidade mediante o legado de sua obra que o tornaria "imortal" e "eternamente" belo depois de sua morte. Mas isso é um psicologismo que suja o pensamento desse homem com o que ele mesmo chamaria de um espírito de peso, mas que aos meus olhos é somente um tentativa de sondar o modo de ser-humano, uma curiosidade a que me atrevo, uma tentativa, finita e incerta de sua certeza, mesmo momentânea, não ter de dar às coisas elas mesmas (pois as coisas nunca terão elas mesmas), mas uma tentativa de andar ao redor das coisas colocando-as nas melhores das luzes (tal falou Nietzsche em algum aforismo do Humano, Demasiado Humano). A pretensão desse tipo de investigação não vai muito além da tentativa de viver na dubiedade e insegurança que é própria da vida daquele que sente prazer em estar no que Heidegger chamou de "piedade do pensamento": o questionar; e que vê beleza muito mais no durante do que na imagem do depois da morte.

8 de outubro de 2011

Ingenuous language!

A língua inglesa é genial. Ingenuous diz: ingênuo, simples, franco; já ingenuity diz: criatividade! Vejam só. Ligam assim, na cara dura, ingenuidade e criatividade! Além disso, sem cerimônia, com o real-ize dizem o nosso perceber, estando ligado também ao "se dar conta de algo", ao compreender de um vez por todas alguma coisa. Desse modo, relacionam terminantemente percepção e realidade: o realizável é aquilo que se pode perceber! real é aquilo que se percebe. Mostram desse modo uma proximidade entre sensação e o que tomam por real: o real está na superfície perceptível; e o que pode haver de metafórico e profundo nisso, só pode morar nessa aparência mesma. Mostram-se mais próximos também do ato de só se dar conta de algo (ou, podemos dizer, de só compreendem inteiramente algo, no sentido de descobrir, apreender totalmente algo a partir de seu mistério), quando este algo é realizável, perceptível. Realizar, pôr em obra, perceber, se dar conta, descobrir, apreender de uma vez por todas, estão completamente próximos nessa linguagem. (Talvez por isso sejam pragmáticos!! ligam o real ao prático, ao ato, ao feito.) Ou seja, são mais aptos a relacionar simplicidade e criatividade e, ainda por cima, unem de alguma forma aparência e realidade! Isso não é pouca coisa. Pergunto-me então: por que criticar o inglês naquilo que ele tem de mais genial?: ser superficial, por profundidade; tal diria a respeito do gregos um alemão! Que morram de inveja todos os marxistas (também os enrustidos) que têm preconceito contra uma língua tão simples e bonita como essa! Claro que não tiro o mérito da riqueza da língua alemã, por exemplo, que tem muito mais recursos para expressar coisas diversas e também mais estruturas para dar uma maior precisão às frases do que a língua inglesa. E isso também é inacreditavelmente bonito e instigante! Mas uma coisa não anula a outra. Por que querer só a precisão? querer só o peso e a profundidade? Eu mesma gosto bastante do peso e da profundidade, mas por que querer só eles o tempo todo? Por que querer, por exemplo, estudar só Habermas? Ora! Estudemos Habermas, mas também estudemos Rorty! (Pausa) A diferença é como se fosse algo divino! fico emocionada só de pensar que existe tanta diferença no mundo!

4 de outubro de 2011

That I'd like

I'd like to make something that speak all the greatness
I'd like to find a way... to stay:
the most beautiful melody in the whole world
something can be near of my soul

I'd like to make something to shine and explode!
Something so real that I can doubt nevermore.
Something so strong that makes impossible the wrong
I'd like to show something so good that I'll forever trust

28 de setembro de 2011

Descaminho

O vazio é tamanho que mal poderia encaixar algo que se equiparasse ao que lhe compete, talvez nem mesmo palavras; logo elas, às quais pertence a maior solidão, imensidão e infinitude. O sol nascendo agora, talvez, devorando a imensidão da madrugada, pudesse ao menos chegar perto de preencher ao menos a metade da metade de tal abismal sentir. Algo próximo da infinitude e totalidade da morte, mesclado à incondicionalidade e eternidade de um amor maternal; algo no entre do terror da inexistência e do amor completo e pleno por aquilo que já morreu. Caminhar necessário e descompassado que me levou a perder-me. Eterno sonho inconcretizável, perene horizonte de luz matinal: inesvaível, insondável, intransitável... Infinita luz fantástica da eterna aurora de meus desejos, luz branda dos picos vibrantes das montanhas de minha permanente esperança perdida. Arco-íris intocável que nunca se foi... Pouco importa o fazer-se dos sonhos agora, mesmo que eles se façam a todo o momento, pois meus sonhos já não são mais horizontes, são muros intransponíveis, pedras irretiráveis. (Longa pausa) Se cresse em Deus, rezaria a ele para que isso tudo acabasse. 

11 de setembro de 2011

Solidão e vulgaridade

O que fazer depois que se "descobre" clareira do ser?! A clareira mostra, investiguemos então, originariamente, sem esquemas objetivantes, o que se mostra. Mas como fazê-lo sem levar em conta que, como estudante de filosofia e como pessoa que vive em uma comunidade, não posso ficar apenas investigando o que se mostra sem um "sistema", sem um "esquema" objetivo e, ao menos relativamente, fixo; isso porque a própria academia e a nossa vida cotidiana pedem sistemas e modos bem objetivos para que consigamos bem nos estabelecer e relacionar. Então o que fazer?: entregamos-nos a esse modo objetivo que pede a "sociedade" e vivermos em maior unidade com os outros e com nossas instituições?, ou renegamos estes tais modos em partido de um senso de verdade que não deixa estabelecer sistemas objetivos? É difícil responder a isso. Eu mesma não sei como me livrar de tal senso de verdade, mas ao mesmo tempo sinto a necessidade extrema de me livrar dele para que consiga estabelecer alguns sistemas objetivos e viver um pouco melhor na comum-unidade: sinto tal necessidade de objetividade imperar sobre mim, mas, ao mesmo tempo, sinto imperar também, talvez com maior força, a necessidade de negar cabalmente todas as formas de estabelecer sistemas objetivos. 

Por que isso acontece? Isso é para mim um grande mistério. Esse é o dilema da solidão que talvez tenha sofrido Heidegger, Rilke, Nietzsche, Schopenhauer e, muito provavelmente, Sócrates: o dilema do que fazer com a vontade colossal que leva a não se deixar reger pelo que já está dado como regra; e isso de modo tão extremo a ponto de não permitir de modo algum a si nem mesmo tentar conseguir estabelecer conceitos objetiváveis; e junto com isso, claro, o dilema de como isso leva a uma solidão profunda e a uma incongruência abissal com o que pede as regras sociais. Rorty tenta ficar no meio do caminho, separando as tentativas de libertação da tradição como tentativas da vida privada, e não da vida política. Mas como separar assim tão cabalmente duas coisas que se mantêm no momento mesmo no qual profiro palavra? se a minha "obsessão" por não se deixar levar pelas regras já dadas, leva-me quase imediatamente a uma posição política?, no sentido tanto de tentativa de ação na vida pública, quanto de modos de vivência com os outros? É muito mais complexo do que separar esses âmbitos: vida privada versus vida política. Nossa vida "privada" atinge diretamente nossa vida "política", e vice-versa.

Schopenhauer diria que quanto mais o indivíduo é sociável, no sentido de condizer com as regras sociais estabelecidas e ser por isso "popular", mais é ele vulgar. Se trata disto talvez: o indivíduo que não é vulgar é aquele que não consegue se deixar levar pelas regras dadas, o que o faz sentir-se de algum modo um ser humano superior. Mas o que fazer com essa superioridade? Guardá-la em solidão na "floresta negra"? Partilhá-la com os "poodles"? Ou enfim, em nome dela, tomar a "cicuta"? Foram decisões difíceis tomadas por esses homens, e sem elas talvez seríamos piores. Mas, se pensarmos de um outro ângulo, às vezes elas me parecem muito fáceis...


4 de agosto de 2011

Träume und Ideen

Traum ist ein Wort, dass ich nicht sehr gut verstehen kann, weil er nicht einem konkreten Ding sagt; und was ist nicht konkrete, kann man nicht in einem Begrif behalten und enthalten - auch nicht nur vorübergehend. Vieleicht ist er nur ein Wünsch, der niemand erklären kann. Müsste ich verstehen, dass er nur eine Möglichkeit sein kann. Das ist schwierig: der Traum bewahrt sich, wie ein unantastbares Ding; aber das schwieriger ist: der Traume, in konkrete, geht vor mir zugrunde, immer wann er kommt mir vor. Und eine Idee ist wie ein Traum (ich meine), sie ist nicht eine Täuschung, aber ein Wunsch-denken! Und diese ist so wichtig zu wissen, dass fast unglaublich ist! 

"Halbwissen. - Der, welcher eine fremde Sprache wenig spricht, hat mehr Freude daran, als Der, welcher sie gut spricht. Das Vergnügen ist bei den Halbwissenden." (Friedrich Nietzsche; Menschliches, Allzumenschlicher; § 554) ¹

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1. Sonhos e idéias: Sonho é uma palavra que não entendo muito bem, pois é uma palavra que diz do inconcreto; e o que é inconcreto não se pode manter e conter em um conceito - mesmo que seja temporariamente. Talvez ele seja apenas um desejo que ninguém consegue explicar. Eu deveria entender que ele pode ser apenas uma possibilidade. Isto é difícil: o sonho guarda a si mesmo como uma coisa intocável; só que mais difícil é: o sonho, concretamente, sempre se destrói diante de mim no mesmo momento em que ele aparece diante de mim. E uma idéia é como um sonho (acho eu), ela não é uma ilusão (um engano do pensamento), mas um desejo do pensamento*! E isso é tão importante de se saber que chega a ser quase inacreditável!

"O meio saber. - Aquele que fala pouco uma língua estrangeira tem mais alegria nisso do que aquele que a fala bem. O prazer está com os meio-sabedores." (Friedrich Nietzsche; Humano, Demasiado Humano; § 554)

* Täuschung no alemão diz o que entendemos por: ilusão, engano, equívoco. Pode-se relacionar tal palavra com Tausch e tauschen (troca e trocar), de modo se refira à troca de uma coisa por outra, a uma confusão durante o ato de pensar. Por isso Täuschung foi traduzido como ilusão colocando-se entre parênteses "um engano do pensamento". Wunschdenken também diz ilusão mas, se decompormos as palavras, refere-se ao pensamento de algo que desejamos: um desejo que se transforma em pensamento talvez; já que Wunsch diz desejo, e Denken, pensamento; estando ligado mais ao sentido de uma fantasia, ou sonho irrealizável. Sendo assim, o texto tenta mostrar que as idéias não são tidas como um erro teórico que deve ser abandonado ou superado, mas sim que funcionam como desejos que fazem parte de nós tal como nossos sonhos e fantasias. Sonhos no texto aparecem como uma espécie de desejos inconcretizáveis; as idéias são colocadas, pois, nesse sentido também.

26 de julho de 2011

O não anti-metafísico

Talvez exista um tipo de metafísico que pouco se importa com o que lhe convém. Ele não está muito aí para a superação ou para o "não ser metafísico". Talvez seja aquele que tem a vontade de verdade e o esquecimento do "ser" como sua morada, e neles mora como um andarilho que, apenas de vez em quando possui uma casa e, por isso mesmo, tem amor por ela como aquele que mais sabe a respeito da perda daquilo que lhe é mais precioso. Desse modo, ele consegue aproveitar o durante das coisas antes do fim e da partida. Bem resolvido com suas desilusões e sonhos inconcretizados, é o metafísico que assumiu sua fragilidade e inutilidade, assumiu seu idealismo e platonismo como sua mais real ilusão: o que aceitou a simplicidade e insignificância da vida sem colocar alguma importância muito grande nessa descoberta, ou em qualquer outra coisa. É aquele que sabe da morte sem criar engodos ou anestésicos, e que vê na sua finitude, e na finitude de tudo mais, seu deleite e seu gosto! É o homem do eterno retorno que não necessitou se tornar um frustrado solitário para se aceitar, e que soube assumir toda sua insignificância e desimportância no seu dizer "assim eu quis, quero e hei de querer"; é também aquele que mora no "ser" sabendo que nele não há primazia alguma além daquela do filósofo que assim concebe apenas pelo eterno prazer do durante e da angústia!

Esquecimento, indiferença e fragilidade

O "ser" foi esquecido, e isso não importa. Eu mesma fui esquecida, e isso, claro, importa menos ainda. Como diria um tal Kirilov: "isso me é indiferente". O esquecimento acontece de modo necessário, tal como diria o velho jovem Nietzsche, assim como a indiferença, tal concordaria nosso mais são suicida. Talvez nós, filósofos poetas, pessoas normais, sem Deus sem serem ateias, tenhamos de aprender a suportar o esquecimento e indiferença daquilo que mais lembramos e diferenciamos. Talvez nossa maior força esteja na assunção da fragilidade, indiferença e esquecimento de tudo que mais prezamos. Se Heidegger diria que o suporte é a diferença, digo agora que o suporte é a indiferença; e se Nietzsche diria que a pulsão principal é a busca por poder, digo que até agora a pulsão principal foi a fuga da simplicidade e insignificância da vida. Mas teríamos de continuar lidando assim? morando sempre nesta fuga? Seria esse o melhor modo de lidar com a morte de Deus? (Morte de Deus lê-se: fim de um grande sentido para as ações, início do fim do idealismo, início do fim do platonismo). Mas não seriam essas falas e perguntas elas mesmas um grande niilismo e, portanto, uma negação idealista do platonismo? uma negação platônica do platonismo? Talvez nunca possamos estar certos de quão niilistas somos nós, e talvez o modo de lida daquele que nunca sabe ao certo, seja o mais cabal dos niilismos, e talvez o mais cabal dos niilismos seja a única forma de suportar a falta completa de grande sentido e de, assim, conseguir estar pela primeira vez onde estamos. Ultimamente tenho morado em uma vontade de verdade niilista e ciente de sua fragilidade e ilusão, uma vontade de verdade que quer criar não para poder criar, mas que cria sem querer: cria apenas estando no mundo... Meu idealismo niilista agora é suportar a simplicidade e insignificância de tudo, e morar dentro de uma casa na qual se suporta cada imperfeição, cada rachadura na parede, cada enfeite ridículo; cada coisa. Começo a morar numa casa que há muito para mim fora construída, mas que nunca me permiti habitar: numa absoluta incompreensão de tudo, num idealismo realista; num entre! num durante sem método e com as regras mais absurdas já experimentadas; numa bagunça completa, onde não se gosta de quase nada, mas aceita-se quase tudo, e isso sendo: nem um homem de ação, nem um camundongo de consciência hipertrofiada; nem um conservador nem um revolucionário; mas uma pessoa. E nisso tudo uma solidão; uma solidão... que nem posso falar sobre, pois a reduziria a algo que alguém conhece, quando isso é indiferente, quando eu mesma escrevendo essas letras inúteis é completamente indiferente ao que quer que seja. Depois de 6 anos que a li, começo a compreender "a náusea" de Sartre. 

20 de julho de 2011

A eterna companheira

A noite ascende luzes neons incandescentes fosforescentes que abrem ruas silenciosas no durante das casas fechadas. Estrada de chumbo a-pesar nas costas junto aos pés atentos. Pés estrada calçadas postes passo passa tudo. Ela não, ela não passa. Ele caminha, pensa pensa pensa não consegue saber motivo. Nem consegue chegar perto de saber. Mas sabe que é assim, que é a mulher que não existe a única capaz de roubar-lhe desejos no meio da noite e arrancar-lhe da cama noctívago. A única que ele gostaria de ter consigo; ao menos às vezes: conversa no parque, ver o teto juntos. De repente sente que está naquela coisa estranha que se está quando muito triste: coração descabido, aperto da garganta. Sabe, ela existe, está por aí, mas sabe também, será quase impossível encontrá-la. Entende-se mais ou menos bem com isso. Sente-se livre; livre de mais. Num bater de asas a tristeza se vai e toma conta dele a calma, calma compassada, contida de sua turbulência e encanto. Passa passo não sabe rumo. Seus olhos entranhados nas coisas que retornam para ele com um hálito fresco e seco de um vento frio e pesaroso do inverno recém chegado. Passo passa não sabe onde. Está sempre com ela, mas ela nunca está; é sempre um vão, o abismo impreenchível do sonho que inevitavelmente se dá. Ele retorna para casa, toma um banho bastante quente e chora como uma criança; e como se envergonha disso. Dentro do desejo de um abraço dorme um sono profundo. Sonha que ela se aconchega no seu ombro enquanto ele lhe conta uma história qualquer: ela ouve como se fosse a coisa mais importante do mundo. Esse sonho simples mostra o que ele tem de mais inteiro, conciso e autêntico e, mesmo assim, algo tão idiota, tão comum e banal... Acorda e fica quase uma hora inteira deitado no escuro se lembrando do sonho e sentindo como lhe faz bem. Dia claro. Levanta café roupas trabalho. Ela permanece em cada passo ato gesto, mas ele não está, não existe, é somente um grande vão: a falta constante daquilo que o pertence sem ele possuir. Ele sente o vão, aprendeu a estar nele. Passos vagarosos. Chega. Os alunos estão silenciosos, calmos como não é costume. Ela se vai, fica ao seu aguardo: espera-lhe na cama, bem vestida perfumada, a dona da casa; sua amante, sempre pendente, presença faltante; sua incontornável constante e iminente desilusão... sua amada, sua amiga, sua eterna companheira: – solidão.

11 de julho de 2011

A janela mostra coisas importantes

"O que me possui é somente aquilo que absolutamente não se deixa possuir." Veja bem: só porque poucas coisas nos possuem, tentamos determinar o fundamento delas, pra tentar nos sentir seguros, crendo que sabemos de alguma coisa sobre aquilo que nos possui. Mas a verdade é que nada sabemos sobre isso, e nem devemos na verdade, pois, são elementos de mais, e mesmo que conseguíssemos fazer uma análise suficiente a respeito disso, ela seria sempre provisória, pois outros elementos, novos elementos apareceriam no durante mesmo da análise. Tem que ser assim: "não se pode determinar o que nos possui, porque muitas coisas constam em algo que consegue nos possuir, e muitas coisas novas aparecem, de modo que é impossível determinar uma característica apenas como a principal e determinante." Dever ser assim com tudo, na verdade. Porém, aquilo que nos possui assusta, nos deixa inseguros de mais para conseguir suportar não saber o que existe ali e que nos faz sentir tão juntos a tal coisa. Mas temos que suportar. Senão ficamos nessa determinação só pra fugir da nossa insegurança, e assim perdemos muito tempo com teorizações inúteis, em vez de fazermos coisas mais importantes, como tirar aquela música no violão, ou ler outro livro daquele poeta, ou escrever a poesia para aquele sentimento, eu passear pelo parque, ou... qualquer coisa que seja no nosso gosto (pra não dizer agrado e ser mais formal e kantiano). Mas teorizar não é ruim (porque sempre tem gente que leva por esse viés e interpreta esse tipo de sentimento anti-teoricista como uma espécie de irracionalismo); então, teorizar é bom (no sentido moral mesmo, de levar à excelência) só que o mais legal é o seguinte: é sempre provisório, teorizar é sempre andar na corda bamba, é um eterno treinamento; nunca cessa, nunca tem fim, nunca permite a perfeição; a não ser a perfeição do ato, a do per-fazer completamente alguma coisa no enquanto daquilo que se faz; essa perfeição sim, essa, toda ação a qual nos integramos completamente permite.

4 de julho de 2011

Tempos do durante

Que tempo não é verbal? Será mesmo que existem tempos que não sejam - verbais? "Tempo verbal" não seria, pois, um pleonasmo? Depende pelo que se entende por verbal. Acho eu que há tempos bastante estranhos, que seria difícil encontrar um nome para eles. Sendo assim, se verbal nesse caso se referir ao tempo que se mostra na declinação conjugal já pré-estabelecida de uma palavra, então acho que existem sim tempos que não são verbais. Tempos que só conseguem se mostrar no vento impetuoso, no olhar pela janela, no passeio pelo parque... Tempos que juntam todo passado e futuro amarrados num durante calmo de seu caminhar, mas turbulento de sua incessante e incansável projeção. Tempos do além concretizante e do concreto transcendente; tempos da felicidade concretizada, mas também das agonias dos desejos irrealizados. Tempos estranhos, que misturam um passado que já se foi, com um que não foi mas poderia ter sido, mais um presente que lembra, com outro que deseja e projeta, e mais outro que permanece. Tempos da concórdia e da discórdia ao mesmo tempo, tempos, talvez, do durante...  

1 de julho de 2011

Aos anti-metafísicos

Acho, sinceramente, que todo esse alarme contra a metafísica, toda essa tentativa de se colocar em uma perspectiva que não seja metafísica, que esteja sempre ciente de sua finitude, contingência e indiferença, é talvez por medo do poder que há em uma posição que se assume como "verdadeira". Talvez os anti-metafísicos tenham medo do poder que uma posição metafísica pode possuir: tenta-se tirar tal poder mediante a crítica desse tipo de posição que se pretende infinita, mas isso colocando o poder na mão deles mesmo, que tentam exercer poder mediante a crítica da metafísica, ou seja, mediante a própria metafísica, e isso sempre dizendo que isso não é metafísica. Pra mim isso é como falar mal do patrão pelas costas e depois ir lá lamber seus sapatos na hora do aumento; ou como reclamar da instituição em que se estuda ou trabalha enquanto se é o pior aluno ou o pior funcionário. Enfim, o que quero dizer é mais ou menos o seguinte: se a filosofia tem algum poder, é na crença de que ela pode superar, quer dizer, é na "crença" de que ela pode traçar algo infinito que esse poder consegue se sustentar. Se a filosofia virar uma espécie de literatura, de entretenimento pessoal que nunca pretende superar, ela perde poder social, e eu não posso considerar isso bom, pois, mesmo nazista, é Heidegger hoje quem mais nos atenta para os desastres da técnica, é hoje Nietzsche quem mais fala das desgraças do último homem, e isso significa: são eles que mantém nossa sociedade ciente de que não é tão fácil assim estar com a verdade. E não venham me falar que o perspectivismo de Nietzsche não influenciou algum destino, não pegou as rédeas depois que toda a Europa leu seus livros, pois eu sinceramente não acredito. Dá pra ver que essa onda esteticista que hoje assola o próprio Brasil, de alguma forma veio também da popularização de Nietzsche feita por alguns. Acho que é necessário aos filósofos terem algum tipo de poder na sociedade, nem que seja o poder de sempre mostrar a contingência do que se mostra como necessário e, com isso, apontar: há outra saída. Mas para isso é necessário que eles se achem possuidores de alguma espécie de verdade, nem que seja uma verdade tão peculiar como a de Heidegger: seu desvelamento. Mas posso estar bastante errada, entretanto assim agora se me aparece o que devo fazer com essa bagunça toda que esses anti-metafísicos arrumaram, bagunça essa que muito gosto, e que muito me diverte, claro, afinal, sem isso o que seria da metafísica? Talvez outro tipo de religião. No fundo, para bem pensar, tem-se de ser um pouco esse tipo anti-metafísico de vez enquando, entrar em crises profundas com a filosofia e considerá-la somente um grande erro teórico, para depois retornar rejuvenescido para esse tipo de conhecimento que, talvez, seja o mais estranho que a humanidade já experimentou. O grande problema que vejo é o de querer assumir uma posição rígida perante a metafísica, a saber, uma posição anti-metafísica, e falar como se a própria metafísica pudesse morrer e, além disso tudo, achar que se faz algum tipo de pensamento mais rigoroso, mais correto, mais justo talvez, que consiga se livrar da metafísica eximindo-lhe sua pretensão pública e política, algo que acho deveras absurdo. Vejo quase claramente que pedir pra um filósofo fazer filosofia como quem escreve um romance, é mandá-lo fazer literatura e matar a própria filosofia. Sinceramente, se pedissem isso pra mim eu mandaria cuidar de sua própria vida, pois se quisesse fazer literatura já o estaria fazendo; fico na filosofia porque gosto mais dela do que qualquer outro âmbito com o qual já lidei. E outra, sinto que há na filosofia uma pretensão política que talvez ela não possa se livrar, mas isso é especulação, assim como a seguinte frase: a verdade é que acho que os anti-metafísicos são tão metafísicos quanto todos os mais metafísicos, pois a metafísica parece algo constitutivo, que quanto mais se nega, mais se afirma. Finalizando, sinto algo estranho nesse tipo de discurso anti-metafísico, que aqui só atentei para tal, pois vejo como algo importante a ser investigado a fundo.

29 de junho de 2011

Prefácio ao livro de meu pai

É um livro noturno, dá pra sentir; iluminado vezes pelo luar, vezes pela penumbra de um cômodo qualquer, vezes pelas luzes incandescente-amareladas nas ruas das madrugadas. Um livro que anda pela noite e observa não somente as ruas, mas também quartos fechados. Há nele resquícios de um romantismo da segunda geração, um pessimismo sonhador, sombrio e apaixonado. Parece tentar apreender um clima e sensação de uma boemia bastante peculiar, muito sonhadora, e um tanto nostálgica... Aparenta um apelo tardio por uma juventude que escapou por entre os dedos, junto de uma tentativa de assunção de toda feiura que se dá quando envelhecemos. Porém, essa assunção parece ocorrer mediante uma revolta, uma assunção via um pessimismo às vezes corrosivo, mas que sempre no final aponta para uma felicidade entristecida: sonhos de infância no jardim talvez, certamente uma inocência perdida, e que faz falta... Dá a sensação de um envelhecer que não consegue se assumir, mas que percebendo isso, em vez de assumir que não consegue assumir, tenta infligir uma aceitação da velhice a partir do dever de estar velho, o dever de ser carrancudo e desiludido. Fala do tempo que passa e que não se deixa represar, e da desilusão abismal que vem com toda experiência do existir. Parece a visão amarga de alguém muito doce, que não pôde aceitar sua doçura na vida contemporânea dos valores perdidos e da incoerência generalizada e, sendo assim, sentiu-se obrigado a se tornar amargo. São palavras solitárias, que navegam num rio à contra mão, que lutam contra a morte sem querer assumir que o fazem. Por isso, mora aí, por traz de todo pessimismo, um esplendor e felicidade pelo viver. O livro guarda em si o peso de uma leveza que deveria ser assumida, mas que não pode sê-la. Sinto que guarda sempre uma impossibilidade de algo importante e desejado; talvez a nostalgia de amor e coragem juvenis, a vontade descabida, talvez, de um conto de fadas... Talvez guarde também algum quixotismo das idéias, alguma loucura que cria moinhos que não podem deixar de ser reais. Acho que mora no livro também uma incapacidade de aceitação da finitude das coisas belas da vida: a finitude da intensidade da juventude; enfim, algo que um dia todos nós teremos de enfrentar. A resposta a essa finitude é uma revolta agridoce, que não se contenta em se contentar com a vida ser só isso mesmo... Há, pois, algo de heróico também. Sinto além disso, uma vontade de comunhão impossível, de escapar de uma solidão que não há saída, junto do desejo latejante e incontornável por uma paz que se sabe que não virá. Mas isso são somente acenos, apontamentos para aquilo que o livro traz em si. Não tenho muito a dizer além do seguinte: mora aí um carinho extremo pela existência, um amor grande, mas estranho e bastante peculiar por tudo que vive; algo que merece a atenção e o carinho daquele que lê. Lembra-me às vezes a imagem de um vinho muito caro e antigo que foi deixado em uma adega por um enólogo que já morreu, e que agora permanece esquecido por aqueles que não entendem muito de vinho. Lembra-me às vezes, numa versão mais feminina, um brinco belíssimo que perdeu seu par, e que agora serve só no porta-jóias... Alguma beleza triste e sem fim, que se tem de guardar sem poder dividir... Mas estou falando de mais, um livro tem de falar por si; talvez este livro seja, mais do que tudo: 
“Uma flor ao revés 
Na primeira primavera”...

24 de junho de 2011

A confusão dos tempos verbais

Caminho à beira-mar, vento forte. Era de tarde, brilhava um crepúsculo maduro. Algo me escapava das mãos, que vazia estavam: trilhas no meio do mato talvez, conversas num banco de praça, abraços vazios guardados timidamente nos lençóis desarrumados. Não sei. A areia macia construiu uma casa à beira-mar, olhei para ela, está ao longe. Você estaria em uma ducha no quintal a se molhar e olhar para o mar. A ducha arrancaria algo de você, não sei o que era. Lavaria algum tipo de violência talvez que tornara-te agressividade calma e permanente, força compassada e estável, que permanecia... Olhava-te pela janela. Estava feliz. Havia um brilho sorridente e calmo em mim. Meus olhos se encheriam, vendo, pois, você embaçado através da felicidade que os preencheu. A areia em meus pés me mostra, finalmente, meus pés. Olho para frente, o grande mar impetuoso. Percebi que abandonara a casa, a ducha e a lágrima que caia. Engulo o nó bem amarrado da garganta. Ele bate no estômago como gelo e diz para mim: solitária serás, sempre foras... Diz ainda: a casa não existiu, não existia, não existe e não existirá, no máximo ela existiria, mas agora, nem isso mais... Levanto bem de vagar, já era noite. Choro de felicidade por existir, por caminhar sem propósitos pela praia, por não saber se tinha ou não uma casa para abandonar...

Uma homenagem

A todo o momento estás aqui, não é mesmo? E que fazer de ti? Que fazer com o vazio impreenchível que tu és? Que fazer da vontade de libertar-me de ti em conjunto da vontade de tê-lo para sempre comigo? És o companheiro mais antigo, mais amigo, e mesmo assim, não te bastas. E quantas tentativas frustradas de personalização de ti ainda terei de me reaver? Muitas, não é mesmo? Eu sei, muitas... E porque sempre a me seguir, porque sempre és só tu? Gosto de ti, mas não só de ti. Essa é a verdade... Vais-te um pouco, deixa alguém entrar, pois esse corpo já não agüenta. Os dias coloridos querem o colorir dos olhos de um outro alguém, para olhar junto também, para fazer conjunto, compartilhar isso tudo. Pois contigo é só o grande vazio junto da grande solidão, porque tu me persegues em todos os lugares e nunca me deixa amar nada que não esteja a tua altura. Que faço eu contigo, grande nada possibilitador de tudo que amo, grande liberdade por mim incompreendida? Ideal infantil e necessário que me mantém na solidão. Seria tudo um grande erro? um enorme equívoco teórico? Talvez... Mas que fazer então? Que fazer contigo? que fazer de ti, grande carinho, tender eterno, inocente e desavisado: amor – pela sabedoria...?

O esquecimento do ser

Um dia quem sabe consiga eu substituir tudo aquilo que exige este verbo: ser; substitui-lo talvez por outras palavras que a ele mais ou menos equivalham. Desse modo possa eu talvez me lembrar de seu estranho poder e consiga, ao menos ao longe, vislumbrar sua colossal força e beleza. Numa missão solitária talvez, mas não de quem rema contra a correnteza, mas de quem vai por outros rios...

15 de junho de 2011

Sobre o processo de leitura e pensamento

- A minha leitura e o que penso, num diálogo com o autor, é mais do que uma mera leitura do que ali consta. Esse último tipo é uma leitura-julgamento, que diminui o autor que ali não está pra se defender e dar outra interpretação. Assim se engradece o leitor facilmente, que fica de bem consigo mesmo, achando que é bom ao mostrar a fraqueza alheia. Pra mim, esse processo todo vem da fraqueza.

- Exatamente! Acho que essa leitura-julgamento vem de uma fraqueza mesmo. Acho que uma leitura bem feita, pelo contrário, é um modo de ir além daquilo que já considero grande de mais e, entretanto, se me revigoro com isso, é só por saber que estou à altura do diálogo que ali se encontra, e que até mesmo consigo ir para além do que eles pensaram! É uma espécie de força no ir além, mantendo junto a humildade de saber que, por mais que se tente, muito dificilmente se chegará ao nível de autenticidade e dedicação desses pensadores... Mora aí uma força na comunidade de pensamento e na humildade do fazer!, e não a fraqueza do que julga! E também, sabe-se que esses pensadores só não foram além do texto que agora chega para nós porque, para depois desse texto, teve mais vida e mais pensamento que muitas vezes não foram registrados. Sabe-se muito bem que esses pensadores eram competentes o bastante para sempre ir além daquilo que já registraram no papel, e se não o fizeram foi por incompetência do respeito à grandeza de si mesmos, e se o fizeram, podemos constatar em seus diversos textos e ver  que o fizeram de modo sempre extraordinário, tão extraordinário que nos faz pensar na maioria das vezes: se eles vivessem hoje, muito provavelmente fariam interpretações infinitamente melhores que as nossas. Acho que a leitura, o pensamento, e tudo que fazemos a esse respeito é, no fundo, uma tentativa de ser à altura, de ser em comunidade com algo que consideramos genial. É uma tentativa de irmandade e comunhão com o espírito sagaz e dedicado desses homens! Mas não só isso, claro, porém acho que esse é um ponto principal, um fator muito importante que existe dentro do prazer que temos para com o processo de leitura e pensamento.

Pensamento dispersivo

Existe um tipo de dispersão do pensamento que instiga a uma eterna tentativa da reunião dessa dispersão; tudo de um modo cambaleante, mas compassado, que mostra sempre a possibilidade de afirmação da impropriedade e diversidade dos acontecimentos como a possibilidade de apropriação e do intenso labor interpretativo que mora junto da simplicidade complexa de cada ato!

13 de junho de 2011

Declaração a respeito dos verbos

Deixa eu fazer uma declaração importante: sou apaixonada pelos verbos! Mas muito! Vê: futuro do pretérito, pretérito imperfeito, pretérito-mais-que-perfeito! A tabela de conjugação dos verbos no português é quase uma poesia por si mesma! Tem também aquela coisa das partículas implícitas nos tempos subjuntivos: que, se e quando! No alemão não é legal assim não, viu, fiquem sabendo. Não chega nem perto! Atrever-me-ia dizer que Heidegger não sabe é de nada, que com essa tabela da conjugação dos verbos é possível fazer filosofia até de ponta cabeça! e que a nossa tabela de verbos, por si, é poesia e filosofia ao mesmo tempo!

12 de junho de 2011

O fim do rock'n roll

O melhor ocorrido na música dos últimos tempos foi que rock'n roll conseguiu se separar do "'n roll". Mas não só isso, melhor ainda: mais atualmente, o principal acontecimento na música foi o rock ter chegado a seu fim e dado vazão ao nascimento do que chamamos de post-rock, juntando alguns antigos elementos do rock com elementos da música clássica e das músicas regionais tradicionais (que talvez possamos chamar de folk tradicional). Da mesma forma que Heidegger nos diz que houve o fim da filosofia, podemos dizer que houve o fim do rock. O rock chegou a um ponto no qual esgotou todas as suas possibilidades de articulação, e o que acontece dentro de suas possibilidades agora é somente uma repetição daquilo que já foi feito. As bandas de hoje que ainda tentam manter o título "rock", o fazem apenas por um tradicionalismo barato e, principalmente, por preguiça. Vejo que a enorme maioria dos artistas que mais merecem consideração, ou seja, que fazem música pela música, quer dizer, pela necessidade não utilitarista de se fazer arte, têm uma influência abissal do rock, mas estão bastante longe do lema "sexo, drogas e rock'n roll", e de qualquer clichê ligado a esse âmbito cultural e tecnicamente musical; para ser mais clara: estão longe de clichês ligados à cultura de libertinagem e vício em drogas do rock, assim como ao campo harmônico e estrutural das melodias de rock, incluindo também as letras das músicas. Essa cultura e estrutura vive somente como uma vaga lembrança: vive somente como a lembrança daquilo que um dia foi o nascimento de uma grande coisa, mas que hoje é somente moralismo. O rock teve seu fim, esgotou suas possibilidades e, com isso, deu lugar ao surgimento de coisas novas na música, que não conseguimos muitos rótulos ao tentar enquadrar; aliás, pelo contrário!, conseguimos rótulos de mais, e exatamente por isto: por serem tipos de música tão variados, a ponto de se tornar quase impossível rotular, surgindo assim nomes como lo-fi, math-rock, slowcore, e tantos, tantos outros. Hoje, por causa disso, a música está mais relacionada ao "experimental": ligando este termo à experiência: às experiências de criação de novos elementos depois de se ter visto quão repetitivo se tornou algo que um dia foi revolucionário. Hoje o rock'n roll é algo tão reacionário quanto qualquer tradição fortemente arraigada e que tende morrer e, por isso, não quer se deixar morrer, e desencadeia assim uma série de atitudes reacionárias, sejam elas conservadoras ou rebeldes (pois a rebeldia no rock já se tornou uma atitude tradicional). Talvez o rock seja ainda muito mais reacionário do que qualquer outro âmbito, pois é um reacionário que se esconde na máscara de libertário e despojado, quando, hoje em dia, é só preguiçoso e acomodado. O rock teve seu fim e nos libertou para o novo na música. É uma pena que a maioria desperdice esse fim e queria manter o rock a partir de um tradicionalismo que tenta fazer um "revival" das décadas passadas; com relação a isso conhecemos muitas bandas, não é mesmo? Talvez bandas de mais! Com relação ao que se diz hoje "rock" e está por aí exibindo suas carinhas bonitas na internet e na TV, acho que não preciso comentar muito, pois se sabe que isso é somente expressão de uma sociedade individualista, personalista e vaidosa de mais, que não consegue colocar a expressão artística acima do indivíduo, e desse modo nega a própria arte e afirma somente o indivíduo vaidoso e voluntarista, queredor da criação de sua própria imagem como o substituto de um Deus que já morreu. É picaratagem, sabemos, e nos serve somente como objeto de crítica. O fim do rock é algo bom, e deve ser assumido da maneira mais fecunda possível, e com isso quero dizer: deve ser trazido às claras e assumido como uma tarefa que se cumpre quase por obrigação; e digo "quase", por não ser uma tarefa totalmente necessária, mas que, ao mesmo tempo, se mostra como a única possibilidade de continuarmos de maneira suficiente e decente com isso que chamamos de música. Porém, destaco o seguinte, para deixar muito claro: não estou aqui apoiando as apelações para o experimentalismo extremo, pois muitos querem continuar com a preguiça, comum ao rock feito hoje em dia, com tentativas de músicas experimentais de mais e pouco artísticas: dando valor muito mais à fuga do tradicionalismo do que à arte mesma e, assim, de algum modo ainda mantendo o tradicionalismo: pois ir contra o tradicionalismo pelo seu oposto contrário é ainda estar dentro do tradicionalismo, já que se tira exatamente deste suas regras: assume-se as regras tradicionais apenas virando-as ao avesso; como se com isso se escapasse dessas regras, quando na verdade isso é estar mais do que nunca dentro delas. Lancemo-nos ao fim do rock, mas não caiamos na preguiça de afirmar que não é bom aprender teoria musical, de que não é legal ser um músico dedicado e competente. Sabemos, cuidado e esforço fazem parte da boa arte. E se me chamarem de tradicionalista por isso, respondo com calma a vocês, do "rock'n roll": os tradicionalistas são vocês, que querem manter um lema morto e que carregam atrás de si somente uma carcaça.

8 de junho de 2011

Sobre o tempo da eternidade

Houvera um tempo em que eu descia as escadas, cheia de esperança, com sonhos em verde limão, rosa chá, azul anil e vermelho carmim. O céu mal existia, as ruas, mal sei se as via. Via somente meus sonhos, coloridos aquarela, infantil apego à eternidade finita que já postulava meu destino. Cada pisada no chão era um salto no infinito, cada olhar, a visão daquilo que seria. Mas a vida fez questão de me mostrar que era necessário reconhecer a aquarela como tinta pra quadros, a eternidade, como alimento ilusório do durante, e a pisada no chão, como pisada no chão. Daí, em vez de completamente amarga ou de completamente doce, como é comum acontecer nessas situações, fiquei assim, agridoce, apenas com um leve peso nos olhos: coisa de quem sabe que a vida é a coisa mais difícil a se cumprir, mas que nem por isso tenta escapar da certeza instigante e dúbia que é o estar nela. Por isso sinto hoje que toda minha tristeza vem do amor... Sinto que, no fundo, minha tristeza mora dentro da felicidade pela ambiguidade da vida. Enfim, aprendi esses tempos que é preciso antes e acima de tudo amor, mas que esse sentimento só se sustenta quando acompanhado de uma boa dose  de realismo... 

29 de maio de 2011

A verdade como sonho

A verdade não é algo que se tem de conquistar, não é uma criação ou uma perspectiva na qual se deve estar, mas uma linha tênue entre o querer e o poder, entre o poder e o necessitar, entre o necessitar e o dever... É a entrega àquilo que se acha que é, mas que nunca se tem certeza se realmente é. Ela é a visão tentadora de uma segurança que se sabe que não há. A verdade é um sonho belo de eternidade que se propõe como possibilidade só no presente, é um futuro incerto que sempre escapa de alguma forma, não se sabe como. É um sonho perdido que não se consegue parar de ter saudade, e que move mais pela falta do que pelo seu estar aqui. É algo que remete muito mais ao cuidado, sutileza e fragilidade do enquanto e do durante, do que à grandeza e conquista de um futuro. Se Nietzsche usou a metáfora de que a verdade é como uma dama a qual se tem de conquistar, respondo-lhe com uma metáfora de seu velho mestre, que foi seu mestre não só em muitas outras coisas, mas também na arte de fazer metáforas: "A verdade não é uma prostituta, que se coloca no pescoço sem ela querer: ao contrário, ela é uma beleza tão frágil, que não permite, nem mesmo àquele que tudo por ela sacrifica, saber ao certo se está a seu favor." ¹

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1. "Die Wahrheit ist keine Hure, die sich denen an den Hals wirft, welche ihrer nicht begehren: vielmehr ist sie eine so spröde Schöne, daß selbst, wer ihr alles opfert, noch nicht ihrer Gunst gewiß sein darf." (Arthur Schopenhauer. Die Welt als Wille und Vorstellung. Aus der Vorrede zur zweiten Auflage.)

26 de maio de 2011

Especulações a respeito da ação

Quando somos muito influenciados por algo e nos damos conta disso, numa vontade de independência normalmente tomamos a posição oposta a esse algo, achando que assim teremos uma posição mais própria; quando somente entregamos essa posição à mera oposição já estabelecida pela coisa a que se opõe, o que nada mais é do que a tentativa de forjar para si mesmo uma autenticidade. É necessário estar em paz consigo mesmo e com os outros para conseguir tomar decisões próprias... Mas resta saber, o que é essa paz? Ela é possível? E se cada ação conseguir se sustentar somente enquanto reação a algo? Parece haver uma distinção entre uma ação própria e aquela a que simplesmente se entrega ao que já está dado ou, o que dá no mesmo, aquela que simplesmente é contra o que já está dado. No entanto, mesmo a ação de pensar dessa maneira que penso agora, é um tipo de reação referente a algo e, por isso, de algum modo não possui completa autenticidade. Parece-me impossível ter um tipo de autenticidade completamente independente daquilo que já está dado, daquilo que é normal, comum, ordinário, pois a autenticidade me parece sempre algum tipo de reação contra esse normal que aí está. Talvez a autenticidade resida não numa independência, mas numa dependência assumida daquilo que se depende, uma decisão a respeito do que depender... Esse é um assunto delicado, pois essa decisão não ocorre no vazio de uma subjetividade inteiramente livre para escolher o que quiser, mas também não se pauta somente numa determinação histórico-cultural-individual que se construiu ao logo do tempo. Parece que a decisão reside entre essas duas posições, uma ação entre o construtivismo e o determinismo, digo, para não fazer uso indevidamente de termos: parece uma decisão que reside no entre da total livre escolha e da total impossibilidade de escolha. O construtivismo dá poderes de mais ao homem, enquanto o determinismo nega um poder que este tem. Nessas horas me parece impossível novamente escapar de Aristóteles, pois uma ação virtuosa é aquela que encontra o meio termo entre a livre escolha e o destino determinado, já que aceita aquilo do qual não pode fugir, mas também faz restrições e reconhece quando algo ruim nesse destino pode de ser modificado: reconhece aquilo contra o qual se pode e deve lutar. Pois saber diferenciar aquilo que se pode daquilo que se quer é essencial, no sentido de ser extremamente necessário quando se tem em conta algum tipo paz na existência. Muitas coisas queremos, e isso é fácil, querer é fácil, difícil é saber querer aquilo que se pode, e não só isso, querer aquilo que de pode e deve. Pois, igualmente, muitas coisas podemos, mas nem tudo que podemos, devemos fazer. E o dever aqui não é algo kantiano, que respeita algo pré-estabelecido; o dever aqui nasce de cada ação, de cada ocupação, de cada situação peculiar e única. Mas assim acabo eu amarrando de mais às coisas e querendo determinar uma norma para como se deve agir para conseguir paz e assim ter uma autenticidade, quando o que me tento me remeter aqui é a algo outro... que não diz respeito a um sistema que tenta preencher o vazio esquemal-totalizante que existe nas ações, mas tenta indicar uma impossibilidade de se estabelecer esse tipo de esquema, e que, no entanto, compreende que nem por isso cada ação não tenha uma espécie de regra. Por isso, não se pode pretender negar nem uma imposição esquemal, nem uma contingente, ou, o que dá no mesmo, nem uma certa liberdade, nem uma certa impossibilidade. O que cada um deve, quer e pode, nem ele mesmo sabe, pois não há isso talhado de antemão. E esse é o perigo constante da existência... Cada ação nossa é o pontapé inicial de algo que só conseguimos ver muito de longe o que seja, e que podemos imaginar o que seja, mas jamais saber exatamente. Mas isso não quer dizer que não consigamos prever de algum modo, e que porque não conseguimos prever exatamente, não tenhamos que tentar prever absolutamente nada. Não! Tentar prever é importante, mas temos que ter incluído nas previsões as contingências, temos que estar preparados para a rasteira, e isso não sempre amedrontado, olhando pros lados, desconfiando de todos, mas nos fortalecendo, para quando cairmos tomarmos não muito mais do que alguns arranhões. Falando assim parece aqueles sistemas clássicos da auto-ajuda que fornece a ilusão de regras muito eficazes para se conseguir algo como a paz. Mas não se trata disso, nisso tudo reside um andar na corda bamba constante, um olhar para o abismo; reside aqui, muitas vezes, a sensação de que não vale a pena continuar pois nada faz absolutamente sentido algum... É algo de cunho extremamente pessoal, e se de algum modo condiz com a personalidade de um outro, é somente por coincidência. Falo isso, para não acharem que quero fazer uma ética do poder, dever e querer, para não acharem quero criar a fórmula do bem viver, pois desse bem viver que normalmente se quer eu nunca entendi a respeito, pois é um o bem viver das regras e da segurança, enquanto o meu bem viver é saber viver em paz com esse abismo que me assombra constantemente. Na verdade talvez se consiga uma paz com esse abismo quando se aceite que se tem de permanecer em constante guerra com ele. Mas não uma guerra mesquinha, que apunhala pelas costas, mas uma guerra, por exemplo, contra uma característica que se considera muito ruim em uma pessoa que se ama muito, de modo que não se pode nem se deve negar tal característica, por mais se queira, e sim se deve aceitá-la e saber conviver com ela lutando contra ela a cada vez que ela aparecer. Vivi isso com um egoísmo exacerbado de uma pessoa que gosto muito, e tive de aprender a conviver com ele e a cada vez tentando à mil e um malabarismos para não demonstrar que isso me desagradava profundamente e, assim, tecer comentários brandos e firmes, que pudessem ajudar essa pessoa a sair disso que a atrapalhava na convivência com as pessoas que ela mesma ama. É difícil, eu também tenho muito desses “defeitos” que têm de ser abandonados, que dificultam nossa convivência com quem amamos, e temos de algum modo aprender a lidar com eles em vez de tentar negá-los absolutamente, pois assim entraríamos num processo de negação de uma coisa que nos constitui, e é quase certo que isso traz conseqüências graves ao nosso humor, ao nosso modo de lida com as coisas, pois é como se estivéssemos negando nós mesmos. Temos de, antes de negar o que há de ruim em nós, tentar compreender esse ruim... E de novo parece uma fórmula da auto-ajuda, quando é somente visão do abismo, tentativa de compreender esse vazio abismal que é o uma vida sem Deus, sem família... uma vida solitária. A cada um de nós cabe decidir aquilo que somos capazes e aquilo que devemos; só não está facilmente sob nosso domínio aquilo que queremos... Por isso, mesmo que querer seja fácil, mesmo que o querer ocorra mais comumente, com mais facilidade, ele é também o mais difícil, pois muitas vezes temos que aprender a lidar com quereres somente como quereres, pois eles muitas vezes não são realizáveis... Além do mais, não há formula no mundo que consiga decidir algo por nós. Viver é difícil, cada coisa ligada à vida é difícil, e se não soubermos lidar com o difícil, nos transformamos em algo precário, em algo que apenas amolece e morre. E se fazemos o contrário, se por uma vontade vida extrema, enrijecemos e enclausuramos tudo num sistema fechado, endurecemos de modo a não termos como nos mover e, assim, aos poucos, também morremos... Por isso não consigo fugir, ao menos agora, de Aristóteles: é necessário achar um meio termo entre a maleabilidade e a dureza, é necessário ser duro e maleável ao mesmo tempo, algo como a metáfora: ter os músculos fortes, mas não muito, para não perder a elasticidade propícia nos movimentos. É necessário ser forte, mas não forte ao ponto de enrijecer, e sim forte até o ponto de não perder a maleabilidade... E isso tudo são somente especulações, especulações de uma estudante de filosofia que não está conseguindo escrever sua monografia, provavelmente por saber que ali não mora algo realmente filosófico e, além disso, por ser uma pessoa que não consegue ninguém pra conversar sobre os temas que mais a interessam e necessita, pois, escrever... São também somente especulações que um dia aparecerão como erradas, mas que agora aparecem como a coisa mais acertada que alguém, no tipo de vida que levo, poderia dizer.

25 de maio de 2011

Quão forte?

Quão forte se é para suportar uma verdade? É a pergunta do velho amigo. Mas pergunto eu: quão forte se é para conseguir dizer uma verdade que se sabe que vai ferir? Quão forte se é para conseguir considerar o outro forte o bastante para conseguir suportar essa verdade e, caso ele não consiga, estar disposto a instigá-lo ou, poderia dizer, a ajudá-lo a conseguir? Parece-me que existe alguma grande nobreza, ainda maior do que a do anti-cristão, na compaixão do forte... 

23 de maio de 2011

Beleza não compartilhada

Ter algo bonito assim e não poder compartilhar com ninguém, ter de guardar isso só pra si, é como um amor não correspondido, um carinho grande por alguém, carinho que se tem de trancar no peito e fazer adormecer... É que nem a vontade de um abraço, recolhida no vazio dos braços quietos e pendurados na solidão; é como o brinco mais belo que já se teve mas que perdeu seu par e, por isso, serve apenas para ficar guardado no porta-jóias; é como ter algo muito belo e importante para dizer, a alguém, que já morreu...

20 de maio de 2011

Questão questionável

Esses dias me disseram que escrevo para tentar romper a solidão, mas como, se concordo e, junto com isso, concordo também com o contrário: que escrevo para manter a solidão?...

Reconciliação com o tempo perdido

E se no fundo cada palavra que digo for somente um devaneio, uma desculpa inocente de alguém que quer encontrar o sentido único de tudo? E se, no fundo, for sempre somente uma defesa contra um desejo do que não se pode realizar?: uma vontade de um grande sentido como tivéramos nós antes da morte de Deus? Não seria isso tudo, cada palavra, somente uma defesa contra a distância e a impossibilidade de um sonho romântico que permanece firme como vontade, mas se desfaz quando "realidade"? Pode ser... Entretanto acho mais pertinente ver essas dúvidas como pertencentes muito mais à dificuldade que existe em desistir de um grande sentido que não mais pode ser, do que como a defesa contra essa grande meta: parece-me mais a saudade e a dor da perda do grande sentido, do que a tentativa de se defender dele ambicionando negá-lo. Desistir de um grande sentido é difícil, porém necessário e bom quando se consegue, a partir dessa perda, aprender a viver no durante das coisas. Assim diz o pensamento agora: abandone a grande meta, viva no durante... Mas é difícil mesmo, viver no durante; pois, a grande meta, que é o jagunço do grande chefe, que é o futuro do pretérito, percebendo a possível desonra da imagem de seu líder, quer vingar sua morte, e persegue a todo custo o durante, seu pior inimigo. Mas o durante se mantém tranqüilo, não pelo querer permanecer, mas por sua obviedade e clareza na ação. O durante não tem que tentar permanecer, ele simplesmente permanece..., e isso mesmo quando escondido na ânsia do homem de hoje por aquilo que não pode ter. O durante é o inconcreto concretizando-se, a cada instante: é o concretizante; no particípio presente. Ah, tempo perdido! Tempo verbal que se perdeu nas aventuras do nosso pensamento e permaneceu somente como substantivo e adjetivo, ou se pode substituir, somente como sujeito e predicado... quando na verdade é uma exigência temporal, algo que se impõe no viver. Ah, particípio presente! tempo que não é mais verbal!... Mas me falem agora uma coisa: há em algum lugar um tempo que não seja verbal? Porém, mesmo esquecido, ele é um tempo que ainda permanece, e, se me fiz entender, ou seja, se consegui fazer o leitor sentir, nesse pequeno texto, ao menos um pouco daquilo que sinto agora, ver-se-á que é um tempo que permanece não somente como substantivo e adjetivo, mas como algo mais límpido e libertador do que qualquer substantivo e adjetivo, ou se pode ainda dizer, do que qualquer sujeito e objeto... Antes tivéssemos perdido o futuro do pretérito e mantido esse tempo da concórdia e do contentamento com o durante. Quiçá consigamos, mediante todo esse esforço, substituir um pelo outro e assim mais viver, bem viver, amando mais o simples e fazendo dele toda a grandiosidade que se pode mais amar e querer... (Longa Pausa) Mas agora penso cá comigo: que grande bobeira estou a falar. Estou eu aqui, tentando apreender essa coisa, sabe-se lá o que, pela palavra durante e por um tempo perdido por mim romantizado. Que coisa boba é viver... Às vezes caio na risada, numa risada solitária e muito pura, de não conseguir parar, ao ler o poema de Parmênides, por exemplo, ou de lembrar da afirmação de Thales de que "tudo é água"; ou ao me olhar no espelho e saber que ali existe algo que eu chamo de "eu"... É de se rir mesmo: saber que esse "eu" pode ter nascido da vontade de um homem de explicar a realidade totalmente... E saber que essa interpretação que acabo de dar é historicamente localizada, finita, e que daqui há algum tempo não existirei mais nela... É extraordinário!, mal dá pra acreditar!, muitas vezes duvido de tudo que a filosofia me ensinou... (Pausa) Como posso me fazer entender? É difícil falar, cada palavra acaba se enviesando para fora daquilo que se pretende manter. É tudo muito incerto... cada palavra sustenta aquilo que um dia não foi capaz de dizer, e assim inaugura um aberto, instaura um abismo... (Pausa) E eu me rio de mim mesma, muito, quando me vejo aqui, a escrever para ninguém, e a saber que esse texto se perderá completamente e que serve somente para mim, para eu mesma suportar toda a dificuldade que existe em uma vida solitária... E quando digo "eu mesma" já me coloco como um "eu", e já me coloco também como "gênero feminino", parecendo assim que sou um "eu" e um "gênero", dando margem a possibilidade da existência de uma pré-compreensão disso que posso ser, tirando assim um pouco da insegurança, uma insegurança que diz respeito a algo muito certeiro: que ninguém "se" conhece, pois não há um "se" para alguém conhecer... Viver na palavra é viver diante de um abismo, no qual é necessário o máximo de cuidado para que não se desvie do que se mostra só para tentar negar essa insegurança constante que é viver com a vertígem da queda... É, não é fácil... Ao menos acho que nunca fui tão sincera...  

10 de maio de 2011

Verdade e liberdade

A verdade e a liberdade
são duas coisas muito estranhas
porque uma enquanto prende
outra o aberto sempre entranha

Mas pensando mais certeiro
moram sempre uma na outra
pois sem grade e sem peso
liberdade nada consta

E sem horizonte aberto
a verdade é um sem-norte
que escreve, carcereiro
epítáfios de uma morte

7 de maio de 2011

Para a simplicidade

Essa vida nada consta
de certeza e infinitude
e por isso sempre conta
com a beleza e com a virtude

1 de maio de 2011

Provisoriedade e bom-senso

Na frase: "O que me possui é somente aquilo que absolutamente não se deixa possuir." existe algo simplificador e absurdo, que deve ser abandonado. Uma frase mais correta, que substituiria mostrando melhor o que aquela tentou, seria: "não se pode determinar o que nos possui, porque muitas coisas constam em algo que consegue nos possuir, e mesmo que conseguíssemos fazer uma análise suficiente a respeito disso, ela seria sempre provisória, pois outros elementos, novos elementos apareceriam no durante mesmo da análise, de modo que é impossível determinar uma característica apenas como a principal; muito menos somente uma característica como sendo a determinante." Isso mostra o seguinte: determinar uma característica inapreensível como sendo a determinante (por exemplo, dizer que o mistério é o fundamento de algo, ou que o próprio inapreensível o é) é ainda simplificar e facilitar a análise de algo. Conceitos que apontam o ideterminável dessa maneira, quer dizer, que determinam o indeterminável como algo que não se pode determinar, não fazem jus ao indeterminável, pois o que se tem de fazer é exatamente isto: tentar determinar o indeterminável mesmo com a certeza de que nunca conseguiremos de-terminá-lo. É assim que se cria, é assim que se suporta uma vida sem Deus: fazendo seu papel de maneira ainda melhor do que ele fazia: determinando, a cada vez, o indeterminável; e assim, dando sentido. Mas note bem, tal colocação nada tem a ver com uma vontade de irracionalismo e negação de conceitos e teorias, pois estes são necessários e, se bem utilizados, ou seja, se ocorrendo junto com aquilo que experienciamos, são bons, no sentido moral mesmo, de levar a excelência. Pois existem sempre aquelas interpretações que tomam a impossibilidade de uma teoria total como a obrigação de se tornar anti-racionalista, anti-teórico e anti-conceitual. Essa atitude não passa de uma resposta à frustração de não poder apreender a "realidade" com uma teoria total, é uma frustração para com aquilo que a "realidade" exige: a criação de conceitos e teorias sempre provisórios, e nunca finais. É sobre isso a que Nietzsche parece se referir quando fala de uma assunção da capacidade criativa do homem. Há de haver uma assunção da impossibilidade de teoria final sem uma frustração para com isso, sem a negação desta impossibilidade a partir da tentativa de desconstrução de conceitos e teorias; essa é a crítica que faço aos que acreditam que desconstruindo valores, conceitos, teorias, estão automaticamente fora do que Nietzsche chamou de vontade de verdade e que aqui agora me referi como vontade de teoria final. O desejo voluptuoso por desconstrução advém do "trauma" causado pela impossibilidade de teoria final, pela falta do grande sentido para a vida que isso trazia; é necessário superar esse "trauma", e não assumi-lo como o certo a se fazer. É necessário compreender porque há essa vontade de conseguir uma teoria final e da desconstrução descabida, e aprender a lidar com isso, refrear tais vontades. Isso pode ser conseguindo através da dedicação àquilo que é provisório. A maioria de nós tem grandes problemas ao se dedicar àquilo que é finito, de aceitar a finitude e provisoriedade das coisas: seja a leitura de um texto, o preparar de um almoço, ou a vida como um todo; afinal a vida mesmo é sempre provisória e finita. Tendemos pensar da seguinte maneira: "se vai se findar, pra que se entregar inteiramente?" É preciso aprendermos que a vida está na entrega ao provisório... Mas isso não quer dizer que temos de nos integrar a tudo "como se fosse a primeira vez", pois temos de saber usar o que já vivemos para viver melhor aquilo que vivemos hoje. Se não for assim, sempre viveremos as mesmas coisas e cairemos nos mesmos buracos, o que seria, enfim, uma espécie de burrice, de irracionalismo mesmo. Se resguardar para tentar não cometer os mesmo erros é deveras importante, o que não significa que temos de criar teorias antecipadoras que dêem a certeza do que vai acontecer, do tipo: se antes tal pessoa que agiu assim me fez mal, essa que agora agiu da mesma maneira comigo também o fará, então me afastarei dela. Não. A situação é outra, a pessoa é outra, há sempre novos elementos para teorizarmos, inclusive em nós mesmos. É necessário fazer uma análise completamente nova a respeito de uma nova situação, mesmo que tenhamos de suportar o medo de que ocorra tudo do mesmo jeito, de que cometamos o mesmo erro. Esse medo de cometer o mesmo erro é bom, mas tem de saber ser usado para impulsionar teorias mais abrangentes e fecundas, e não pra impulsionar uma entrega total e irracionalista, ou, pelo contrário, um enrijecimento normativo que quer determinar tudo de ante-mão. É sobre isso também que falava num texto anterior, a respeito do bom-senso: a respeito de um meio termo entre o "conservadorismo" e o "liberalismo". A assunção de análises provisórias seria a assunção do meio termo entre o "conservadorismo" e o "liberalismo", que chamei de bom-senso. Afinal, conceitos e teorias de mais fazem o homem ficar receoso de tudo, a ponto de se aprisionar, não conseguir ir para além daquilo em que acredita, negando-se viver muitas coisas que não deveria se privar, para assim conseguir viver melhor. Só que, sem conceitos e teorias, podemos nos juntar às vacas e aos leões, não é mesmo? E se assim se quer, que assim seja: juntai-vos, pois, a eles, irracionalistas e "libertários" de todo tipo. No meu caso, democratas que sois, "respeitadores" do direito e da livre expressão da minoria, respeita-nos, minoria, e deixa-nos "escolher" tentar ser o que somos, deixa-nos "escolher" tentar ser humanos... 

27 de abril de 2011

Ein Lied für das Immer

Du bist immer hier
auf der Zeilen des Papier
zwischen Buchstaben des Buch
wo stütze ich meinen Fuß

Aber, wer bist du?
Sag mir bitte, wer ist du?
Ah, wo bist du?
Hier, weiß ich, aber wo...?

Ich hab' Sehnsucht nach dier
aber wie? du warst immer hier...
du bist das Licht unbemerkt
Gedicht, dass man nicht versteht...

24 de abril de 2011

Sentido e meta

- Não tem pra quê, não é assim que a coisa funciona. Não há um grande sentido nas ações, as ações têm seu sentido nelas mesmas, na simplicidade de sua ocorrência. Você tem que antes estar certo daquilo que faz pra não precisar desse tipo de pra quê. Se faz uma coisa porquê se faz, porquê se gosta de fazê-la, ou simplesmente porque se tem de fazê-la. 

- Mas isso não é ser ingênuo, não é até mesmo querer algo que não se pode ter? Pois, pelo que vejo, é tudo movido por um projeto, uma meta.

- Veja bem, o pra quê que você fala é um sentido com uma grande meta. Vejo que existem metas e metas, projetos e projetos. Se meta mostra depois, posterioridade, além, e projeto, pro-jectu, jogar, lançar adiante, para frente, então isso não significa apenas uma finalidade a ser atingida, e sim apenas palavras que remetem a noção de que sempre há um "para um depois do aqui e agora". Temos que entender essa meta como a possibilidade da continuidade do durante, e não algo que determina o durante e o enclausura no estático, pois, na verdade, o durante é que determina o rumo, o sentido da meta, e não o contrário. Caso se coloque o futuro como determinação do presente, se enclausura o presente em algo que tem de vir, e tudo que estiver nesse presente e não fizer parte desse ter de vir, será sentido como inútil e sem sentido. É necessário aceitar o durante das ações para aprender a viver sem Deus, ou seja, viver sem um sentido para uma grande meta. A meu ver, a assunção da morte de Deus é a assunção da simplicidade do viver, a transferência da "ação para Deus" para a "ação no mundo". E isso é muito mais complicado do que parece, pois agir no mundo não é também agir do modo que se bem entende, pois fazer isso é ainda querer contestar Deus de alguma forma, e ainda necessitar de sua existência. Agir no mundo é estar na aptidão de agir de modo coerente não só com nossa vontade, mas com a conjuntura na qual estamos. É quase uma união do necessitar, querer e ser capaz. Talvez o dever seja exatamente essa união, pois o que se deve é querer aquilo que ao mesmo tempo se necessita e se é capaz. Acho isso o mais difícil. Só com a união de capacidade, possibilidade e necessidade há uma ação completa, a qual se faz por prazer e por dever ao mesmo tempo, na qual se quer aquilo que se deve.

16 de abril de 2011

Moralismo e bom-senso

Existe uma linha tênue que separa o bom-senso do moralismo, a qual somente aqueles de bom-senso serão capazes de identificar e experienciar. Os moralistas, sejam eles "conservadores" sejam eles "liberais", nunca chegarão perto de desconfiá-la; pois afinal regras rígidas de mais são, claramente, moralismo, mas ocultamente, e por isso de maneira muito pior, o "tudo pode" também o é. No caso, o "tudo pode" é um somente um moralismo burro, sendo que o "conservadorismo" é só um moralismo medroso, que muitas vezes tem que apelar para a "inteligência". Por isso Aristóteles é o rei da ética e da virtude, pois jamais separou, ao menos na ética, teoria e ação e, exatamente por isso, sabia muito bem que a grandeza está no saber existir nos meios-termos... Sendo assim, o "tudo pode" é somente a burrice daqueles que não sabem estabelecer medidas, enquanto regras muito rígidas é somente a tentativa frustrada de defesa daquele que não sabe lidar com o perigo que aí sempre está. Por isso também, o corajoso é o forte-inteligente, e o inteligente é o que tem teoria e ação dentro de uma mesma coisa, que agora chamo: bom-senso. E por isso também, o pensador é aquele que fica no durante das coisas e das idéias, e o artista, aquele que dança no mundo como se este - tivesse alma...

8 de abril de 2011

Autenticidade do tédio

Só se sabe o quão difícil é suportar o tédio quando se tem noção da a extrema vontade de estabelecer para ele uma causa concreta, mas ao mesmo tempo se sabe também, como um bom investigador de si, que não se deve fazê-lo; pois se vê claramente: ele pertence a algo outro, é um sentimento referente não à falta de algo que exista de fato, e sim a um vazio abismal que quer ser preenchido, mas que simplesmente não pode sê-lo... 

5 de abril de 2011

Quase e seus tempos: uma homenagem a Mário de Sá-Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém..."

(Mário de Sá-Carneiro)

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"Um pouco mais de sol - eu era brasa / um pouco mais de azul - eu era além". Veja, o tempo usado: pretérito imperfeito. Por que não usa o futuro do pretérito?: eu seria brasa, eu seria além? De acordo com as regras gramaticais seria este o tempo a ser usado, já que ele, com a frase, dá a entender que caminha pela possibilidade de algo que aconteceria caso algo outro tivesse possibilitado. Mas não, usa justamente o pretérito imperfeito, propositalmente, para frisar algo. Mas frisar que? O pretérito imperfeito é o tempo que indica um período do passado que já passou e acabou completamente. "Eu era uma criança": ou seja, durante uma época da minha vida eu fui criança, mas já não sou mais e absolutamente não posso mais sê-lo. "Eu vendia frutas": não vendo mais. Não é como: eu vendi frutas e ainda posso vendê-las. Esse é um tempo que, claro que não sempre, mas na maior parte das vezes, indica algo que aconteceu num determinado espaço de tempo, já se findou e não retornará. Então, ele poderia querer se referir ao fato de que não somente há algo impossibilitador de seu ser-além, mas principalmente que esse algo, em uma determinada época, pode possibilitar esse ser-além, só que já passou e não pode possibilitar mais de forma alguma no presente: que a possibilidade de seu ser-além já se encontra num passado imperfeito: num determinado lugar cronológico do passado: algo que teve início, meio e fim e não retornará, a não ser como a vontade cruel e nostálgica daquilo que poderia tê-lo levado além. Ou seja, ele despresentifica a possibilidade que existe no futuro do pretérito. Ou seja: "um pouco mais de azul - eu seria além" pode significar: ainda há a possibilidade de se ter um pouco mais de azul; mas quando ele troca o tempo pelo pretérito imperfeito, ele anula completamente essa possibilidade e a coloca no campo de uma impossibilidade presente, sem deixar de mostrar que é a impossbilidade de algo que poderia ter acontecido. E podemos ainda jogar com a palavra passado imperfeito num sentido mais "literal", já que algo aconteceu em seu passado e o tornou um ser imperfeito: seu passado, que-não-foi-per-feito, tornou-o um alguém que não conseguiu ir além. No entanto, ao meu ver, mais imperfeito que o pretérito imperfeito é o futuro do pretérito. Tempo maldito, como já disse uma vez: o tempo daquilo que um dia teve força para ser mas que não conseguiu vingar, e que agora é somente como possibilidade daquilo que seria mas não é. Porém, ele, nessa frase espetacular, conseguiu juntar o futuro do pretérito com pretérito imperfeito, dando a sensação de futuro do pretérito através da estrutura da frase e, no entanto, colocando propositalmente um verbo no pretérito imperfeito exatamente onde a regra pede um futuro do pretérito. Ele usa a regra pra fugir da regra e criar uma nova sensação de tempo, uma nova medida; é coisa de gênio, coisa de gênio!  Desse modo, ele consegue juntar a melancolia e nostalgia que reside no futuro do pretérito com a sensação de impotência e impossibilidade que existe na ação cronologicamente determinada e findada que existe no pretérito imperfeito. É coisa de gênio, repito, coisa de gênio! Não bastasse isso, no final ele muda o tempo: "mais um pouco de sol - eu fora brasa/ mais um pouco de azul - eu fora além"; pretérito mais-que-perfeito, o passado de algo que não somente passou, de algo que não só já foi concluído, mas que inclusive se encontra para antes do que já terminou completamente: algo que se encontra para além do passado. O possibilitador de seu ser-além já está para além de um passado: é um passado mais do que selado, um passado mais do que passado. Desse modo, esse homem consegue juntar três tempos!: o pretérito imperfeito, o futuro do pretérito e o pretérito mais-que-perfeito; tudo numa mesma frase! Dá assim, além de tudo, a sensação de que a impossibilidade de seu ser-além é ainda anterior que qualquer coisa que tenha acontecido e se tenha findado. Ele joga para um passado remoto a possibilidade de seu ser-além: se mostra longe dela, quer mostrar que ela é impossível e remota... É genial, mal posso acreditar quando leio! Um dos poemas mais belos que já se conseguiu e conseguirá escrever. É de uma sensibilidade extrema, de uma lucidez assustadora! Um homem que enxergava sua condição sem medo, que tinha força o bastante para ser um gênio, e o foi, mas que não conseguiu ir além. E no final, como frase derradeira ainda deixa para nós a deixa: "se ao menos eu permanecesse aquém..."; que está no imperfeito do subjuntivo, e que usa a poderosa partícula de possibilidade "se"... O grande problema é que esse poema me liberta naquilo que não me posso deixar ser! Senão, eu o gravaria com sangue - a ferro, vidro e corte - nas paredes de todos os lugares em que me fosse possível.  

1 de abril de 2011

Eterna convalescença

- Eu tenho tido vontade somente de estudar, estudar, estudar... mas, ao mesmo tempo, não consigo fazê-lo completamente: por muitas vezes sento para ler, leio uma ou duas páginas e então começo a vagar pelos mais diversos pensamentos. O texto do Van Gogh ainda me toca, muito, e me sinto exatamente como ele o descreve: uma ave enjaulada, que têm força para empreender algo, mas que, por algum motivo, não é capaz. E, exatamente como ele fala, falta-me as ligações, as ligações com as pessoas para que eu consiga de alguma forma me ligar completamente ao mundo e me libertar nisso que tenho força-para. E isso tudo pode ser apenas devaneio, o falar de um alguém que se perdeu completamente e já não consegue achar mais qualquer coisa que seja: sim, pode ser isso; por isso me sinto na obrigação de não deixar ser assim. Mas como fazê-lo? Como empreender algo quando vivemos em um tempo onde de tudo se descrê, num tempo em que a vontade de empreender algo é considerada uma falácia teórica, um a-senso!? Esses dias comecei a escrever um conto: era o conto sobre uma grande idéia, sobre a assunção da superação como algo constitutivo, sobre a assunção da simplicidade e da solidão; mas não consegui terminá-lo, não pude terminá-lo, pois quase sempre sinto não ter força para o fim. O conto oscila entre dois personagens: um que não conseguiu assumir a simplicidade do viver, e outro que conseguiu; mas um personagem aturde demasiadamente o outro, mesmo eles estando tão distantes: são dois polos de uma mesma coisa, são posições diferentes que moram dentro de um mesmo sentimento: o sentimento que alguma vez chamei de sentimento de abismo. Eu mesma sou a eterna oscilação entre esses dois personagens, e tenho medo de que a parte fraca venha a vencer. Sabe... é como se houvesse a meta, como se eu soubesse exatamente para onde devo mirar, mas o arco não está teso: está frouxo, frouxo como uma corda que, apesar de muito forte, está pouco estirada e não consegue lançar a seta mais do que três passos adiante. Já não sei mais o que fazer e a cada vez sinto-me mais e mais fraca. É como se depois da morte de Deus tudo que fosse grande e misterioso perdesse completamente o crédito. Mas eu, que já não creio em Deus, não consegui me desvencilhar da vontade da existência de algo grande e misterioso. Talvez devesse me desvencilhar, e foi a isso que convenci nesses últimos tempos: que deveria me desvencilhar. No entanto, isso me enfraqueceu de tal forma que mal posso suportar. Esses dias vi um filme que forjava mais ou menos isto: um homem perdeu todas as relações com as pessoas preciosas para ele e, tentando se rerguer de alguma forma dessa situação, conseguiu não o sucesso, e sim se perder completamente, perder até mesmo o pouco que ainda possuia; esse homem, nesse inferno niilista em que entrou depois disso, aprendeu a ser grande. No entanto, ele termina como Van Gogh: morto jovem; e nem na hora de sua morte consegue ter paz, pois matam até mesmo o abismo, a única coisa a que ele ainda se detinha. Mas ao menos esse homem conseguiu sua grandeza, assim como Van Gogh; já eu, sinceramente, sinto-me exatamente como naqueles versos de Sá-Carneiro: "um pouco mais de sol - eu era brasa, um pouco mais de azul - eu era além". Veja, o tempo que ele usa: o pretérito imperfeito... o passado - imperfeito. Mas diria até mesmo que "eu seria brasa", que "eu seria além". E mesmo tendo certeza da minha grandeza, não consigo empreendê-la completamente, mas somente pelas metades, pois faltou-me um golpe de asa. Na verdade, falta-me; no presente... (Pausa) Mas não! É desse poema que fujo, fujo dele como o diabo da cruz! É dele que tento e tentarei fugir minha vida inteira, e é a partir dele que um dia conseguirei transformar minha profunda miséria em algo que ao menos seja inspirador, como disse Vincent. Esse poema me liberta naquilo que não me posso deixar ser! (Longa pausa) A verdade é que o golpe de asa que me falta é um abraço. Na verdade, agora percebo, cada escrito meu até hoje guardou em si - um abraço...

31 de março de 2011

Dead man

"Some are born to sweet delight, some are born to endless night" (William Blake) Alguns homens, em busca de uma vida digna - já pronta -, chegam ao inferno por ela: têm tudo em que acreditam, destruído. Poucos destes são aqueles que, a partir deste inferno, conseguem - criar - uma vida digna. 

(Uma homenagem ao filme Dead Man, de Jim Jarmusch.)

Die Abwesenheit

Die helle Nacht
Der dunkle Raum
Die weiteste Ferne
Der schönste Traum
Ein Wort versteckt
Eine geheimes Gefühl
Und dieses Lied
Hütet eine Umarmung

Aber ich kann nicht davor weinen
Ich kann nicht traurig davor sein
So weit...
Weit wie ein Stern
Regenbogen unantastbar
Weit wie der weiteste Stein
Aber nahe wie ─ Einsamkeit

30 de março de 2011

Um conto infinito

Seus cabelos se encontravam presos por um grampo em um coque feito com zelo, no entanto, frouxo. Ele o observava com cuidado, achando-o belíssimo sobre os ombros e pescoço pálidos da mulher que se encontrava a sua frente. Ele estava de frente para ela, no meio da sala, sentado em uma cadeira há alguma distância dela, talvez um passo largo. Ela estava sentada em uma pequena mesa à frente dele, virada de lado, de modo que ele conseguia ver apenas seu perfil. À direita dela existia uma parede e nela uma janela, que se encontrava quase que de encontro com o lugar onde ela estava, somente um pouco a frente, talvez três ou quatro palmos. Ela tentava se manter em uma postura adequada, mas parece que não conseguia. Enquanto isso bebia café em uma das velhas xícaras amareladas pelo tempo que ele conservara consigo.

- As xícaras são as mesmas.
- Sim, as mesmas.  
- O café está bom, bem melhor. - Diz sem olhar para ele, fitando pela janela e se fingindo entretida com algo ao longe; estava bastante apreensiva, mas forjava relativamente bem certa tranqüilidade.
- Sim, esse é melhor. - Respondeu bastante calmo, observando apreensivo o coque, pois este parecia que a qualquer momento deslizaria e despencaria, desenrolando-se ombros a baixo.

Ele se encontrava na cadeira de modo confortável. Trajava roupas caseiras de verão: uma blusa de flanela branca e um calção brim, cinza já bem desbotado; isso mesmo apesar do tempo frio. Seus cabelos não tão curtos, lisos e pesados, se enredavam em grandes tuchos diferentes que pendiam para vários lados, e que mudavam de direção quando ele, talvez pelo espanto de tê-la novamente em casa depois de tantos anos, passava a mão pela cabeça se agarrando a um tucho de cabelo, e assim permanecia durante alguns segundos enquanto olhava para um lugar fixo sem ver nada, e depois soltava-o de um vez, como quem solta uma grande aflição. Ele possuía uma expressão séria, mas ao mesmo tempo um brilho infantil e calmo nos olhos. Ela continuava a fitar para além da janela, tentando se mostrar bastante segura; mas ela não conseguia enganá-lo.

Percebendo que seu coque cairia a qualquer momento, de repente tirou o grampo e sentiu seus cabelos longos, finos, quase dourados, despencarem, frios, sobre suas costas aquecidas. Sentiu também o olhar dele para aquela queda que dificilmente seria por ele esquecida e que, durante muitos anos permaneceu com ele como um tesouro secreto, e isso mesmo muito depois de não mais conseguir se lembrar claramente da imagem.

- Bem, vim aqui para falar que voltei para a cidade, e vou ficar; e para tentar conversar com você. Mas como está ainda mais calado do que o de costume, acho que só me resta ir embora. - Falou levantando da cadeira.
- Ficar? Ficar para sempre? – Perguntou assustado levando junto com ela.
- Talvez. – Disse ela de pé ajeitando o vestido.
Ele se sentou novamente.
- Ando calado. Não é culpa minha, mas mesmo assim peço que perdoe-me.
- Não tem porquê. - Falou com o tom sério que mantivera o tempo todo desde que entrara, e irredutível no seu levantar-se da cadeira, permanecendo de pé, completou: - O importante é que está bem.
Andou em direção à porta. Ele a acompanhou, abriu a fechadura e lha fez uma reverência profunda. Ela respondeu com um sorriso educado e partiu.

- Mais um pouco de força para suportar sua fraqueza e ela permaneceria. Porque estou condenado a amar uma mulher que não consegue se entregar? Se ao menos eu pudesse demonstrar alguma coisa, dar a ela alguma certeza... mas se o faço ela se sente obrigada a se entregar, e se o faz por obrigação perde completamente o interesse: sente-se entediada e não consegue permanecer. Tem que descobrir tudo por si própria para conseguir permanecer, mas ao mesmo tempo não quer descobrir, pois gosta demasiadamente da angustia da dúvida. Talvez o que ela tenha amado em mim tenha sido acima de tudo essa angústia demoníaca a cerca de mim e dos meus sentimentos. A verdade é que ela consegue se entregar somente a essa dúvida estúpida! Por que fui gostar justamente de uma mulher apaixonada pela angústia e pela dúvida!? (Pausa) Pensando bem, isso diz muito sobre mim... – Pensava isso e várias outras coisas, logo após ela sair.
- Se me rendesse tudo estaria perdido, e nunca mais seria amada. Nunca poderei me entregar a ele, pois é um homem incapaz de suportar aquilo que se rende. É orgulhoso demais, necessita sempre da luta. - Pensava ela quase no mesmo momento.
- A impossibilidade do encontro, da permanência; o desejo banal, frívolo, voluptuoso pelo novo, pelo diferente: a incapacidade de suportar o tédio... isso tudo está de tal forma arraigado em nós que não se sabe mais como livrar-se desse desejo de devorar. A pusilanimidade, a incapacidade para o amor... é isso que nos persegue. - Pensava ele em voz alta, muito aturdido, sem saber pra onde ir, andando em círculos em sua minúscula sala, tentando entender como tudo aquilo acontece. Falava ainda:
- Não há mais o que fazer, não fomos feitos para isso que se chama permanecer. Mas por que então o desejo? Por que então permanece esse desejo de permanecer? Esse desejo concreto de algo completamente inconcreto, impalpável por essas mãos desejosas da eternidade. Como é difícil suportar o desejo pelo infinito! Mas é necessário, é necessário, tem de ser! Se não... senão... Meu deus, se suportar isso não for necessário, tenho medo, tenho medo do que possa acontecer!
Ele parecia já prever de algum modo o que aconteceria: naquela mesma noite ela escreveu um bilhete e tomou de uma vez só uma forte dose de veneno, que a matou muito rapidamente. Ela contava 36 anos, ele, 44. O bilhete continha as seguintes palavras:

“A mim não é mais possível crer que seja possível qualquer coisa: não posso me entregar a nada, não pertenço a qualquer lugar. Em mim corre apenas uma vontade vociferante por tudo aquilo que não posso ter. Nada mais me prende, nada mais me encanta como antes, pois já sei: o que quero nunca poderá ser – possuído.”

Descobriram logo o corpo, já que ela estava em um hotel. Ela foi encontrada debruçada sobre uma escrivaninha, com o mesmo vestido que trajava na visita da véspera, ao lado de um cinzeiro cheio que prendia o bilhete citado. A letra era de quem escreveu com mãos firmes, o que mostra que ela escrevera o bilhete antes do ocorrido, ou que estava de certo modo calma e, por assim concluir, decidida a respeito do que faria: ambos apontam para o fato de que foi premeditado. 

Como as últimas chamadas de seu celular foram para ele, logo ligaram a fim de investigar e, assim, lhe comunicaram a morte.

Ele desligou o telefone imediatamente. Ficou tão horrorizado que não conseguia parar no mesmo lugar. Não conseguiu sentir nada: nem pena, nem saudade... apenas uma frieza extrema dentro de si, um grande vão. E era isso o que mais lhe aturdia: ele não conseguia nem mesmo ficar triste com a morte dela.

- Como ela não pode compreender, como pode não entender que havia algo que a possuía, e que esse algo era exatamente aquilo que não se deixa possuir! Como pode ela ser ingênua ao ponto de não perceber!? Como pude eu mesmo sê-lo!? (Pausa) Mas, pensando bem, talvez tenha sido exatamente isso, talvez tenha sido o conhecimento desse aspecto de sua alma que a levou a tal solução. Pois ela mesma já não suportava morar sempre dentro de um vazio... ser possuída somente por um grande nada, ter somente um desejo pelo que é grande demais para existir. O que ela não suportava era exatamente não suportar permanecer... Mas por que não suportou? Eu mesmo tenho de suportar isso todos os dias! Por que preferir a morte a suportar? O que a levaria a isso? Qual constituição de sua personalidade ainda não consegui desvendar para conseguir compreender tudo isso!? Uma incapacidade de suportar o abismo, uma franqueza leviana talvez... Mas uma atitude leviana não condiz com o que conheço dela, ela pensaria antes. Isso tudo certamente foi muito bem premeditado, e é possível até mesmo que a visita fosse parte determinante do plano, talvez tenha chegado a pensar: se ele tiver tal atitude, faço, se ele agir de outra tal maneira, permaneço. É possível que ela tenha voltado somente para isso, talvez fosse ainda sua única pendência: eu mesmo, sua última pendência; a única coisa que ainda segurava essa mulher apaixonada pelas pendências! E não conseguiu isso de mim... pois, de fato, eu estou em paz e não propiciaria mais pendência a essa alma inquieta!  

E numa espécie de culpa misturada a um nojo completo por ela e por toda a realidade, sentou na cadeira que ainda estava no meio da sala e ficou olhando para aquele lugar próximo a janela. Afundou seu rosto nas mãos e permaneceu ali por horas, numa espécie de vazio que causava um grande nojo só pensar que ainda permanecia ali, que ainda existia...

Muita coisa ocorreu depois disso, mas não sei narrar, não posso, não consigo terminar, pois, sinceramente, não tenho força para o fim... Desculpem-me.