Tentei por esses tempos escapar da poesia; escrevi prosas sem utilizá-la, muitas prosas. Escrevi a vida, sem nem perceber: por mais afastada que eu tentei me manter dela, ela estava bem atrás de mim, a me perseguir. Chega uma hora em que a gente se depara com sentimentos estranhos de mais, de modo que se torna impossível se desfazer da poesia... (Grande achado nos arquivos de 2007.)
17 de agosto de 2010
12 de agosto de 2010
"Uma fotografia muda"
Num entardecer suave, de céu limpo e quase alaranjado, batia um vento impetuoso balançando com igual leveza as árvores e as minúsculas, delicadas florezinhas que dão em cachos para cima e que parecem pequeninos pedaços de algodão púrpuro. Essas florezinhas cobriam um vasto terreno na beira da estrada de chão, moviam-se e existiam com tamanha sutileza. Tinham um pôr-do-sol de verão à contra luz, que as atravessava com facilidade, devido a sua textura plumária que deixava escapar dentre aqueles pelinhos os raios daquela luz quase dourada; isso tornava a atmosfera mágica. Nesse entardecer eu me encontrava sentada na varanda a olhar essa imagem. Como eu queria poder guardá-la para sempre... fazer uma música naquele momento que a remetesse eternamente. Pintá-la em um quadro no qual eu pudesse ressaltar todo aquele feitiço de cores... Eu tirei fotos dessas florezinhas, mas as perdi... Por isso, faço um texto para homenageá-las e para nunca mais me esquecer. Estou apaixonada pelas cores! Um dia desses um grande amigo me perguntou: qual a cor mais bonita? Eu não saberia responder, pois as cores são bonitas em contexto, em relação umas com as outras e com quem às observa. É necessário que eu esteja dentro das cores, das coisas, dos lugares para que eles causem impacto em mim; é preciso que as cores consigam entrar dentro de mim através de formas, sentimentos, lembranças, sonhos, sensações, sons, cheiros, vento, imagens, músicas... tudo de uma vez só e num mesmo instante que se repete. Talvez eu poderia dizer que a cor mais bonita é aquele púrpuro de algo que parecia algodão mas não era e que se movia como pluma sendo atravessado por aquela luz pastel-amarelada que me fazia sentir leve um espírito que nem existe. Mas, sinceramente, eu não sei qual é a cor mais bonita... pois me parece tamanha injustiça com o verde e azul daquelas folhas e céu que vi deitada por de baixo da castanheira em um dia em que eu me sentia tão bem; ou com o intenso rosa-avermelhado em contraste com um verde fosco, quase musgo, que vi nesta manhã nublada de primavera saltando para fora de um muro de chapisco cinza; ou com o salmão suave de minha toalha pendurada no varal quando iluminada pela luz fraca que vem do céu, com o sol já bem posto, no momento em que me encontro em casa, deitada na cama, com as luzes apagadas, na penumbra do denso entardecer, e estou, sem querer, a pensar no infinito...