Era noite. Ele estava em casa deitado em sua cama. As luzes estavam apagadas. Uma penumbra mórbida e intensa chovia no lugar. Ele olhava para o vazio das paredes do seu quarto. Era jovem ainda, muito jovem. Sentia-se muito homem, pois, mesmo tão jovem, já estivera com várias mulheres. Mas mesmo assim algo nele lhe dizia: pouco homem... tu és, pouco homem. E ele sentia essa frase vigorando em si, sem conseguir ou se permitir adivinhá-la, sabê-la, concretizá-la. Mas a frase indecifrável, amorfa e inconcreta lhe assaltava o corpo frio e descoberto, estirado na escuridão, e lhe sussurrava na alma: pouco homem. A cama vazia, quente, pegajosa, tocava suas costas. Ele, sentindo esse toque, vira-se de lado e sente como se a cama o abraçasse. A dor sussurra para ele: ela está longe. E ele pensa, como quem retruca: há muito mais do que ela na escuridão das possibilidades. Mas a dor se sustenta, falando baixinho, tocando com seu som inaudível cada célula do corpo do rapaz: ela está longe, muito longe. Ele se levanta de uma vez, sem pena, e se põe de pé a sentir-se. Diz para si em voz alta: não preciso dela. Veste-se, pega a chave, a carteira e uma sacola já pronta que se encontrava no canto do quarto. Caminha um pouco pelas ruas e, chegando no lugar planejado, toca a campainha:
- Boa noite, está ocupada?
- Não não, por favor, entre.
- Desculpe a hora, mas precisava vê-la.
- Tudo bem. Você está bem?
- Sim.
Ele se cala e ela, por algum tempo, pergunta algumas coisas inúteis: pergunta aquelas perguntas já prontas, que se deve fazer para alguém que já não se vê há algum tempo a fim de demonstrar interesse. Apesar disso o interesse dela não era falso, esperara aquela visita por muito tempo. Ele responde todas as perguntas sucintamente, sabendo como tudo aquilo era pronto de mais para ele, acabado, claro, transparente, desinteressante. Já não mais suportando, disse-lha:
- Trouxe-te uma coisa.
- Pra mim? - Ela diz sorrindo, com os olhos cintilantes.
- Sim
- Um presente?
- Sim.
Ele pega a sacola e de dentro dela faz brotar um vestido florido, delicado, e uma calcinha de rendas.
- É pra você. Quero-te neles esta noite.
A moça, não se contendo de tanta felicidade, (pode parecer uma frase clichê para descrever a emoção da moça, mas era uma moça comum e tinha uma felicidade comum, então, nada mais correto do que descrever seu sentimento com uma frase comum). Voltando: a moça, não se contendo de tanta felicidade, levanta-se e vai em direção ao quarto para vestir-se Enquanto isso, ele permanece estático, sentindo sua dor vociferante e silenciosa rasgar, externemente, seu dentro de si. Um grito mudo, uma facada sorrateira pelas costas e a imagem das costas dela, da outra, na última vez que a vira: tudo de uma vez só nele, dentro da calada daquela noite desesperadora. Ele se levanta e sente o silêncio cobrir os móveis, a se esconder na “comunidade”, normalidade, falta de autenticidade de como cada coisa foi deixada ser colocada em cada lugar que lhe fora previsto pelas revistas de decoração. Vai até o quarto e abre a porta que range vagarosamente até a imagem do rosto dela assustado no espelho. Ela está a se pintar, já vestida com as peças.
- Não é necessário. Hoje te quero só com eles.
Ele a segura pela cintura, do modo como somente um homem de verdade é capaz de fazer, e a beija, ardentemente.
Aquelas peças de roupa, agora vestidas na moça comum, já estavam separadas há algum tempo naquela sacola; pertenciam a outra mulher, que, mesmo distante, permanecia. Ela quer falar algo, mas ele a interrompe:
- Fique quieta. - E sente como é bom saber que ela é completamente dele, mesmo ele não pertencendo de modo algum a ela.
E no mais íntimo de sua dor, no mais profundo e obscuro de sua alma, ele sentia a coisa amorfa, inconcreta e indecifrável; ele sentia, sem saber, aquele sussurro, baixinho, dizendo de si para si ensurdecedoramente: eu te vesti com as roupas dela, agora fique quieta e me leve para longe, não me importo para onde, desde que seja longe, muito longe...
(Esse conto é uma interpretação da música Be quiet and drive (far away) de Chino Moreno do Deftones.)