26 de janeiro de 2011

Na passagem

Estou muito acima de mim, e não me recuso: deixo-me ser no durante, no enquanto, na ponte de mim para mim; como num fluxo infinito, que tem como eterno destino o próprio manter-se, impreciso e desavisado da inconstância. Moro na indecisão do absurdo que é o manter-se na estrada de si para si que leva a si mesmo. Não tenho não sou, apenas passo, aconteço. Minha permanência é na passagem...

2 de janeiro de 2011

Eterna aurora

Na minha "teoria" o modo que as coisas são é o maior mistério de todos. E o dia em que conseguir desvendá-lo é porquê tudo já é de outro modo, e então haverá outras coisas secretas e a serem descobertas; e tudo o que descobri já estará errado, já será passado, já não dará mais conta de conseguir deter esse novo que exige que eu o mostre. Pensar pra mim não pode ser isso que dizem por aí; está muito longe, afastado, apartado da condição de explicar cabalmente; pois quando explico, já o faço com minha explicação vazando entre os dedos, e tenho que suportar ela escorregar de minhas mãos no enquanto, no durante disso mesmo que é o momento de sua duração. É nessa inapreensibilidade que me localizo, que se localiza o meu modo de sentir e pensar; é nessa explicação que escapa entre os dedos e que exige a criação de uma outra e nova explicação não somente quando é finalizada, mas no durante do tempo de seu proferimento, o lugar de minha existência. É aterrorizante existir assim: é como viver à beira do abismo. Talvez seja isto mesmo minha existência: viver à beira de um abismo. E quero eu não apenas andar cautelosa e amendrontada nessa beira, quero ganhar o grande medo: aprender a dançar em sua borda, chegar a milímetros da queda sem cair; saber suportar a grande dor de uma existência desse tipo. E falo aqui, desse modo, tentando ser. E quem há de compreender como é esse ser a que me refiro? Quem há de compreender esse ser sem substância alguma, que permite segurança quase nenhuma? esse ser concreto mas livre e nômade que estou a falar? E que se afastem de mim todos os envenenadores; e que fique muito longe de mim eu mesma quando tento envenenar algo que sei que é grande, forte, intenso, vivo, belo, correto; quando duvido do que me torna. Eu permaneço no amanhecer de meus pensamentos, pois seu entardecer já é o mostrar-se de um novo amanhecer. Assisto assim os ocasos, entristecida de saudade, e com uma felicidade infinita, que sabe... sente o eterno desconhecido que a eterna aurora sempre trará.