15 de dezembro de 2009

Oração do escritor apaixonado

Que o ideal de beleza e intensidade que possuo não desvalorize o que tenho, mas valorize e instigue a busca por mais beleza e intensidade naquilo que me pertence. Que meus anseios mais veementes por imagens longínquas e extraordinárias me façam amar isso que a vida dá ao meu redor, mesmo quando parece tudo tão chato. Que eu compreenda sempre a beleza de estar não estando e de me sentir apaixonada somente por aquilo que remeta a algo grande de mais para existir. Que a negação que eu faça da vida seja somente em benefício de sua afirmação. Que a esperança sempre esteja a me perseguir, o desconhecido à minha espreita e o infinito em meu horizonte. Que a vida sempre seja essa glória e essa dor, e que permita sempre eu me relacionar dessa forma tão magnânima com ela através das palavras!

Nós

Você e eu no carro indo para a praia, o sol está indo em direção ao poente e, brando, passeia no topo das palmeiras na beira de estrada. Sinto o vento bater em minha face ao mesmo tempo em que balança seus cabelos. Seu sorriso está leve, como sempre, mas há nele um brilho que ainda eu não vira; vem em mim límpida a certeza de que eu realmente gosto de você. Eu estou tranqüila e sinto que você também está. Nós estamos conversando sobre assuntos agradáveis que, não me lembro porque, ocasionam um assunto desagradável, que não deveríamos falar sobre. Eu começo ficar um pouco angustiada, mas peço que mesmo assim continuemos conversando sobre aquilo. Eu tento não me aborrecer e me manter entretida com meus pensamentos, mas chega um momento em que não consigo suportar. Não sei o que aconteceu comigo, eu não conseguia respirar, tudo ao meu redor parecia atar meus pés, minhas mãos, me prender por inteiro. Calamo-nos, sabíamos que tinha muito mais sobre aquele assunto a ser dito, porém, não podíamos dizer. Você, já bastante apreensivo, pára o carro longe da estrada, encosta no capô e fuma um cigarro. Eu não sei explicar até hoje o que vi naquela hora, olhando você frente àquele céu púrpuro, iluminado por aquela luz fraca de fim de tarde, fumando de um jeito que abandona o mundo. Eu não conseguia saber se você esta vindo ou partindo, se eu gostava ou não de você. Tudo foi me deixando mal de mais para que eu pudesse continuar ali. Meus pensamentos estavam em um turbilhão tão grande que eu pergunto gritando: o que está acontecendo comigo?! Você faz uma cara de desprezo, balança a cabeça em sentido negativo – como quem se mostra desapontado – se afasta do carro e me dá as costas. Eu percebo que não conseguirei mais agüentar, o mal-estar se torna grande de mais, começo a sentir um aperto tamanho no estômago. Eu saio andando e encontro um orelhão, ligo para a rodoviária e pergunto o horário do próximo ônibus. Eu me odeio de um modo que ninguém imagina.

(Esse aforismo é uma interpratação da música you, her and me, da Nina Nastasia) 

O eterno desconhecido

Era noite, ela estava deitada na cama com as luzes apagadas. Os faróis dos carros que passavam na rua refletiam e passeavam pela sua parede em luz fraca. Ela teve vontade de se levantar. Permaneceu imóvel. Sentiu uma força tamanha vindo de dentro de si e que a empurrava para fora, para todos os lados, para além de si, para além daquele lugar, daquela hora. Depois de alguns minutos se levantou e ainda na penumbra foi até a cozinha e bebeu um copo d’água. Olhou pela janela, a cidade parecia agitada, e ela mesma também estava agitada, mas de um modo bem diferente do da cidade. Acendeu uma vela e encheu um copo de com vinho. Bebeu toda uma garrafa. Teve vontade de sair. Vestiu seu vestido mais bonito, se pintou, calçou os sapatos e... quando olhou pela janela viu que estava chovendo. Quis desistir. Teve vontade de chamar alguém para sair com ela, mas ela era sua de mais naquela noite... Apagou a vela, abriu a porta com cuidado. Sentia um frio no estômago, iria novamente rumo ao desconhecido, entretanto ela sabia, encontraria somente o conhecido. Pegou um táxi.

De dentro do carro dava para observar a chuva caindo nas poças e as luzes dos faróis e semáforos refletindo no asfalto e nessas poças. Alguém mais além dela teria percebido como a cidade estava colorida e cheia de vida naquela noite? Alguém mais sentia aquele frio no estômago, aquela coragem de viver, aquela vontade de dançar, de encontrar o indecifrável, de se apaixonar? "Certamente", pensava ela, "mas onde... onde!?" Teve vontade de encontrar alguém obscuro, misterioso, impenetrável, indesvendável... Chegou ao bar. Era um lugar fechado, escuro e bonito, pouco iluminado. Algumas pessoas dançavam, outras apenas olhavam, outras apenas bebiam. Gostou de estar ali. Era estranho, ela não se sentia sozinha, era como se alguém estivesse ao seu lado a guardado, aguardando. Sentou-se no balcão. Permaneceu. Bebeu. Bebeu. Bebeu. Voltou para casa com o dia raiando, acompanhada de nenhum desconhecido. Do carro dava pra ver, seria dia de sol, céu azul intenso com poucas nuvens. Teve vontade de ir à praia. Desceu na praia, tirou os sapatos e caminhou com os pés na areia por alguns minutos. "Onde estarão os guerreiros nesse mundo onde a guerra é proibida?" — se perguntou. Voltou a pé para casa. A luz da manhã era suave e a rua estava quase deserta. As árvores a convidavam para ficar, mas ela tinha de respeitar o convite de sua cama.

Entrou em casa silenciosamente, tomou um banho morno, vestiu seu pijama, fechou a cortina, se aconchegou na cama e dormiu imediatamente. Sonhou que o desconhecido estava a sua espreita, esperando ela ficar desatenta, a fim de surpreendê-la na sua hora mais silenciosa. Ele estava em cima e baixo da sua cama, espalhado pelas janelas e pelas suas roupas. Sentia-o em todos os lugares, a todo o momento: em sua pele, dentro da geladeira, no seu prato de comidas. Ele estava prestes a aparecer em sua forma personificada quando... o relógio tocou. Três e meia da tarde. Esperava um beijo, mas possuía somente aquele frio idiota na barriga de quem tem fome de perigo mas tem somente uma casa, um vazio, conceitos inadequados de algo que procura mas não sabe o que é. Estava melancólica, mas ainda assim feliz, pois o desconhecido esteve a sua espreita a noite toda; ela sabia, um dia ele apareceria quando ela estivesse mais desprevenida, a levaria enfim para longe de toda essa monotonia e a permitiria consumar seu desejo mais profundo: o de sempre renovar seus desejos quando eles se enfraquecem. Ela aguarda pacientemente: um dia o desconhecido entrará pela sua janela e a levará para o lugar mais bonito em que já esteve e, desde então, sempre que ela se sentir morta, ele reaparecerá para levá-la a outros lugares ainda mais bonitos e desconhecidos, a outros horizontes cada vez mais belos. Enquanto isso ela caminha sozinha e esperançosa, sempre encontra algo extraordinário que a faça amar a vida, mas no fundo ela consegue sentir a força do seu desejo mais secreto e poderoso, o seu desejo mais íntimo e instigador de todas as suas ações: o desejo da companhia do eterno desconhecido.

21 de setembro de 2009

"Deus está no rádio"

Tenho tido vontade de dançar... de ser perpassada por um ritmo tão intenso que me leve ao cúmulo da inconsciência. Vontade de, em um fluxo voluptuoso e alucinante, perder meu corpo e derramar-me completamente na realidade. Tenho tido vontade de parar de sentir a consciência se fazendo a cada microssegundo, vontade de inocência. Quero voltar com o sujeito para o seu lugar de origem: o corpo. Quero sentir antes de saber. Quero dançar, dançar até sentir o vigor de todas as coisas agindo sobre o meu corpo, sentir cada célula do meu corpo exigindo movimento, devir, fluxo, vida. Quero escancarar toda a sensualidade que sempre reprimi, deixar-me ser possuída pela beleza que sempre desacreditei. Quero assumir minha lascívia e sublimá-la na dança. "Deus está no rádio"!

A jovem idealista

Zaratustra estava a caminhar no sol brando da manhã em terras planas quando, próximo a um campo florido, encontrou uma jovem aos prantos. Zaratustra perguntou então a jovem o que havia acontecido, e ela respondeu:

– Fui enganada pelas imagens, pela beleza daquilo que quero ser e não consigo, desejei ser algo que vi no horizonte nebuloso de meu futuro e abandonei tudo o que tinha para sê-la, mas não posso, não sou capaz... Agora permaneço doente de saudade daquilo que abandonei e de desejo por aquilo que idealizei. Sou uma impotente, sei que não conseguirei parar de desejar essa imagem absurda que fabriquei de mim, terei para sempre uma vontade de nada.

Zaratustra olhou bem para a jovem e falou espantado:

– O que estás a dizer, jovem idealista?! Não tens “vontade de nada” quando anseias o futuro, a terias se desejasse ser algo que não podes ser. Se pensas que não consegues atingir o que idealizas é porque, quando consegues te tornar aquilo que antes idealizastes, já possuis um outro ideal que te impulsionas a superar também o que já conquistaras; tu sempre idealizas algo melhor para si, mesmo quando já conseguiu realizar o seu máximo, é disso que vem o sentimento da incapacidade. Entenda, esse sentimento não prova que és incapaz, mas somente que permaneces sempre andando na corda que está entre o que foste e o que queres ser. Tu já superaste muito de ti mesma e estás, neste momento, a te superar; não és, pois, incapaz, apenas permaneces na angustia da vontade de crescimento. Acalma-te, alma insatisfeita, aprenda a satisfazer-se com aquilo que ganhou, deseja mais somente depois que aprendestes a amar aquilo conseguistes e necessitas, e aprendas a deixa para trás, sem culpa, aquilo que tens certeza de que não podes continuar possuindo. O que tens é uma vontade de superação de ti mesma, não tenhas dúvida disso; quem tem vontade de se superar está sempre com fome de si mesmo. Pára de choramingar e tenha coragem para enfrentar a perda necessária que há quando se deseja algo desse tipo. Coragem, solitária idealizadora daquilo que queres ser! Aprenda a ter as mãos vazias! És mulher, por isso, teu caminho é ainda mais árduo que de um homem aspirante a auto-superação; já que fostes ensinada a ser escrava e, devido as circunstâncias de sua época, aconteceu de desejar a auto-superação e, assim sendo, não consegues te desprender da sensação de que és impotente e da vontade de agradar os outros. Não tenhas medo de ser o que tu és: teu maior desejo não é agradar os outros, e sim agradar o teu homem; então, atenha-se a isso, mantenha-se sempre na preparação para a chegada do homem que te tornará mais ti mesma. Por enquanto, não receeis não agradar ninguém, mesmo que por esse motivo permaneças por longo tempo sozinha a caminhar em um deserto. Se te ressentes com o mundo por ele não te compreender, aprenda a compreender o mundo; tu és mulher e, por isso, a compreensão está nas suas qualidades mais nobres! Idealiza e luta daqui para frente somente pelo que te pertence. Tu vieste do vale, bem sei, por isso ainda não sabes lidar com o horizonte em terras tão planas como estas, pois aprenda: o horizonte não é esse demônio que há pouco disseras, ele é somente todas as possibilidades; tu terás somente que estar sempre na busca pela possibilidade que te tornarás mais ti mesma, mais forte. Entretanto, lembra-te, tu és uma mulher, sendo assim, atenha-te a isso e nunca tente tomar para si o modo de ser forte de um homem. Sabes muito bem que tua força está em tua delicadeza, desejar virilidade só trará ressentimento pelo que desejas e não podes ser; aí sim, terás vontade de nada. O que torna um outro forte poderá ser tua mais profunda doença e desgraça, então descubras por ti mesma o que te dá força, para assim ser mais plenamente; do contrário, será sempre um espelho retorcido de outrem que se fortaleceu pelos próprios meios.

Quando Zaratustra terminou suas palavras, a jovem já havia parado seu pranto. Ela disse-lhe:

– Eu chorava tanto porque era necessário, neste momento, me deixar levar ou pela futilidade ou pelo meu próprio, e cria, lamentando, não ter capacidade para continuar na busca de mim mesma em solidão, mas você me deu coragem, amigo, para seguir o caminho que me cabe.

– Zaratustra compreendeu bem o que a jovem dizia e seu peito se encheu de alegria. Ele lha falou: Aprenda a idealizar somente o possível e tenha orgulho daquilo que conquistou. Não tenhas medo de errar e possua nobreza o bastante para admitir que errou, só assim será possível se desprenderes daquilo que já está por demais maduro e sair novamente rumo ao desconhecido. Desse modo poderás lutar a cada vez por aquilo que queres ser.

Assim falou Zaratustra.

6 de julho de 2009

Vontades idiotas

Talvez seja mesmo vindo de uma grande queda em um abismo monstruoso esse vento idiota que parecia anteontem ser um vento do vindouro. Sou uma pessoa tão estranha, tão desentendida comigo mesma, com vontades tão contraditórias e ao mesmo tempo de uma personalidade tão inocente, que às vezes chego ao limiar da burrice. Por vezes sou ruim, mas não ruim por querer, e sim por inocência. Magôo as pessoas não por maldade, talvez por um egoísmo tão arraigado e que se manifesta tão espontaneamente que faz, como um grande amigo me disse, meu orgulho falar mais alto do que meu cérebro, isso sem eu nem notar. Como é possível alguém normal sentir uma vontade de futuro, idealizar com base nessa vontade toda uma estrutura de realidade que não existe e, o pior de tudo, agir, sem medir qualquer conseqüência, baseada nessa vontade? Eu devo estar ficando louca, devo ter pirado sem perceber! Quanta vontade de nada reside nisso tudo? quanto “preferir ainda querer o nada a na querer”? Como eu pude me perder de forma tão desesperadora? O que me aconteceu durante esses vinte anos para eu conseguir me tornar essa coisa, esse alguém que só consegue pensar com imediatidade e insensatez e por isso vive sempre pelos cantos, saltitando pelas bordas, já que prevê sempre algo absurdo e não consegue se entregar completamente ao que tenha uma existência concreta, a algo que possa realmente ser realizado. Porque há essa névoa tão densa que não me deixa ver mais do que um metro para além de onde estou? e que me faz enxergar no horizonte somente coisas ilusórias e, pior, acreditar cegamente nelas? Porque meu desejo é movido pelo que não posso ter, pelo inexistente? Por que sempre busca incansável pelo inalcançável? O que é isso que me faz agir tão inconseqüentemente, levar a vida de um modo tão afoito e temerário? Alguém me responda, por favor, estou a ponto de enlouquecer! Eu já não sei mais para onde estou indo, em que lugar estou, o que quero, o que sinto. Se ao menos tivesse coragem de acabar com tudo isso de uma vez por todas, mas nem a isso eu me permito. Devo ser algum tipo de pessoa fraca em demasia, que não sabe lidar com a vida e que, assim sendo, carrega em si um ódio cansado do mundo e a todo momento sente vontade de se vingar de tudo. Talvez seja a vontade de vingança o que torna meu horizonte tão turvo e me faz agir imprudentemente visando ao nada. Devo ser um humano ressentido com o mundo e que não quer admitir que é ressentido, daí se ressente duplamente: com o mundo e com o fato de ser ressentido. Quem sabe minha interpretação da realidade esteja totalmente fundamentada nessa tentativa de esconder de mim mesma esse duplo ressentimento. Devo ser um alguém do tipo que aprendeu tanto a pensar só em si mesmo que, quando quer alguma coisa, não sabe olhar para os lados, para trás, para frente, mas somente para dentro de si! Eu devo ser ninguém; alguém que sente vontade de futuro e crê que poderá ser eternamente feliz mediante ela deve ser ninguém. Eu devo ser alguém inexistente que vi no horizonte nebuloso do meu futuro e que desejo ser, devo ser uma imagem ilusória que criei para sublimar a idiotice consumada do que realmente sou. A verdade é que uma belíssima imagem do amanhã se postou bem na minha frente em uma noite de inverno, andou para longe em direção ao mar, obrigou-me a entrar na água e me abandonou em denso alto-mar com uma jangadinha! Essa imagem passou pela minha frente, seduziu-me com sua beleza mágica até um abismo sem fundo e me empurrou! Como podem imagens ilusórias desse tipo ter um poder tão colossal sobre mim? Agora estou grávida de futuro, assim como Macabéa. Para tudo se findar perfeitamente só me resta a morte. Entretanto, a vida, sei bem, não será generosa comigo como Clarice foi com a sua personagem, ela não me matará logo; demorarei como o diabo para morrer e permanecerei prenha do absurdo até o dia em que uma mercedes amarela num dia de chuva mansa me pegar desatenta enquanto sonho com o póstumo...

Vontade de futuro

A vontade de futuro novamente se instaurou: aquela sensação de vento batendo, trazendo a certeza de que ele vem até mim com tanta brandura e força porque estou caminhando com rapidez para frente, para além de tudo o que tenho... E como é boa essa sensação, havia me esquecido. Há algum tempo atrás pensava ser ela somente sofrimento, vento que batia durante uma queda; cria com ela desejar um método do caos, isso significa: um caminho pelo qual se pode de maneira precisa obter somente desordem e, através desta, desprazer. Eu tinha uma necessidade tão grande por segurança que, de antemão, dizia gostar do sofrimento; isso tudo com a intenção de deixar o desprazer mais brando quando ele viesse, já que eu estava sempre preparada para ele. Era como um dizer eterno a mim mesma: eu já sabia que isso iria ocorrer, já estava a espera da dor; não só isso, eu mesma quis que ela viesse, criei até um método para isso acontecer. Porém, o que eu sentia era somente anseio por vida que, mal compreendido por mim, causou esse horror, esse medo de tudo aquilo que me arrebatava inesperada, violenta e impetuosamente, seja dor ou prazer, e me fez criar métodos para me assegurar do futuro e me iludir acreditando que ele era ao menos um pouco controlável. Mas pra que tanta segurança?! hoje me pergunto incessantemente. Agora quero mais é me deixar levar por esse anseio tão intenso e poderoso que me arrasta pelas ruas, me faz abraçar desconhecidos, sorrir para os postes e amar tudo que há de mais banal. Quero me deixar ser arrebatada por essa força que me faz sucumbir ao riso súbito e inocente, cantar ao lavar as vasilhas, ouvir música e flutuar. Quero que o futuro me tome nos braços sem que eu nem mesmo perceba, quero viver o inesperado, ir rumo ao desconhecido, quero a abertura total para todas as possibilidades possíveis, venham delas deleite ou desgosto. Possuo hoje, ao mesmo tempo, agradecimento pelo passado e uma volição vibrante pelo futuro, sem saber dele muito além dos meus sonhos que, sei bem, nele residem. Apaixonei-me por mim mesma, pelo mundo, pelo que se passou e pelo vindouro! A verdade é que a vida me seduz de forma tão encantadora... Desculpe-me, mas é assim que ocorre comigo e não há muito o que se fazer a não ser me deixar ser seduzida pela vida dessa forma tão espetacular!

O começo de um sonho

Pensando em coisas absurdas, ela seguia rumo à praia. O dia estava quente e ela não queria chegar, estava gostando de estar ali com o vento no rosto. É uma sonhadora; pensou na praia e soube que esta jamais seria do modo idealizado por ela. Mas, súbito, olhou ao seu redor e percebeu que não precisava criar imagens, possuía uma, e era realmente bela: um lugar completamente plano com algumas palmeiras na beira da estrada.

Avista alguns quiosques, vê um todo em madeira e resolve parar. Senta-se em uma mesa e se sente entranha – será mesmo que deveria ter vindo? – pensa consigo. Vai até a praia e toma um longo banho. A água está morna, as ondas estão um fortes. Ela sente medo, mas permanece. Vinha-lhe uma agudeza grande de espírito naquele momento. Sai da água e senta-se no bar. Pede uma água de coco e depois uma cerveja mais uma porção de peixe frito. Sente-se triste, acaba achando que realmente não deveria ter ido. Que bobagem, pensa, achar que poderia ter alguma experiência extraordinária ali. Depois pensa melhor e percebe: está gostando de estar ali, mesmo que seu sentimento de mais vida e mais experiências não esteja sendo suprido; ao menos ela está suportando esse sentimento onde existem mais possibilidades do que na cidade, o que o aumenta e ao mesmo tempo o alivia. Fica ali até o entardecer, pensando as coisas de sempre, por vezes tentando imaginar um modo de não ser tão idiota.

O sol está se pondo e as luzes se acendem. Ela pega uma cadeira, vai para longe da claridade e espera a escuridão chegar junto com sua sobriedade. Sua pele está quente, sente bastante calor. Avista um homem fumar um cigarro, vê apenas sua silhueta ante o mar e o céu de forte coloração das tardes de outono. O vento bagunça seus cabelos e a fumaça que ele expira parece jogar junto consigo de dentro dele o cansaço-do-mundo. Ele parece pensativo, incomodado com alguma coisa. Ela sente vontade de ir até lá e conversar com ele. Ela se levanta, vai até o carro e dirige de volta para casa. O sol está se pondo; aquela coloração amarelo-desbotada, um brilho envelhecido que atravessa o cabelo das pessoas, que faz as coisas mais brandas e o mundo mais suave.

Chega na cidade. Há muita agitação, músicas e carros barulhentos, pessoas falando alto, saindo para festas, bares, todas muito bem vestidas. Isso a aborrece profundamente, mas ela tenta manter a leveza do seu dia. Chega em casa, toma um longo banho morno e dorme. Sonha que o rapaz fumando cigarro, percebendo que ela está a observá-lo, vem até ela e diz: "não é estranho que nós dois estejamos aqui pelo mesmo motivo e mesmo assim tenhamos medo de nos aproximar?" Depois disso ele pega em sua mão, a levanta da cadeira, dá-lhe um abraço demorado e se vai, o que a faz ter vontade de chorar. Ela chega em casa e dorme, tal e qual acontecera na realidade. Acorda com ele batendo em sua porta. Quando ela abre, ele a manda fazer as malas e partir com ele. Acorda realmente. Teve vontade de continuar o sonho, e o fato de saber que era apenas um sonho não a incomodava, mas sim o fato de saber que aquela agudeza de sentimento obtida naquele sonho não estava sendo possível na realidade. Havia dormido de mais. Olha pela janela engradada, deve ser meio-dia. Quer ir embora. Faz as malas e parte sem rumo, não se sabe pra onde. Ninguém nunca mais a viu.

27 de maio de 2009

Dizendo o inefável

Da janela do ônibus nesse dia chuvoso, as luzes colorem o asfalto molhado... E eu, como sempre, me sinto estranha em descrever essa imagem, por saber que não conseguirei expressar em palavras o que ela significa pra mim, o que ela causa em mim... É um grande paradoxo mesmo, tentar expressar o inefável. Queria que você, que está aqui lendo este texto, soubesse o que isso significa pra mim, não somente essa imagem, mas o fato de eu estar aqui, escrevendo para você ler. Isso é vontade de amizade, conseqüência de um alguém solitário de mais e que necessita companhia. Acho que se foi a época em que eu tentava explicar tudo nos seus mínimos detalhes, há em mim um querer aceitar o inefável e ao mesmo tempo aceitar o desejo de dizê-lo. Talvez seja nisso mesmo que eu me sustente, nessa busca necessária pelo inalcançável...

2 de janeiro de 2009

A mulher do subsolo: uma homenagem a Dostoievski

Somente os tolos são felizes: foi a forma que encontrei de tornar minha tristeza menos desesperadora. Ver por debaixo, o escondido, o secreto, o podre, parece ser essa a função de minha existência. Sentir na aparente inocência, ou na aparente nobreza de um comentário qualquer, o mau cheiro, todos os cálculos maliciosos, conscientes ou inconscientes, que há por traz dele. Sentir o fedor de meus próprios comentários e ações, saber de tudo o que se passa em minha mente de ruim que me leva a pronunciar algumas palavras, praticar algumas ações. Perceber essas coisas não poderia gerar outra coisa senão ânsia de vômito para comigo e com todos os outros, uma vontade enorme de não me pronunciar em público, de não ouvir o que os outros têm a dizer. Criou-se assim em mim uma vontade de expor minhas malícias, meus cálculos frios, minha velhacaria, maquiavelismo, estrategismo sujo! para que a náusea diminua, já que as conversas se tornariam ao menos um pouco mais francas e suportáveis. É a forma que me sinto livre: expondo meus cálculos e o de outras pessoas. Porém, isso magoa, fere a liberdade do outro que se sente livre na ignorância sobre toda essa malícia que escondemos em nós. E guardar faz mal, ah... como faz mal. Não o simples guardar, mas o pensar o cálculo que uma pessoa fez ao agir de certa forma e não dizer-lhe; é como falar mal dela pelas costas. Como faz mal não conseguir conversar total francamente com as pessoas sem magoá-las, sem fazer com que elas sintam nojo de mim; talvez o mesmo nojo que sinto por elas não saberem enxergar quão velhaco somos nós, humanos... Como causa mal estar não poder ser totalmente verdadeira com as pessoas que mais estimo. É por saber que irei magoar que guardo, e se guardo, sinto estar falando mal das pessoas pelas costas; tudo isso me faz sentir tamanho mal estar. O saber enxergar a malícia não é exatamente o que gera o mal estar, mas sim o saber que ninguém quer ouvir o que de mais franco e nobre eu tenho a comunicar, que nenhum ser quer conversar sobre o que mais gosto de ouvir e falar. A franqueza é a pior qualidade que alguém pode possuir, pois ela faz um mal irremediável unicamente à pessoa que a possui. Quem é franco sempre fica só, pois o que todos querem ouvir é o consolador, o anestesiante, e a verdade nem sempre traz em si essa função. Todos, mas não eu, garanto-lhe, não eu...