31 de março de 2011

Dead man

"Some are born to sweet delight, some are born to endless night" (William Blake) Alguns homens, em busca de uma vida digna - já pronta -, chegam ao inferno por ela: têm tudo em que acreditam, destruído. Poucos destes são aqueles que, a partir deste inferno, conseguem - criar - uma vida digna. 

(Uma homenagem ao filme Dead Man, de Jim Jarmusch.)

Die Abwesenheit

Die helle Nacht
Der dunkle Raum
Die weiteste Ferne
Der schönste Traum
Ein Wort versteckt
Eine geheimes Gefühl
Und dieses Lied
Hütet eine Umarmung

Aber ich kann nicht davor weinen
Ich kann nicht traurig davor sein
So weit...
Weit wie ein Stern
Regenbogen unantastbar
Weit wie der weiteste Stein
Aber nahe wie ─ Einsamkeit

30 de março de 2011

Um conto infinito

Seus cabelos se encontravam presos por um grampo em um coque feito com zelo, no entanto, frouxo. Ele o observava com cuidado, achando-o belíssimo sobre os ombros e pescoço pálidos da mulher que se encontrava a sua frente. Ele estava de frente para ela, no meio da sala, sentado em uma cadeira há alguma distância dela, talvez um passo largo. Ela estava sentada em uma pequena mesa à frente dele, virada de lado, de modo que ele conseguia ver apenas seu perfil. À direita dela existia uma parede e nela uma janela, que se encontrava quase que de encontro com o lugar onde ela estava, somente um pouco a frente, talvez três ou quatro palmos. Ela tentava se manter em uma postura adequada, mas parece que não conseguia. Enquanto isso bebia café em uma das velhas xícaras amareladas pelo tempo que ele conservara consigo.

- As xícaras são as mesmas.
- Sim, as mesmas.  
- O café está bom, bem melhor. - Diz sem olhar para ele, fitando pela janela e se fingindo entretida com algo ao longe; estava bastante apreensiva, mas forjava relativamente bem certa tranqüilidade.
- Sim, esse é melhor. - Respondeu bastante calmo, observando apreensivo o coque, pois este parecia que a qualquer momento deslizaria e despencaria, desenrolando-se ombros a baixo.

Ele se encontrava na cadeira de modo confortável. Trajava roupas caseiras de verão: uma blusa de flanela branca e um calção brim, cinza já bem desbotado; isso mesmo apesar do tempo frio. Seus cabelos não tão curtos, lisos e pesados, se enredavam em grandes tuchos diferentes que pendiam para vários lados, e que mudavam de direção quando ele, talvez pelo espanto de tê-la novamente em casa depois de tantos anos, passava a mão pela cabeça se agarrando a um tucho de cabelo, e assim permanecia durante alguns segundos enquanto olhava para um lugar fixo sem ver nada, e depois soltava-o de um vez, como quem solta uma grande aflição. Ele possuía uma expressão séria, mas ao mesmo tempo um brilho infantil e calmo nos olhos. Ela continuava a fitar para além da janela, tentando se mostrar bastante segura; mas ela não conseguia enganá-lo.

Percebendo que seu coque cairia a qualquer momento, de repente tirou o grampo e sentiu seus cabelos longos, finos, quase dourados, despencarem, frios, sobre suas costas aquecidas. Sentiu também o olhar dele para aquela queda que dificilmente seria por ele esquecida e que, durante muitos anos permaneceu com ele como um tesouro secreto, e isso mesmo muito depois de não mais conseguir se lembrar claramente da imagem.

- Bem, vim aqui para falar que voltei para a cidade, e vou ficar; e para tentar conversar com você. Mas como está ainda mais calado do que o de costume, acho que só me resta ir embora. - Falou levantando da cadeira.
- Ficar? Ficar para sempre? – Perguntou assustado levando junto com ela.
- Talvez. – Disse ela de pé ajeitando o vestido.
Ele se sentou novamente.
- Ando calado. Não é culpa minha, mas mesmo assim peço que perdoe-me.
- Não tem porquê. - Falou com o tom sério que mantivera o tempo todo desde que entrara, e irredutível no seu levantar-se da cadeira, permanecendo de pé, completou: - O importante é que está bem.
Andou em direção à porta. Ele a acompanhou, abriu a fechadura e lha fez uma reverência profunda. Ela respondeu com um sorriso educado e partiu.

- Mais um pouco de força para suportar sua fraqueza e ela permaneceria. Porque estou condenado a amar uma mulher que não consegue se entregar? Se ao menos eu pudesse demonstrar alguma coisa, dar a ela alguma certeza... mas se o faço ela se sente obrigada a se entregar, e se o faz por obrigação perde completamente o interesse: sente-se entediada e não consegue permanecer. Tem que descobrir tudo por si própria para conseguir permanecer, mas ao mesmo tempo não quer descobrir, pois gosta demasiadamente da angustia da dúvida. Talvez o que ela tenha amado em mim tenha sido acima de tudo essa angústia demoníaca a cerca de mim e dos meus sentimentos. A verdade é que ela consegue se entregar somente a essa dúvida estúpida! Por que fui gostar justamente de uma mulher apaixonada pela angústia e pela dúvida!? (Pausa) Pensando bem, isso diz muito sobre mim... – Pensava isso e várias outras coisas, logo após ela sair.
- Se me rendesse tudo estaria perdido, e nunca mais seria amada. Nunca poderei me entregar a ele, pois é um homem incapaz de suportar aquilo que se rende. É orgulhoso demais, necessita sempre da luta. - Pensava ela quase no mesmo momento.
- A impossibilidade do encontro, da permanência; o desejo banal, frívolo, voluptuoso pelo novo, pelo diferente: a incapacidade de suportar o tédio... isso tudo está de tal forma arraigado em nós que não se sabe mais como livrar-se desse desejo de devorar. A pusilanimidade, a incapacidade para o amor... é isso que nos persegue. - Pensava ele em voz alta, muito aturdido, sem saber pra onde ir, andando em círculos em sua minúscula sala, tentando entender como tudo aquilo acontece. Falava ainda:
- Não há mais o que fazer, não fomos feitos para isso que se chama permanecer. Mas por que então o desejo? Por que então permanece esse desejo de permanecer? Esse desejo concreto de algo completamente inconcreto, impalpável por essas mãos desejosas da eternidade. Como é difícil suportar o desejo pelo infinito! Mas é necessário, é necessário, tem de ser! Se não... senão... Meu deus, se suportar isso não for necessário, tenho medo, tenho medo do que possa acontecer!
Ele parecia já prever de algum modo o que aconteceria: naquela mesma noite ela escreveu um bilhete e tomou de uma vez só uma forte dose de veneno, que a matou muito rapidamente. Ela contava 36 anos, ele, 44. O bilhete continha as seguintes palavras:

“A mim não é mais possível crer que seja possível qualquer coisa: não posso me entregar a nada, não pertenço a qualquer lugar. Em mim corre apenas uma vontade vociferante por tudo aquilo que não posso ter. Nada mais me prende, nada mais me encanta como antes, pois já sei: o que quero nunca poderá ser – possuído.”

Descobriram logo o corpo, já que ela estava em um hotel. Ela foi encontrada debruçada sobre uma escrivaninha, com o mesmo vestido que trajava na visita da véspera, ao lado de um cinzeiro cheio que prendia o bilhete citado. A letra era de quem escreveu com mãos firmes, o que mostra que ela escrevera o bilhete antes do ocorrido, ou que estava de certo modo calma e, por assim concluir, decidida a respeito do que faria: ambos apontam para o fato de que foi premeditado. 

Como as últimas chamadas de seu celular foram para ele, logo ligaram a fim de investigar e, assim, lhe comunicaram a morte.

Ele desligou o telefone imediatamente. Ficou tão horrorizado que não conseguia parar no mesmo lugar. Não conseguiu sentir nada: nem pena, nem saudade... apenas uma frieza extrema dentro de si, um grande vão. E era isso o que mais lhe aturdia: ele não conseguia nem mesmo ficar triste com a morte dela.

- Como ela não pode compreender, como pode não entender que havia algo que a possuía, e que esse algo era exatamente aquilo que não se deixa possuir! Como pode ela ser ingênua ao ponto de não perceber!? Como pude eu mesmo sê-lo!? (Pausa) Mas, pensando bem, talvez tenha sido exatamente isso, talvez tenha sido o conhecimento desse aspecto de sua alma que a levou a tal solução. Pois ela mesma já não suportava morar sempre dentro de um vazio... ser possuída somente por um grande nada, ter somente um desejo pelo que é grande demais para existir. O que ela não suportava era exatamente não suportar permanecer... Mas por que não suportou? Eu mesmo tenho de suportar isso todos os dias! Por que preferir a morte a suportar? O que a levaria a isso? Qual constituição de sua personalidade ainda não consegui desvendar para conseguir compreender tudo isso!? Uma incapacidade de suportar o abismo, uma franqueza leviana talvez... Mas uma atitude leviana não condiz com o que conheço dela, ela pensaria antes. Isso tudo certamente foi muito bem premeditado, e é possível até mesmo que a visita fosse parte determinante do plano, talvez tenha chegado a pensar: se ele tiver tal atitude, faço, se ele agir de outra tal maneira, permaneço. É possível que ela tenha voltado somente para isso, talvez fosse ainda sua única pendência: eu mesmo, sua última pendência; a única coisa que ainda segurava essa mulher apaixonada pelas pendências! E não conseguiu isso de mim... pois, de fato, eu estou em paz e não propiciaria mais pendência a essa alma inquieta!  

E numa espécie de culpa misturada a um nojo completo por ela e por toda a realidade, sentou na cadeira que ainda estava no meio da sala e ficou olhando para aquele lugar próximo a janela. Afundou seu rosto nas mãos e permaneceu ali por horas, numa espécie de vazio que causava um grande nojo só pensar que ainda permanecia ali, que ainda existia...

Muita coisa ocorreu depois disso, mas não sei narrar, não posso, não consigo terminar, pois, sinceramente, não tenho força para o fim... Desculpem-me.

21 de março de 2011

Uma necessidade

Ele passeia pelo bosque e senta em um banco de baixo de uma grande árvore; é noite. Fuma um cigarro. E ele sente com clareza o que quer, e sabe exatamente o que é, mesmo sem conseguir deter em palavras; mas também sabe exatamente que não pode ter. Sente seus olhos cansados. Mais um pouco de descuido e isso tudo o faria expelir o nó na garganta pelo olhos lacrimejados. Mas eles apenas brilham... brilham como um lago muito produndo e escuro à refletir as luzes incandescentes que se encontram ao longe. E a verdade é que ele sabe, sabe de tudo. Sabe da falta daquilo que nunca poderá ter, e sabe que terá de desejar esse inconcreto para sempre. E num instante agudo ocorre de repente uma grande implosão nele: algo sobe ao céu, e ele não sabe o que nem de onde saiu isso, mas sabe que é nele, que tudo isso explode pra dentro de si mesmo; e tenta esquecer, tenta jogar tudo isso para dentro de um forte trago no cigarro. Há algo como diamante neste rapaz: raro, resistente, quase eterno, que o faz pensar e sentir: "por quê? por que nunca poderei doar? dar isso à alguém?" Ele compreende o porquê, mas é difícil suportar. Porém, ele é um homem e, afinal, tudo sabe suportar. Mas isso de modo algum o faz deixar de sonhar, de nenhum modo o faz querer deixar de desejar que alguém esteja agora em algum banco, a pensar e sentir quase as mesmas coisas, a esperá-lo... É sua única saída.

17 de março de 2011

Homens, mulheres e coragem

O que uma mulher pode amar em um homem tem muito mais a ver com sua coragem do que com sua inteligência: disse um alemão. Mas uma coisa não exclui a outra: um homem corajoso e burro é uma completa aberração; e, se formos pensar de um modo mais correto, talvez o único correto, temos de falar: o que atrai em um homem é sua coragem-inteligente; uma coisa só. Na verdade, gostaria eu de saber desde quando, nessa modernidade louca, separam a inteligência da coragem! Pois, o homem burro não é corajoso, ele poderia ser no máximo um valentão, que mija nas calças na primeira bela rasteira que a vida lhe dá. Esse tipo valentão é uma aberração, mas pode ser até engraçado, e é bom ter com eles às vezes: ele nos fazem rir com sua inocência e crença absurda de que são muito homens... Mas o valentão não é uma aberração ainda maior do que a do homem inteligente e medroso: o homem sem coragem. Até hoje não consigo compreender como esse tipo pode vingar de alguma forma. Um homem inteligente e medroso é como uma bola murcha, uma lâmpada queimada, algo que até tem forma e parece alguma coisa, mas que no fundo é algo que já passou do prazo, que está aí não se sabe nem pra quê. Desse tipo, as mulheres correm léguas de distância, a ponto não quererem deles nem amizade. Mas note bem:  mulheres. E, falem-me a verdade: onde existem hoje em dia  mulheres?...

16 de março de 2011

Desendimento

- Você não entendeu.

- É, acho que não entendi mesmo. Mas se o que eu entendi não foi o que você quis dar a entender, então o que eu desentendi me fez pensar em algo muito importante que valeu muito a pena ter entendido tudo errado.

13 de março de 2011

O possuir mais fundamental

O que me possui é somente aquilo que absolutamente não se deixa possuir.

Fé autêntica

Uma fé autêntica pode ter maior valor do que um conhecimento pretensamente fundamentado desinteressadamente, logicamente. Mas note bem: uma fé ─ autêntica.

12 de março de 2011

O solitário

O reprimido é somente fruto de uma sociedade que não tem força o suficiente para suportar o diferente e o conflito, e que consegue fornecer força somente na união das fraquezas de cada um. Tal sociedade é a união de homens que não conseguem suportar o peso de um pensamento sozinhos, que não conseguem suportar carregar algum sentido em suas solidões e, para tal tarefa de suportar o viver, usam os outros para tentarem se agarrar a qualquer coisa que seja. Esses homens não têm vontade de, a partir de suas solidões, encontrar alguma outra solidão, mas apenas de não ter solidão alguma e sempre depender de outros para conseguirem fortalecer a si mesmos e existirem de algum modo. Foi dessa vontade de se fortalecer a partir da fraqueza de si que surgiu a sociedade como um “Estado”, como algo que deve ser mantido e cultivado através de regras e tentativas diversas, e na maior parte das vezes despóticas, de integração do diferente no igual. E nada disso é errado, errado é o solitário se sentir excluído e se render às regras de integração social. Mas... na verdade, somente os solitários fracos não têm capacidade de suportar viver à margem e, sendo assim, este é somente um pouco melhor do que o homem comum e merece talvez tanto desprezo quanto ele. Grande mesmo é homem que compreende a necessidade de sua solidão e a suporta: a felicidade deste jamais será compreendida pelos outros, pois somente ele conhece a felicidade suprema do suportar um abismo.

10 de março de 2011

A respeito do mais secreto, fundamental e intenso dos sentimentos

Uma dor que tudo perpassa
Um sentimento que nos mostra o fundo
Um amor que nunca se acaba
Algo discreto, pesado e duro
Tal e qual um pedaço de chumbo

Abertura que nunca se fecha
Céu da tarde que nunca se apaga
Campainha dourada que a sala invade
Nuvem imóvel no estar da sacada

Pra quê tanta tristeza, meu deus
Se tudo é tão calmo quando há possibilidades?
Pra quê o carinho trancado no peito
Se tudo descansa nas flores dos vales?

Algo se me apareça, por favor!
Pois já não sei mais do que sou feita
Em que tensão me perdi completamente
E agora me encontro na rua estreita
Que me leva cantando sempre a espera
Da solidão que aos poucos de mim se apodera
Da escuridão que me cresce, cultiva e alimenta
A paixão que a cada vez mais floresce
E torna-se mais e mais... intensa

E que coisa é essa que descabe e explode
Dizendo, claramente, que tudo pode?,
E que, no entanto, só consegue acolher
um vazio...?

E eu que não sei mais parar
Tenho o sem-fundo como meu próprio lar
E vôo nos ventos mais impetuosos
Guardando a vontade de algo
que não sei nem quem o que é...

Meu deus... quando vou conseguir manter?
Quando vou conseguir me deter em qualquer coisa
que eu possa chamar de casa?
Quando, meu deus, vou poder pertencer
a algo que me pertença sem que eu precise
fugir?...