20 de setembro de 2010

Pequeno conto para um desejo

É noite. O ar é pesado para ele; olha para os lados como se todos o vigiassem. Seu corpo magro não cabe na cadeira. Sorri forçosamente algumas vezes com seus amigos na mesa do bar. Olha para mim inadvertidamente, parece gostar de mim, mas não quer olhar. Olha novamente, uma, duas, várias vezes. Um cigarro lentamente salta até suas mãos e entra em chama derramando-se em sua boca latente. As mãos repousadas na cadeira aguardam, sem saber, minha pele. A fumaça pinta o ar ao seu redor e ele se entrega. Qual será o seu nome? Ainda não há desejo, este momento é só a origem do nascimento do desejo que se concretizará somente quando eu chegar em casa e me lembrar dos olhares, e sentir que seu corpo me aguarda. Um completo silêncio se faz naquela imagem, e eu vejo somente a longa demora do seu rosto no instante inocente e infantil da origem de meu desejo. Que instante demorado é o seu rosto... não consigo apreendê-lo: o seu rosto é um instante incompreensível. Tenho certeza de que quando me for, não mais me lembrarei deste rosto. É um rosto inapreensível, os traços fugidios são esquecidos no mesmo momento em que os decoro: quando os tenho já os sinto perdê-los. Qual será o seu nome?


Ele se levanta, vem até mim, pega em meu braço e me diz para caminharmos. Ele nada fala, apenas caminha para longe.

- Por que estava olhando para mim?
- Porque gostei de você.
- Por quê?
- Por que... você não se parece com nada que eu já tenha visto.

Ele segura forte em meu braço e me diz:

- Você é só mais uma.
- Como? - Pergunto assutada.
- Só mais uma, como todas as outras!
- Sim, desculpe. - Digo de cabeça baixa, começo a chorar. - Ele se assusta.
- Por que está chorando?
- Porque sou apenas mais uma, como todas as outras.
- E não queria ser?
- Não.
- Por quê?
- Porque tenho força de mais para suportar ser.
- Por que está tentando fazer tudo diferente do que qualquer uma faria? Apenas para não parecer comum?
- Não sei... talvez.

Ele ainda segura firme em meu braço.

- Está fingindo?
- Talvez todos finjamos... mas minha dor é real.
- Está fingindo por quê?
- Não sei se estou fingindo.
- É porquê finge tanto que já não sabe mais quando finge, já não sabe mais não fingir.
- Sim, provavelmente...
- A dor real é pelo que?
- Talvez por você achar que sou comum.
- E você não é?
- Sim, mas, pra você, gostaria de não ser comum.

Ele pára um instante, os olhos em brasa, descontrolados, tentando me observar no turbilhão daquele instante. Sente o medo e seu passado determinante que o fez tão bruto e arredio. Pára, sente toda aquela força, arranca tudo de uma vez só me puxando a favor de si e me abraçando ternamente. Choro muito.

- Você não é igual? - Ele pergunta.
- Não.
- E agora?
- Terá de suportar.

O abraço permanece, nos invade. Invade meu rosto encaixado perfeitamente em seu peito, invade suas mãos: uma segurando meus cabelos com os dedos neles entrelaçados, e a outra descansando plenamente sobre minhas costas. O corpo muito junto, completamente junto, estamos entregues... Inevitavelmente ocorre o beijo. A boca molhada, o encaixe perfeito, o frio no estômago e perto do coração... Ambos nos libertamos, ambos sabemos da dor que virá, e da grande dificuldade, mas ao menos agora somos permitidos viver algo que nunca nos ocorreu: somos permitidos amar...

Estou ainda na mesa do bar vendo seu rosto demorar. Um amigo me chama. A conta está paga. Levanto-me, passo por ele sem olhá-lo, sentindo fortemente sua presença. Vou embora.