22 de dezembro de 2010

A partida inconcretizada

Uma flecha de luz atravessa os morros as árvores e depois a janela, acertando em cheio seu rosto parado no tempo dos sonhos perambulantes que adormecem invadindo seu inquietos olhos totalmente cerrados. E esta manhã é uma imensidão do canto e da penumbra  em que me encontro sentada a sentir o derramar-se de seus sonhos no assoalho velho e tosco da madeira que veio de alguma mata que hoje nem deve mais existir. Faltam-me forças para suportar esta flechada que silenciosa assalta, a ti, mas que fere realmente, a mim; e que sangra de leve sim, ininterruptamente, o meu coração incrustado em pedra de saudade e vontade de partida e liberdade. Cada dobra do lençol esconde um sonho secreto e proibido, inatingível; cada uma delas é o mostrar-se de uma realidade que sorri para mim atrevida e despretensiosa mediante a inconcretude plácida dos sonhos iluminados no algodão cru que lhes sustenta. A inconcretude da possibilidade que dentro disso tudo me arroga, apropria-se, apodera-se de mim, mostra-se como um vento brando a balançar suavemente as folhas pálidas de uma árvore num lindo quadro em aquarela. Algo me avisa ali, sussurrando pelas águas de um riacho cristalino no meio de uma floresta remota, esquecida e intocada: "tens de... partir." Mas ainda assim permaneço no canto secreto da casa, a me demorar dentro da sensatez da imagem de seu rosto iluminado. Como pode uma coisa dessas?: uma flecha de luz endereçada a outro, ferina me atingir e, ainda por cima, me pedir para levantar sem pena e sair em retirada, a caminhar sabe-se lá para aonde e por quanto tempo? [...] Continuo sentada; percebo que nunca mais fui invadida pela magia de seus sonhos, e por isso, devo partir. Levanto-me, faço silenciosamente, a mala, e parto, não sei, não faço nem idéia, para onde...         

6 de dezembro de 2010

Einsamkeit - Solidão

Die Einsamkeit ist wie ein Regen.
Sie steigt vom Meer den Abenden entgegen
von Ebenen, die fern sind und entlegen,
geht sie zum Himmel, der sie immer hat.
Und erst vom Himmel fällt sie auf die Stadt.

Regnet hernieder in den Zwitterstunden,
wenn sich nach Morgen wenden alle Gassen
und wenn die Leiber, welche nichts gefunden,
enttäuscht und traurig von einander lassen;
und wenn die Menschen, die einander hassen,
in einem Bett zusammen schlafen müssen:

dann geht die Einsamkeit mit den Flüssen...


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A solidão é como uma chuva.
Nasce do mar para encontrar a noite;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, onde ela sempre está.
E somente do céu cai sobre da cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam,
têm a obrigação de, em uma cama, dormirem juntos:

então, a solidão vai com os rios...

29 de novembro de 2010

Mau conselho

Arrependimento
Intensidade
Medo
Burrice
Perder uma frase inteira
Perder a cabeça na estrada passada

Uma frase inteira não diz nada
O que diz é uma frase pela metade
O que vale é ter o sangue quente
Fazer as coisas erradas no momento certo

(Gabriela, Danilo Ferraz e o resto da vodka)

Vitória, 2.../11/2010 

27 de novembro de 2010

Gretas e loucuras

Na greta de alguma madrugada louca que navegava dentro de um copo de vodka, a loucura conseguiu me agarrar pela gola, me dar um beijo ardente na boca e me soltar quase afogada numa nuvem de fumaça que rondava meu apartamento sombrio e solitário de sonhos e desejos à luz de velas. Agora nada mais faz sentido como antes, e a minha brincadeira é conseguir lidar com a despersonalização que existe na lembrança de cada lance em que a loucura me assalta. Que fazer agora!? Que fazer?...

23 de novembro de 2010

Para lembrar que não quero esquecer

Quero ser o topo da árvore mais alta da mais densa floresta
Quero ser o infinito dentro do sentimento de uma paixão infantil
pelas cores de uma praia longínqua e deserta
Quero voar no vento de uma cidade fantasma esquecida
Cambalear seca no céu de uma folha de outono
despendurada por um ventania invertida

Ah! Alma secreta, cheia de embriaguês e pendências
No vapor que sai do bule do café em mim te condensas
Cambaleias em meu coração desritmado e impaciente
Dentro da lembrança meloancólica de um intenso sol poente
Tu és uma vontade amarga e congelante
Uma dor que a tudo que há de mais cruel é aspirante
Destruíste-me na inapreensibilidade do teu caminhar

Desisto de ti porquê desististes de mim; e só por isso. Desisto de ti para conseguir não querer esquecer-te... pois se conseguisse incorporar a vontade de não te querer mais, estaria negando... negando sabe-se lá o que que não consigo viver sem.

Espero um dia nunca entender...

22 de novembro de 2010

Primeiras rimas

De tanto ouvir a vontade dos outros
e esquecer das minhas mesmas
quase sufoquei meu coração cambaleante
apaixonado de tristeza

Mas hoje digo com orgulho:
"o meu lugar a mim pertence"
por isso, mesmo triste, estou assim
de corpo inteiro sorridente

Com muitos sonhos e paixão
agora faço minha estrada
arriscando, pela primeira vez
algumas estrofes rimadas

19 de novembro de 2010

Saudade e proximidade

Não quero te descobrir
Quero te manter como um segredo intocado
Distante o bastante para estar sempre muito próximo.
Não quero ter tempo para aprender como você é ou do que você gosta
Mas tempo para esquecer do seu toque
e poder sentir falta de lembrá-lo.
Quero manter a distância perfeita que permite eu sempre pertencer a ti.
Quero ter saudade de lembrar do seu cheiro
e ser obrigada a te procurar, mais uma vez, para senti-lo em você
e, no outro dia, em meu travesseiro.
Quero-te distante, distante o bastante para que eu possa
sempre
estar contigo
completamente...

16 de novembro de 2010

O caos

A casa e os dias vazios. A luz entrando pelas frestas. O estômago sempre cheio desse bolor inútil da esperança. O sonho fino e corrosivo. O céu escuro a se esconder por de trás das cortinas, a me esperar, chamar-me. Como é in-viável ser um sonhador... As ruas a guardarem segredos. As possibilidades. O inconcreto e inexpressável de ser. A eterna facada que ficou em minhas costas. O copo de vodka com gelo. O beijo na chuva. O abandono. A falta. O caos completo, a total falta de sentido. Tenho que partir; preciso... E essa vodka que não acaba, e o cigarro que permanece. O silêncio. Não foi dessa vez que te encontrei. Estou só, completamente só. Mais uma dose, por favor, e uma caixa, de fósforos. Obrigada.

4 de novembro de 2010

O permanecer

A indiscutível coesão do instante extraordinário e absurdo de sua presença me corroe com mãos nômades e bêbadas na localização desenraizada, infundamental e abissal da possibilidade do que está. Enquanto isso, a volatibilidade de tudo entranha no real e se concretiza como inconcretude da proximidade, tudo isso no olhar pesado e denso deste momento louco, mágico e distante que é o seu estar-aqui. O limite da pele, a distância perfeita e imanente, você demorando na inescapável constância do meu sentir-te que te desperta-me para a existência de tudo que há de mais externo, extremo e ilimitado. Permaneço.

3 de novembro de 2010

Uma indiscrição

Nasceu a possibilidade de um texto quase indecente da vontade insistente, impaciente e indiscreta que tenho de ti. Inconcretizado, o texto permanece latente, no aguardo; no aguardo ardente de seu toque e da própria desrealização como possibilidade de texto e realização como concretude de um ato preciso e completo. Enquanto isso, fico aqui, acanhada e envergonhada desse desejo descabido. Desculpe-me, mas acontece; essas coisas, acontecem...

A possibilidade

Era verão, você estava deitado na borda da piscina. Não conseguia se levantar de tão bêbado. Mas ainda assim fumou um cigarro. Quis deitar no meu colo, e eu o permiti - não era para fazê-lo, mas permiti. - Seus gestos de mão, cambaleantes e ilimitados; a expressão séria e debochada, ciente, ciente da minha fragilidade. E eu ali, tentando me fazer longe, forte: dentro de mim um turbilhão, a mais densa e cinzenta tempestade; o mais profundo, voraz, obscuro e impetuoso oceano. Minhas mãos, escorando-me na beira da piscina, mas com a vontade em ti. E tudo era proibido de mais ali, e era isso o que ali me segurava. A imprecisão daquele instante absurdo, com sua cabeça repousada sobre minhas pernas, a olhar, e olhar, e olhar, sabe-se lá para onde... Você me tirando pra dançar, se aproximando bruscamente, olhando-me com firmeza nos olhos; a aflição do primeiro beijo, os cantos escuros da cidade; os cigarros divididos, o carinho, o grande carinho; o abraço incomum e absurdo na hora mais exata; o olhar o teto junto, o cheiro do café fresco... todas lembranças do que nunca aconteceu, dentro daquele instante perturbado, indiscreto e perfeito. A vontade de minhas mãos passeia por você, mas permanecem no chão, eternamente a me escorar e suportar a vontade de meu corpo e meu corpo tendo sua cabeça a me despertar... Você não sabe, não faz nem idéia...

27 de outubro de 2010

Insegurança e felicidade

- E como você tá com tudo isso?

- Sei lá! Antes eu sabia como tudo iria acontecer, daí fiquei triste e entendiada; mas agora que não sei mais de nada estou insegura e feliz!

14 de outubro de 2010

O esconderijo

Algumas palavras escritas: muitas contensões
Outras faladas: um mundo escondido de sentimentos
Vontades veladas nas palavras de um só gesto
na beleza da linguagem de uma só imagem ou melodia.
Como é difícil lidar, viver na linguagem.
Tento agora me segurar para não dizer tudo
pois se o dissesse, nada seria dito.
Detenho-me, contenho-me infinitamente
para não abraçar, não me segurar eternamente àquilo que amo
pois, o que amo tem de permanecer às vezes intocado
distante
como um segredo proibido
para assim, estar próximo...

10 de outubro de 2010

A distância aproximadora

Distante assim de tudo que me realiza, me sinto extremamente próxima a elas. Consigo senti-las com um vigor extremo. As coisas que amo parecem ter mais vigor em mim na distância. Será que sou saudade? será que saudade e falta me realizam mais do que o estar com as coisa? Será que possuo realmente as coisas somente não as possuindo? Acho que não, acho que é porquê possuo aquilo que me pertence até mesmo na falta, até mesmo na dor. É o meu modo de ser feliz mesmo com a dor extrema ― da falta...

8 de outubro de 2010

Para muito longe

Era noite. Ele estava em casa deitado em sua cama. As luzes estavam apagadas. Uma penumbra mórbida e intensa chovia no lugar. Ele olhava para o vazio das paredes do seu quarto. Era jovem ainda, muito jovem. Sentia-se muito homem, pois, mesmo tão jovem, já estivera com várias mulheres. Mas mesmo assim algo nele lhe dizia: pouco homem... tu és, pouco homem. E ele sentia essa frase vigorando em si, sem conseguir ou se permitir adivinhá-la, sabê-la, concretizá-la. Mas a frase indecifrável, amorfa e inconcreta lhe assaltava o corpo frio e descoberto, estirado na escuridão, e lhe sussurrava na alma: pouco homem. A cama vazia, quente, pegajosa, tocava suas costas. Ele, sentindo esse toque, vira-se de lado e sente como se a cama o abraçasse. A dor sussurra para ele: ela está longe. E ele pensa, como quem retruca: há muito mais do que ela na escuridão das possibilidades. Mas a dor se sustenta, falando baixinho, tocando com seu som inaudível cada célula do corpo do rapaz: ela está longe, muito longe. Ele se levanta de uma vez, sem pena, e se põe de pé a sentir-se. Diz para si em voz alta: não preciso dela. Veste-se, pega a chave, a carteira e uma sacola já pronta que se encontrava no canto do quarto. Caminha um pouco pelas ruas e, chegando no lugar planejado, toca a campainha:

- Boa noite, está ocupada?
- Não não, por favor, entre.
- Desculpe a hora, mas precisava vê-la.
- Tudo bem. Você está bem?
- Sim.

Ele se cala e ela, por algum tempo, pergunta algumas coisas inúteis: pergunta aquelas perguntas já prontas, que se deve fazer para alguém que já não se vê há algum tempo a fim de demonstrar interesse. Apesar disso o interesse dela não era falso, esperara aquela visita por muito tempo. Ele responde todas as perguntas sucintamente, sabendo como tudo aquilo era pronto de mais para ele, acabado, claro, transparente, desinteressante. Já não mais suportando, disse-lha:

- Trouxe-te uma coisa.
- Pra mim? - Ela diz sorrindo, com os olhos cintilantes.
- Sim
- Um presente?
- Sim.


Ele pega a sacola e de dentro dela faz brotar um vestido florido, delicado, e uma calcinha de rendas.


- É pra você. Quero-te neles esta noite.

A moça, não se contendo de tanta felicidade, (pode parecer uma frase clichê para descrever a emoção da moça, mas era uma moça comum e tinha uma felicidade comum, então, nada mais correto do que descrever seu sentimento com uma frase comum). Voltando: a moça, não se contendo de tanta felicidade, levanta-se e vai em direção ao quarto para vestir-se Enquanto isso, ele permanece estático, sentindo sua dor vociferante e silenciosa rasgar, externemente, seu dentro de si. Um grito mudo, uma facada sorrateira pelas costas e a imagem das costas dela, da outra, na última vez que a vira: tudo de uma vez só nele, dentro da calada daquela noite desesperadora. Ele se levanta e sente o silêncio cobrir os móveis, a se esconder na “comunidade”, normalidade, falta de autenticidade de como cada coisa foi deixada ser colocada em cada lugar que lhe fora previsto pelas revistas de decoração. Vai até o quarto e abre a porta que range vagarosamente até a imagem do rosto dela assustado no espelho. Ela está a se pintar, já vestida com as peças.


- Não é necessário. Hoje te quero só com eles.

Ele a segura pela cintura, do modo como somente um homem de verdade é capaz de fazer, e a beija, ardentemente.

Aquelas peças de roupa, agora vestidas na moça comum, já estavam separadas há algum tempo naquela sacola; pertenciam a outra mulher, que, mesmo distante, permanecia. Ela quer falar algo, mas ele a interrompe:


- Fique quieta. - E sente como é bom saber que ela é completamente dele, mesmo ele não pertencendo de modo algum a ela.


E no mais íntimo de sua dor, no mais profundo e obscuro de sua alma, ele sentia a coisa amorfa, inconcreta e indecifrável; ele sentia, sem saber, aquele sussurro, baixinho, dizendo de si para si ensurdecedoramente: eu te vesti com as roupas dela, agora fique quieta e me leve para longe, não me importo para onde, desde que seja longe, muito longe...

(Esse conto é uma interpretação da música Be quiet and drive (far away) de Chino Moreno do Deftones.)

27 de setembro de 2010

O inefável

Desculpem-me
mas hoje
sinto algo
que foge das palavras...

26 de setembro de 2010

O inexistente necessário

É madrugada. Ele está deitado. Ela dorme profundamente em seus braços. Ele está bem acordado, olhando inadvertidamente o teto e sentindo aquele corpo, aquele carinho extremo por ela. Uma vontade de cuidar, de protegê-la quase o sufoca. Seu olhar passeia pelas paredes e repousa no corpo dela. O desejo se intensifica. A vontade de levá-la embora, para longe, para algum lugar extraordinário, para algum lugar que mereça todo aquele sentimento. Ele a abraça forte e ela acorda. Sonolenta, ela vê embaçado, através dos olhos entreabertos, que ele está a olhar seu próprio sentimento na parede. Ela compreende. Lentamente, beija-lhe o rosto... Ele, no prazer da certeza de possuí-la completamente, olha para ela através da explosão que ocorre em seu coração. Daquele instante mágico e silencioso surge um beijo, que escorre denso pelos lençois, sujando-os de suor e medo. O toque, a textura, o cheiro, o gosto, o calor na pele e o frio no estômago. Ele a ama.

24 de setembro de 2010

O aterrorizante necessário inconcreto

Ter que permanecer com essa vontade direcionada para um vazio, para a possibilidade de uma existência que não se concretiza, que ainda não se efetivou, mas que vigora latente e intensa como algo que deve de ser, que tem a obrigação de vir a ser. Ter que suportar a necessidade extrema de algo que é existente só como possibilidade, e que se mostra como a única opção, mesmo estando totalmente longe de ser "de fato": o caminho único rumo ao inexistente, longínquo e plenamente necessário. É aterrorizante!

O possuir

Possuo as coisas somente não as possuindo.

20 de setembro de 2010

Sei a verdade

Estou deitada. As imagens tentam me jogar para fora da cama. Não quero me levantar, mas as imagens de uma praia insistem em me lançar para além de onde estou. Essa imagem é uma luta contra a minha desesperança. Nesse desespero, ponho-me a sentir com atenção minha dor. O desanimo me segura na cama, mas meu restolho de esperança, mesmo pequeno, de tão forte me arrasta com pés pesados para a praia. Estou triste, e isso tem a ver com a felicidade. Deito na areia, sinto pena de quem não sabe suportar a dor, e se esconde dela, sem sentir como ela é amável e amiga. Minha dor aumenta com esse pensamento. Recomponho-me. Deitada permaneço, sinto o sol, sei a verdade: sou feliz.

Deus está no instante

A natureza existe em mim de um mesmo modo frágil e corajosa; paradoxo sou eu, e não me entendo. Corro livre na beira do abismo: este é o meu modo de enfrentar a fragilidade; dôo-me ao medo, resistindo, e retorno rejuvenescida. A dor de agora é a ponte para o amanhã, pois ela é a mudança e o impulso para o novo e para a superação; ela permite o vindouro, pois, “o futuro nunca vem quando o passado é sempre o mesmo”. Por isso sou grata à dor, e gosto dela mesmo não gostando de estar com ela. Que sou eu sem a dor? Pois, sou o que tenho, mas igualmente sou eu a dor pulsante do desejo pelo que não tenho e quero ter. Sou tudo o que me torna intensa, inteira e única. Tenho lágrima nos olhos agora... necessito de um abraço... por favor, um abraço... O homem não tem medo da efemeridade, ele tem medo é da eternidade, pois esta jaz em cada momento milagroso de intensidade e inteireza, momentos esses que são, ao mesmo tempo, extremamente necessários e totalmente voláteis, fugazes, incompreensíveis, inseguros, arredios: o homem tem medo desses momentos, pois sabe do perigo e da dificuldade de estar neles e de, depois, estar sem eles. Ponho-me à beira do abismo, abro os braços e sinto: não sei viver só, e isso é ─ completo! Derramo-me na realidade, entrego-me totalmente a esse esplendor que é viver, mas, no instante seguinte, retorno ao horror e ao medo. Deus está no instante em que me elevo!

Pequeno conto para um desejo

É noite. O ar é pesado para ele; olha para os lados como se todos o vigiassem. Seu corpo magro não cabe na cadeira. Sorri forçosamente algumas vezes com seus amigos na mesa do bar. Olha para mim inadvertidamente, parece gostar de mim, mas não quer olhar. Olha novamente, uma, duas, várias vezes. Um cigarro lentamente salta até suas mãos e entra em chama derramando-se em sua boca latente. As mãos repousadas na cadeira aguardam, sem saber, minha pele. A fumaça pinta o ar ao seu redor e ele se entrega. Qual será o seu nome? Ainda não há desejo, este momento é só a origem do nascimento do desejo que se concretizará somente quando eu chegar em casa e me lembrar dos olhares, e sentir que seu corpo me aguarda. Um completo silêncio se faz naquela imagem, e eu vejo somente a longa demora do seu rosto no instante inocente e infantil da origem de meu desejo. Que instante demorado é o seu rosto... não consigo apreendê-lo: o seu rosto é um instante incompreensível. Tenho certeza de que quando me for, não mais me lembrarei deste rosto. É um rosto inapreensível, os traços fugidios são esquecidos no mesmo momento em que os decoro: quando os tenho já os sinto perdê-los. Qual será o seu nome?


Ele se levanta, vem até mim, pega em meu braço e me diz para caminharmos. Ele nada fala, apenas caminha para longe.

- Por que estava olhando para mim?
- Porque gostei de você.
- Por quê?
- Por que... você não se parece com nada que eu já tenha visto.

Ele segura forte em meu braço e me diz:

- Você é só mais uma.
- Como? - Pergunto assutada.
- Só mais uma, como todas as outras!
- Sim, desculpe. - Digo de cabeça baixa, começo a chorar. - Ele se assusta.
- Por que está chorando?
- Porque sou apenas mais uma, como todas as outras.
- E não queria ser?
- Não.
- Por quê?
- Porque tenho força de mais para suportar ser.
- Por que está tentando fazer tudo diferente do que qualquer uma faria? Apenas para não parecer comum?
- Não sei... talvez.

Ele ainda segura firme em meu braço.

- Está fingindo?
- Talvez todos finjamos... mas minha dor é real.
- Está fingindo por quê?
- Não sei se estou fingindo.
- É porquê finge tanto que já não sabe mais quando finge, já não sabe mais não fingir.
- Sim, provavelmente...
- A dor real é pelo que?
- Talvez por você achar que sou comum.
- E você não é?
- Sim, mas, pra você, gostaria de não ser comum.

Ele pára um instante, os olhos em brasa, descontrolados, tentando me observar no turbilhão daquele instante. Sente o medo e seu passado determinante que o fez tão bruto e arredio. Pára, sente toda aquela força, arranca tudo de uma vez só me puxando a favor de si e me abraçando ternamente. Choro muito.

- Você não é igual? - Ele pergunta.
- Não.
- E agora?
- Terá de suportar.

O abraço permanece, nos invade. Invade meu rosto encaixado perfeitamente em seu peito, invade suas mãos: uma segurando meus cabelos com os dedos neles entrelaçados, e a outra descansando plenamente sobre minhas costas. O corpo muito junto, completamente junto, estamos entregues... Inevitavelmente ocorre o beijo. A boca molhada, o encaixe perfeito, o frio no estômago e perto do coração... Ambos nos libertamos, ambos sabemos da dor que virá, e da grande dificuldade, mas ao menos agora somos permitidos viver algo que nunca nos ocorreu: somos permitidos amar...

Estou ainda na mesa do bar vendo seu rosto demorar. Um amigo me chama. A conta está paga. Levanto-me, passo por ele sem olhá-lo, sentindo fortemente sua presença. Vou embora.

18 de setembro de 2010

O futuro

O futuro não é algo que se possa dominar, que é possível fazer acontecer exatamente de acordo com nossas vontades; ele não consegue se sustentar apenas como conseqüência de um plano, ou uma meta a ser atingida. O futuro é o baú que guarda os mistérios mais secretos, ele é a magia do indeterminado que fornece forma, esperança e desejo ao presente. Ele é o inexistente mais necessário, a possibilidade do nascimento de todas as possibilidades, da criação e do novo; ele é o suporte da possibilidade do contínuo. Nele está guardado o inesperado e o perigo, o acaso a ser recolhido com pudor e mistério. É preciso ter cuidado e pudor para com o futuro, caso contrário a esperança e os desejos nos abandonam e, assim, nos tornamos tristes e sem força, sem futuro mesmo. É preciso desejar o futuro como uma criança deseja um arco-íris: desejá-lo como algo puro, belo, longínquo, extremamente querido, guardador dos segredos, magias e fantasias mais extraordinários; desejá-lo como algo que deve se manter sempre distante, que deve ser sempre uma imagem intocável; desejá-lo como o desejo do impossível que aparece lindamente no céu veronesco a embelezar o dia com seu poder hipnótico de cores e sonhos. Possuo o futuro apenas não o possuindo, e sua beleza está em sua inapreensibilidade, incerteza, inesperado e mistério. Sinto agora sua força em mim, e, mesmo estando extremamente desiludida e triste, sei que com ele o inesperado ainda me persegue, que ainda não sei de tudo e, por isso, ainda é possível viver.

Lembranças

As luzinhas do pisca-pisca coloriam o ar, a casa, a vida. E eu estava naquele sofá velho, o chão de madeira encerada refletia todas aquelas cores. Por que toda essa intensidade? Por que essa força poderosa vinda de dentro de mim? Uma força aguda, quase dor, e com intensidade e beleza tão... absurdas, que... não sei. Uma força quase dor... Talvez uma força-dor, uma força-dor pela beleza e simplicidade demasiado complexa da vida, pela simplicidade complexa do sentir. O pisca-pisca pisca e colore, colore minha respiração, sinto-o colorindo minha pele, tocando meu corpo e me enfeitiçando. Toda essa força é pelas cores, pelo chão encerado, pela árvore de natal, pelo sofá velho? É pelo que essa força? Que força é essa, vinda do coração, bem no coração? partindo dele, nele e para além dele? Por que possuo esse momento hoje mais do que naquele dia? Por que possuo essas luzinhas hoje mais do que quando eu estava realmente a vê-las do sofá velho em cima do chão encerado?  Por que sinto o passado com mais intensidade quando ele se torna uma lembrança? É lindo possuir esse momento quase inexistente, a coisa impregnante e volátil que é essa lembrança: senti-la com todo esse vigor e beleza; mas o que é isso? Que coisa é essa de sentir um momento com mais vigor quando ele já não é mais? Como pode um momento vigorar mais quando ele já não é? Não sei... Só sei que é lindo. Paro agora, lembro, sinto, o mundo me toma com essa lembrança, sou livre...

O segredo

Hoje o vento me contou um segredo
Dentro do silêncio de seu toque.
Ele me falou sobre a força, o amor e a vida
E eu o escutei como quem escuta uma canção mágica
Como quem escuta algo absurdamente poderoso
Os segredos mais secretos da terra.
Hoj
e o vento me mostrou um segredo incompreensível
Que terei de guardá-lo eternamente
Só para mim
Pois ele é ─ inefável...

17 de agosto de 2010

A fuga do infugível

Tentei por esses tempos escapar da poesia; escrevi prosas sem utilizá-la, muitas prosas. Escrevi a vida, sem nem perceber: por mais afastada que eu tentei me manter dela, ela estava bem atrás de mim, a me perseguir. Chega uma hora em que a gente se depara com sentimentos estranhos de mais, de modo que se torna impossível se desfazer da poesia... (Grande achado nos arquivos de 2007.)

12 de agosto de 2010

Lembranças e sonhos

Temos lembranças de mais e sonhos de menos.

"Uma fotografia muda"

Num entardecer suave, de céu limpo e quase alaranjado, batia um vento impetuoso balançando com igual leveza as árvores e as minúsculas, delicadas florezinhas que dão em cachos para cima e que parecem pequeninos pedaços de algodão púrpuro. Essas florezinhas cobriam um vasto terreno na beira da estrada de chão, moviam-se e existiam com tamanha sutileza. Tinham um pôr-do-sol de verão à contra luz, que as atravessava com facilidade, devido a sua textura plumária que deixava escapar dentre aqueles pelinhos os raios daquela luz quase dourada; isso tornava a atmosfera mágica. Nesse entardecer eu me encontrava sentada na varanda a olhar essa imagem. Como eu queria poder guardá-la para sempre... fazer uma música naquele momento que a remetesse eternamente. Pintá-la em um quadro no qual eu pudesse ressaltar todo aquele feitiço de cores... Eu tirei fotos dessas florezinhas, mas as perdi... Por isso, faço um texto para homenageá-las e para nunca mais me esquecer. Estou apaixonada pelas cores! Um dia desses um grande amigo me perguntou: qual a cor mais bonita? Eu não saberia responder, pois as cores são bonitas em contexto, em relação umas com as outras e com quem às observa. É necessário que eu esteja dentro das cores, das coisas, dos lugares para que eles causem impacto em mim; é preciso que as cores consigam entrar dentro de mim através de formas, sentimentos, lembranças, sonhos, sensações, sons, cheiros, vento, imagens, músicas... tudo de uma vez só e num mesmo instante que se repete. Talvez eu poderia dizer que a cor mais bonita é aquele púrpuro de algo que parecia algodão mas não era e que se movia como pluma sendo atravessado por aquela luz pastel-amarelada que me fazia sentir leve um espírito que nem existe. Mas, sinceramente, eu não sei qual é a cor mais bonita... pois me parece tamanha injustiça com o verde e azul daquelas folhas e céu que vi deitada por de baixo da castanheira em um dia em que eu me sentia tão bem; ou com o intenso rosa-avermelhado em contraste com um verde fosco, quase musgo, que vi nesta manhã nublada de primavera saltando para fora de um muro de chapisco cinza; ou com o salmão suave de minha toalha pendurada no varal quando iluminada pela luz fraca que vem do céu, com o sol já bem posto, no momento em que me encontro em casa, deitada na cama, com as luzes apagadas, na penumbra do denso entardecer, e estou, sem querer, a pensar no infinito...

9 de julho de 2010

Solidão e coragem

Por que quase tudo se afasta de mim? Por que a grande maioria das coisas não me prende? Por que a solidão parece sempre, no final, me puxar e arrebatar? Há tanto choro em mim agora que ultrapassa o próprio ato de chorar; mas não quero fazer deste choro lamúria. Ele é um choro de coragem! É por coragem que me disponho a novamente caminhar pelo deserto. Sei como vai ser daqui para frente: a agonia, o desespero, a vontade de retorno àquilo a que não posso retornar. Mas desta vez, talvez pela primeira vez, sei: estou sozinha, ninguém, absolutamente ninguém poderá me acompanhar. Ainda bem que tenho as palavras, nelas me redimo e me aconchego, faço-me grande. E que o desconhecido permaneça sempre a minha espreita, a esperança a me perseguir, o infinito em meu horizonte, e ― desta vez, mais uma coisa convido a me acompanhar, ― a coragem! Para que assim eu não sucumba, não me perca no desânimo e no lamento. Assim hei de ser grande, mesmo que não tanto, mesmo que aos pouquinhos, hei de ser grande, pois só assim é possível agora, a mim, continuar vivendo...  

14 de junho de 2010

Esperança

O desconhecido me abandou novamente, dando lugar ao velho e fraco. Sinto saudade da força que já tive, e é necessário cuidar o seu retorno. Sinto saudade de um futuro que se perdeu, de um agora apagado pela a imprecisão do acaso e das impossibilidades. Mora em mim hoje um adeus remoído e uma vontade de ir embora. Quem há de me entender? Quem há de compreender as sutilezas desses ditos? Somente quem já sentiu saudade de um futuro perdido, quem já sentiu essa força que empurra mas não carrega, esse agora que vigora mas não se realiza. Aguardo e cuido... a esperança é minha melhor amiga.

20 de abril de 2010

Madrugada assombrada

Era noite, eu caminhava em um lugar escuro. O céu estava completamente nublado e possuía um tom quase vermelho. Viam-se apenas sombras e penumbras ao redor. Às vezes a luz de um relâmpago soltava sua fúria. O vento estava impetuoso e balançava de forma assustadora os galhos e as folhas das árvores. Ninguém estava comigo, nem ali e nem em lugar algum: a solidão era absoluta. Ouvia-se apenas o silêncio das árvores cantando uma música de terror e medo. A vida me levava naquele momento para a minha solidão mais desolada, minha hora mais silenciosa. Enquanto eu andava, meu demônio me rondava, cruel e atrevido, cheirava meu pescoço, roçava em minha pele, entrava por debaixo de minha roupa; meu demônio, minha solidão. Sem choro e sem vontade de choro eu continuei, apenas o desespero me arrastava pela estrada, a des-esperança, o sentimento do mais denso, profundo, negro e violento oceano dentro de mim. A única ligação com o mundo era aquela penumbra macabra. Eu era uma fera sem bando, faminta e sedenta, em uma densa floresta. O vento fez as árvores cantarem uma música tão soturna que começou a chover. Um trovão explodiu ao redor do meu corpo. Eu era aquele lugar sombrio, era o próprio desespero, a própria desesperança, a solidão; por isso, amava de mais. Corri para a luz da cidade como uma fera assustada corre para dentro da escuridão da mata a fim de se proteger, e nessa luz vi em mim aquela pele e garras de fera num corpo tão humano... Não havia lugar para mim no mundo naquela noite, talvez nunca houvera. A esperança retorna: “ainda há de haver um lugar” – sentia eu. Toda a minha vida é a espera por esse lugar, e para onde quer que eu vá, seja em que direção for, eu caminho para ele. Meu demônio se aquietou, permaneceu apenas caminhando ao meu lado. Meu lugar é o sem-lugar. Quero um lugar de verdade, e não mais somente um vazio...

Eternidade e efemeridade

Algo me embala ao sono mais profundo e com os pesadelos mais terríveis que já tive, pesadelos mais reais que a própria realidade. Minha época de pessimismo, descrença, decadência. Mas com que rapidez surpreendente ela se vai e deixa ser tomada por aquela velha gratidão pela vida. Que ciclo horripilante é a vida! Deve-se suportar dores e prazeres efêmeros com aparência de eternos! Cruel e ao mesmo tempo acolhedora é a vida: leva-me ao infinito, à eternidade, e depois me joga novamente em frente a esse muro completamente intransponível do devir. Permito que me leve; temo, mas não nego ser levada: leve-me, vida, ao infinito e eterno, ao que de mais metafísico e humano possa existir! Não tenho medo de ser humana, e esse parece ser todo meu erro, sendo mesmo assim meu eterno acerto. O homem tem medo da efemeridade!? Eu digo que o homem tem medo é da eternidade...!

5 de março de 2010

Para minha irmã

Irmã não somente se sangue, mas também de alma. Alguém com quem consigo conversar; e digo conversar no grau mais alto, significativo, profundo e intenso que essa palavra pode possuir. Poderia eu ficar elogiando-a no que ela se parece comigo, pois, convenhamos, somos por demais parecidas, mas prefiro elogiá-la no que ela tem de só dela. É cautelosa, firme, impiedosa, impetuosa, segura de si, isso sem deixar de ser doce, empática e sentimental; amante das coisas proibidas e livre, essa menina tem um próprio, ela respeita o quer, é livre! E falo isso mesmo sabendo que talvez só ela compreenda de qual liberdade estou a falar. Alguém que me faz sentir por vezes uma alegria imensa, muito aguda, por simplesmente pensar que tenho com ela laço para toda uma vida...

27 de fevereiro de 2010

Gaia ciência

O homem está destinado a, mediante suas experiência, criar novos valores e, conseqüentemente, interpretar a realidade de um modo novo, ou seja, está fadado a sempre ver aparecer, de tempos em tempos, seus antigos valores como erros, ilusões. Essa visão sempre o leva a dor, pois ela traz a necessidade de deixar o conforto do lar, o aconchego do já conhecido e partir, como um andarilho, rumo ao desconhecido. Por isso, o conhecimento mais próprio do homem é aquele que se funda no saber deixar para trás, mesmo na intensa dor, os valores que perderam sua força, que não mais fornecem possibilidade de viver com vigor; próprio do homem é um conhecimento que o permite partir sem medo, sempre que preciso, rumo ao desconhecido, e criar, sem cansaço e infinitas vezes durante toda uma vida, novos sentidos.

14 de fevereiro de 2010

Hoffnung

Wenn die Nacht ankommt
und die Sterne ruhig singen
Wenn das Dunkel regnet
und meine ganze Poren dringen
Wenn stehe ich hier
und das Meer verfolgt meine Füsse
und der Mond kommt zu schnell:
ein Wald hütet mein Traum