Era noite, ela estava deitada na cama com as luzes apagadas. Os faróis dos carros que passavam na rua refletiam e passeavam pela sua parede em luz fraca. Ela teve vontade de se levantar. Permaneceu imóvel. Sentiu uma força tamanha vindo de dentro de si e que a empurrava para fora, para todos os lados, para além de si, para além daquele lugar, daquela hora. Depois de alguns minutos se levantou e ainda na penumbra foi até a cozinha e bebeu um copo d’água. Olhou pela janela, a cidade parecia agitada, e ela mesma também estava agitada, mas de um modo bem diferente do da cidade. Acendeu uma vela e encheu um copo de com vinho. Bebeu toda uma garrafa. Teve vontade de sair. Vestiu seu vestido mais bonito, se pintou, calçou os sapatos e... quando olhou pela janela viu que estava chovendo. Quis desistir. Teve vontade de chamar alguém para sair com ela, mas ela era sua de mais naquela noite... Apagou a vela, abriu a porta com cuidado. Sentia um frio no estômago, iria novamente rumo ao desconhecido, entretanto ela sabia, encontraria somente o conhecido. Pegou um táxi.
De dentro do carro dava para observar a chuva caindo nas poças e as luzes dos faróis e semáforos refletindo no asfalto e nessas poças. Alguém mais além dela teria percebido como a cidade estava colorida e cheia de vida naquela noite? Alguém mais sentia aquele frio no estômago, aquela coragem de viver, aquela vontade de dançar, de encontrar o indecifrável, de se apaixonar? "Certamente", pensava ela, "mas onde... onde!?" Teve vontade de encontrar alguém obscuro, misterioso, impenetrável, indesvendável... Chegou ao bar. Era um lugar fechado, escuro e bonito, pouco iluminado. Algumas pessoas dançavam, outras apenas olhavam, outras apenas bebiam. Gostou de estar ali. Era estranho, ela não se sentia sozinha, era como se alguém estivesse ao seu lado a guardado, aguardando. Sentou-se no balcão. Permaneceu. Bebeu. Bebeu. Bebeu. Voltou para casa com o dia raiando, acompanhada de nenhum desconhecido. Do carro dava pra ver, seria dia de sol, céu azul intenso com poucas nuvens. Teve vontade de ir à praia. Desceu na praia, tirou os sapatos e caminhou com os pés na areia por alguns minutos. "Onde estarão os guerreiros nesse mundo onde a guerra é proibida?" — se perguntou. Voltou a pé para casa. A luz da manhã era suave e a rua estava quase deserta. As árvores a convidavam para ficar, mas ela tinha de respeitar o convite de sua cama.
Entrou em casa silenciosamente, tomou um banho morno, vestiu seu pijama, fechou a cortina, se aconchegou na cama e dormiu imediatamente. Sonhou que o desconhecido estava a sua espreita, esperando ela ficar desatenta, a fim de surpreendê-la na sua hora mais silenciosa. Ele estava em cima e baixo da sua cama, espalhado pelas janelas e pelas suas roupas. Sentia-o em todos os lugares, a todo o momento: em sua pele, dentro da geladeira, no seu prato de comidas. Ele estava prestes a aparecer em sua forma personificada quando... o relógio tocou. Três e meia da tarde. Esperava um beijo, mas possuía somente aquele frio idiota na barriga de quem tem fome de perigo mas tem somente uma casa, um vazio, conceitos inadequados de algo que procura mas não sabe o que é. Estava melancólica, mas ainda assim feliz, pois o desconhecido esteve a sua espreita a noite toda; ela sabia, um dia ele apareceria quando ela estivesse mais desprevenida, a levaria enfim para longe de toda essa monotonia e a permitiria consumar seu desejo mais profundo: o de sempre renovar seus desejos quando eles se enfraquecem. Ela aguarda pacientemente: um dia o desconhecido entrará pela sua janela e a levará para o lugar mais bonito em que já esteve e, desde então, sempre que ela se sentir morta, ele reaparecerá para levá-la a outros lugares ainda mais bonitos e desconhecidos, a outros horizontes cada vez mais belos. Enquanto isso ela caminha sozinha e esperançosa, sempre encontra algo extraordinário que a faça amar a vida, mas no fundo ela consegue sentir a força do seu desejo mais secreto e poderoso, o seu desejo mais íntimo e instigador de todas as suas ações: o desejo da companhia do eterno desconhecido.
De dentro do carro dava para observar a chuva caindo nas poças e as luzes dos faróis e semáforos refletindo no asfalto e nessas poças. Alguém mais além dela teria percebido como a cidade estava colorida e cheia de vida naquela noite? Alguém mais sentia aquele frio no estômago, aquela coragem de viver, aquela vontade de dançar, de encontrar o indecifrável, de se apaixonar? "Certamente", pensava ela, "mas onde... onde!?" Teve vontade de encontrar alguém obscuro, misterioso, impenetrável, indesvendável... Chegou ao bar. Era um lugar fechado, escuro e bonito, pouco iluminado. Algumas pessoas dançavam, outras apenas olhavam, outras apenas bebiam. Gostou de estar ali. Era estranho, ela não se sentia sozinha, era como se alguém estivesse ao seu lado a guardado, aguardando. Sentou-se no balcão. Permaneceu. Bebeu. Bebeu. Bebeu. Voltou para casa com o dia raiando, acompanhada de nenhum desconhecido. Do carro dava pra ver, seria dia de sol, céu azul intenso com poucas nuvens. Teve vontade de ir à praia. Desceu na praia, tirou os sapatos e caminhou com os pés na areia por alguns minutos. "Onde estarão os guerreiros nesse mundo onde a guerra é proibida?" — se perguntou. Voltou a pé para casa. A luz da manhã era suave e a rua estava quase deserta. As árvores a convidavam para ficar, mas ela tinha de respeitar o convite de sua cama.
Entrou em casa silenciosamente, tomou um banho morno, vestiu seu pijama, fechou a cortina, se aconchegou na cama e dormiu imediatamente. Sonhou que o desconhecido estava a sua espreita, esperando ela ficar desatenta, a fim de surpreendê-la na sua hora mais silenciosa. Ele estava em cima e baixo da sua cama, espalhado pelas janelas e pelas suas roupas. Sentia-o em todos os lugares, a todo o momento: em sua pele, dentro da geladeira, no seu prato de comidas. Ele estava prestes a aparecer em sua forma personificada quando... o relógio tocou. Três e meia da tarde. Esperava um beijo, mas possuía somente aquele frio idiota na barriga de quem tem fome de perigo mas tem somente uma casa, um vazio, conceitos inadequados de algo que procura mas não sabe o que é. Estava melancólica, mas ainda assim feliz, pois o desconhecido esteve a sua espreita a noite toda; ela sabia, um dia ele apareceria quando ela estivesse mais desprevenida, a levaria enfim para longe de toda essa monotonia e a permitiria consumar seu desejo mais profundo: o de sempre renovar seus desejos quando eles se enfraquecem. Ela aguarda pacientemente: um dia o desconhecido entrará pela sua janela e a levará para o lugar mais bonito em que já esteve e, desde então, sempre que ela se sentir morta, ele reaparecerá para levá-la a outros lugares ainda mais bonitos e desconhecidos, a outros horizontes cada vez mais belos. Enquanto isso ela caminha sozinha e esperançosa, sempre encontra algo extraordinário que a faça amar a vida, mas no fundo ela consegue sentir a força do seu desejo mais secreto e poderoso, o seu desejo mais íntimo e instigador de todas as suas ações: o desejo da companhia do eterno desconhecido.