27 de setembro de 2010

O inefável

Desculpem-me
mas hoje
sinto algo
que foge das palavras...

26 de setembro de 2010

O inexistente necessário

É madrugada. Ele está deitado. Ela dorme profundamente em seus braços. Ele está bem acordado, olhando inadvertidamente o teto e sentindo aquele corpo, aquele carinho extremo por ela. Uma vontade de cuidar, de protegê-la quase o sufoca. Seu olhar passeia pelas paredes e repousa no corpo dela. O desejo se intensifica. A vontade de levá-la embora, para longe, para algum lugar extraordinário, para algum lugar que mereça todo aquele sentimento. Ele a abraça forte e ela acorda. Sonolenta, ela vê embaçado, através dos olhos entreabertos, que ele está a olhar seu próprio sentimento na parede. Ela compreende. Lentamente, beija-lhe o rosto... Ele, no prazer da certeza de possuí-la completamente, olha para ela através da explosão que ocorre em seu coração. Daquele instante mágico e silencioso surge um beijo, que escorre denso pelos lençois, sujando-os de suor e medo. O toque, a textura, o cheiro, o gosto, o calor na pele e o frio no estômago. Ele a ama.

24 de setembro de 2010

O aterrorizante necessário inconcreto

Ter que permanecer com essa vontade direcionada para um vazio, para a possibilidade de uma existência que não se concretiza, que ainda não se efetivou, mas que vigora latente e intensa como algo que deve de ser, que tem a obrigação de vir a ser. Ter que suportar a necessidade extrema de algo que é existente só como possibilidade, e que se mostra como a única opção, mesmo estando totalmente longe de ser "de fato": o caminho único rumo ao inexistente, longínquo e plenamente necessário. É aterrorizante!

O possuir

Possuo as coisas somente não as possuindo.

20 de setembro de 2010

Sei a verdade

Estou deitada. As imagens tentam me jogar para fora da cama. Não quero me levantar, mas as imagens de uma praia insistem em me lançar para além de onde estou. Essa imagem é uma luta contra a minha desesperança. Nesse desespero, ponho-me a sentir com atenção minha dor. O desanimo me segura na cama, mas meu restolho de esperança, mesmo pequeno, de tão forte me arrasta com pés pesados para a praia. Estou triste, e isso tem a ver com a felicidade. Deito na areia, sinto pena de quem não sabe suportar a dor, e se esconde dela, sem sentir como ela é amável e amiga. Minha dor aumenta com esse pensamento. Recomponho-me. Deitada permaneço, sinto o sol, sei a verdade: sou feliz.

Deus está no instante

A natureza existe em mim de um mesmo modo frágil e corajosa; paradoxo sou eu, e não me entendo. Corro livre na beira do abismo: este é o meu modo de enfrentar a fragilidade; dôo-me ao medo, resistindo, e retorno rejuvenescida. A dor de agora é a ponte para o amanhã, pois ela é a mudança e o impulso para o novo e para a superação; ela permite o vindouro, pois, “o futuro nunca vem quando o passado é sempre o mesmo”. Por isso sou grata à dor, e gosto dela mesmo não gostando de estar com ela. Que sou eu sem a dor? Pois, sou o que tenho, mas igualmente sou eu a dor pulsante do desejo pelo que não tenho e quero ter. Sou tudo o que me torna intensa, inteira e única. Tenho lágrima nos olhos agora... necessito de um abraço... por favor, um abraço... O homem não tem medo da efemeridade, ele tem medo é da eternidade, pois esta jaz em cada momento milagroso de intensidade e inteireza, momentos esses que são, ao mesmo tempo, extremamente necessários e totalmente voláteis, fugazes, incompreensíveis, inseguros, arredios: o homem tem medo desses momentos, pois sabe do perigo e da dificuldade de estar neles e de, depois, estar sem eles. Ponho-me à beira do abismo, abro os braços e sinto: não sei viver só, e isso é ─ completo! Derramo-me na realidade, entrego-me totalmente a esse esplendor que é viver, mas, no instante seguinte, retorno ao horror e ao medo. Deus está no instante em que me elevo!

Pequeno conto para um desejo

É noite. O ar é pesado para ele; olha para os lados como se todos o vigiassem. Seu corpo magro não cabe na cadeira. Sorri forçosamente algumas vezes com seus amigos na mesa do bar. Olha para mim inadvertidamente, parece gostar de mim, mas não quer olhar. Olha novamente, uma, duas, várias vezes. Um cigarro lentamente salta até suas mãos e entra em chama derramando-se em sua boca latente. As mãos repousadas na cadeira aguardam, sem saber, minha pele. A fumaça pinta o ar ao seu redor e ele se entrega. Qual será o seu nome? Ainda não há desejo, este momento é só a origem do nascimento do desejo que se concretizará somente quando eu chegar em casa e me lembrar dos olhares, e sentir que seu corpo me aguarda. Um completo silêncio se faz naquela imagem, e eu vejo somente a longa demora do seu rosto no instante inocente e infantil da origem de meu desejo. Que instante demorado é o seu rosto... não consigo apreendê-lo: o seu rosto é um instante incompreensível. Tenho certeza de que quando me for, não mais me lembrarei deste rosto. É um rosto inapreensível, os traços fugidios são esquecidos no mesmo momento em que os decoro: quando os tenho já os sinto perdê-los. Qual será o seu nome?


Ele se levanta, vem até mim, pega em meu braço e me diz para caminharmos. Ele nada fala, apenas caminha para longe.

- Por que estava olhando para mim?
- Porque gostei de você.
- Por quê?
- Por que... você não se parece com nada que eu já tenha visto.

Ele segura forte em meu braço e me diz:

- Você é só mais uma.
- Como? - Pergunto assutada.
- Só mais uma, como todas as outras!
- Sim, desculpe. - Digo de cabeça baixa, começo a chorar. - Ele se assusta.
- Por que está chorando?
- Porque sou apenas mais uma, como todas as outras.
- E não queria ser?
- Não.
- Por quê?
- Porque tenho força de mais para suportar ser.
- Por que está tentando fazer tudo diferente do que qualquer uma faria? Apenas para não parecer comum?
- Não sei... talvez.

Ele ainda segura firme em meu braço.

- Está fingindo?
- Talvez todos finjamos... mas minha dor é real.
- Está fingindo por quê?
- Não sei se estou fingindo.
- É porquê finge tanto que já não sabe mais quando finge, já não sabe mais não fingir.
- Sim, provavelmente...
- A dor real é pelo que?
- Talvez por você achar que sou comum.
- E você não é?
- Sim, mas, pra você, gostaria de não ser comum.

Ele pára um instante, os olhos em brasa, descontrolados, tentando me observar no turbilhão daquele instante. Sente o medo e seu passado determinante que o fez tão bruto e arredio. Pára, sente toda aquela força, arranca tudo de uma vez só me puxando a favor de si e me abraçando ternamente. Choro muito.

- Você não é igual? - Ele pergunta.
- Não.
- E agora?
- Terá de suportar.

O abraço permanece, nos invade. Invade meu rosto encaixado perfeitamente em seu peito, invade suas mãos: uma segurando meus cabelos com os dedos neles entrelaçados, e a outra descansando plenamente sobre minhas costas. O corpo muito junto, completamente junto, estamos entregues... Inevitavelmente ocorre o beijo. A boca molhada, o encaixe perfeito, o frio no estômago e perto do coração... Ambos nos libertamos, ambos sabemos da dor que virá, e da grande dificuldade, mas ao menos agora somos permitidos viver algo que nunca nos ocorreu: somos permitidos amar...

Estou ainda na mesa do bar vendo seu rosto demorar. Um amigo me chama. A conta está paga. Levanto-me, passo por ele sem olhá-lo, sentindo fortemente sua presença. Vou embora.

18 de setembro de 2010

O futuro

O futuro não é algo que se possa dominar, que é possível fazer acontecer exatamente de acordo com nossas vontades; ele não consegue se sustentar apenas como conseqüência de um plano, ou uma meta a ser atingida. O futuro é o baú que guarda os mistérios mais secretos, ele é a magia do indeterminado que fornece forma, esperança e desejo ao presente. Ele é o inexistente mais necessário, a possibilidade do nascimento de todas as possibilidades, da criação e do novo; ele é o suporte da possibilidade do contínuo. Nele está guardado o inesperado e o perigo, o acaso a ser recolhido com pudor e mistério. É preciso ter cuidado e pudor para com o futuro, caso contrário a esperança e os desejos nos abandonam e, assim, nos tornamos tristes e sem força, sem futuro mesmo. É preciso desejar o futuro como uma criança deseja um arco-íris: desejá-lo como algo puro, belo, longínquo, extremamente querido, guardador dos segredos, magias e fantasias mais extraordinários; desejá-lo como algo que deve se manter sempre distante, que deve ser sempre uma imagem intocável; desejá-lo como o desejo do impossível que aparece lindamente no céu veronesco a embelezar o dia com seu poder hipnótico de cores e sonhos. Possuo o futuro apenas não o possuindo, e sua beleza está em sua inapreensibilidade, incerteza, inesperado e mistério. Sinto agora sua força em mim, e, mesmo estando extremamente desiludida e triste, sei que com ele o inesperado ainda me persegue, que ainda não sei de tudo e, por isso, ainda é possível viver.

Lembranças

As luzinhas do pisca-pisca coloriam o ar, a casa, a vida. E eu estava naquele sofá velho, o chão de madeira encerada refletia todas aquelas cores. Por que toda essa intensidade? Por que essa força poderosa vinda de dentro de mim? Uma força aguda, quase dor, e com intensidade e beleza tão... absurdas, que... não sei. Uma força quase dor... Talvez uma força-dor, uma força-dor pela beleza e simplicidade demasiado complexa da vida, pela simplicidade complexa do sentir. O pisca-pisca pisca e colore, colore minha respiração, sinto-o colorindo minha pele, tocando meu corpo e me enfeitiçando. Toda essa força é pelas cores, pelo chão encerado, pela árvore de natal, pelo sofá velho? É pelo que essa força? Que força é essa, vinda do coração, bem no coração? partindo dele, nele e para além dele? Por que possuo esse momento hoje mais do que naquele dia? Por que possuo essas luzinhas hoje mais do que quando eu estava realmente a vê-las do sofá velho em cima do chão encerado?  Por que sinto o passado com mais intensidade quando ele se torna uma lembrança? É lindo possuir esse momento quase inexistente, a coisa impregnante e volátil que é essa lembrança: senti-la com todo esse vigor e beleza; mas o que é isso? Que coisa é essa de sentir um momento com mais vigor quando ele já não é mais? Como pode um momento vigorar mais quando ele já não é? Não sei... Só sei que é lindo. Paro agora, lembro, sinto, o mundo me toma com essa lembrança, sou livre...

O segredo

Hoje o vento me contou um segredo
Dentro do silêncio de seu toque.
Ele me falou sobre a força, o amor e a vida
E eu o escutei como quem escuta uma canção mágica
Como quem escuta algo absurdamente poderoso
Os segredos mais secretos da terra.
Hoj
e o vento me mostrou um segredo incompreensível
Que terei de guardá-lo eternamente
Só para mim
Pois ele é ─ inefável...