Talvez exista um tipo de metafísico que pouco se importa com o que lhe convém. Ele não está muito aí para a superação ou para o "não ser metafísico". Talvez seja aquele que tem a vontade de verdade e o esquecimento do "ser" como sua morada, e neles mora como um andarilho que, apenas de vez em quando possui uma casa e, por isso mesmo, tem amor por ela como aquele que mais sabe a respeito da perda daquilo que lhe é mais precioso. Desse modo, ele consegue aproveitar o durante das coisas antes do fim e da partida. Bem resolvido com suas desilusões e sonhos inconcretizados, é o metafísico que assumiu sua fragilidade e inutilidade, assumiu seu idealismo e platonismo como sua mais real ilusão: o que aceitou a simplicidade e insignificância da vida sem colocar alguma importância muito grande nessa descoberta, ou em qualquer outra coisa. É aquele que sabe da morte sem criar engodos ou anestésicos, e que vê na sua finitude, e na finitude de tudo mais, seu deleite e seu gosto! É o homem do eterno retorno que não necessitou se tornar um frustrado solitário para se aceitar, e que soube assumir toda sua insignificância e desimportância no seu dizer "assim eu quis, quero e hei de querer"; é também aquele que mora no "ser" sabendo que nele não há primazia alguma além daquela do filósofo que assim concebe apenas pelo eterno prazer do durante e da angústia!
26 de julho de 2011
Esquecimento, indiferença e fragilidade
O "ser" foi esquecido, e isso não importa. Eu mesma fui esquecida, e isso, claro, importa menos ainda. Como diria um tal Kirilov: "isso me é indiferente". O esquecimento acontece de modo necessário, tal como diria o velho jovem Nietzsche, assim como a indiferença, tal concordaria nosso mais são suicida. Talvez nós, filósofos poetas, pessoas normais, sem Deus sem serem ateias, tenhamos de aprender a suportar o esquecimento e indiferença daquilo que mais lembramos e diferenciamos. Talvez nossa maior força esteja na assunção da fragilidade, indiferença e esquecimento de tudo que mais prezamos. Se Heidegger diria que o suporte é a diferença, digo agora que o suporte é a indiferença; e se Nietzsche diria que a pulsão principal é a busca por poder, digo que até agora a pulsão principal foi a fuga da simplicidade e insignificância da vida. Mas teríamos de continuar lidando assim? morando sempre nesta fuga? Seria esse o melhor modo de lidar com a morte de Deus? (Morte de Deus lê-se: fim de um grande sentido para as ações, início do fim do idealismo, início do fim do platonismo). Mas não seriam essas falas e perguntas elas mesmas um grande niilismo e, portanto, uma negação idealista do platonismo? uma negação platônica do platonismo? Talvez nunca possamos estar certos de quão niilistas somos nós, e talvez o modo de lida daquele que nunca sabe ao certo, seja o mais cabal dos niilismos, e talvez o mais cabal dos niilismos seja a única forma de suportar a falta completa de grande sentido e de, assim, conseguir estar pela primeira vez onde estamos. Ultimamente tenho morado em uma vontade de verdade niilista e ciente de sua fragilidade e ilusão, uma vontade de verdade que quer criar não para poder criar, mas que cria sem querer: cria apenas estando no mundo... Meu idealismo niilista agora é suportar a simplicidade e insignificância de tudo, e morar dentro de uma casa na qual se suporta cada imperfeição, cada rachadura na parede, cada enfeite ridículo; cada coisa. Começo a morar numa casa que há muito para mim fora construída, mas que nunca me permiti habitar: numa absoluta incompreensão de tudo, num idealismo realista; num entre! num durante sem método e com as regras mais absurdas já experimentadas; numa bagunça completa, onde não se gosta de quase nada, mas aceita-se quase tudo, e isso sendo: nem um homem de ação, nem um camundongo de consciência hipertrofiada; nem um conservador nem um revolucionário; mas uma pessoa. E nisso tudo uma solidão; uma solidão... que nem posso falar sobre, pois a reduziria a algo que alguém conhece, quando isso é indiferente, quando eu mesma escrevendo essas letras inúteis é completamente indiferente ao que quer que seja. Depois de 6 anos que a li, começo a compreender "a náusea" de Sartre.
20 de julho de 2011
A eterna companheira
A noite ascende luzes neons incandescentes fosforescentes que abrem ruas silenciosas no durante das casas fechadas. Estrada de chumbo a-pesar nas costas junto aos pés atentos. Pés estrada calçadas postes passo passa tudo. Ela não, ela não passa. Ele caminha, pensa pensa pensa não consegue saber motivo. Nem consegue chegar perto de saber. Mas sabe que é assim, que é a mulher que não existe a única capaz de roubar-lhe desejos no meio da noite e arrancar-lhe da cama noctívago. A única que ele gostaria de ter consigo; ao menos às vezes: conversa no parque, ver o teto juntos. De repente sente que está naquela coisa estranha que se está quando muito triste: coração descabido, aperto da garganta. Sabe, ela existe, está por aí, mas sabe também, será quase impossível encontrá-la. Entende-se mais ou menos bem com isso. Sente-se livre; livre de mais. Num bater de asas a tristeza se vai e toma conta dele a calma, calma compassada, contida de sua turbulência e encanto. Passa passo não sabe rumo. Seus olhos entranhados nas coisas que retornam para ele com um hálito fresco e seco de um vento frio e pesaroso do inverno recém chegado. Passo passa não sabe onde. Está sempre com ela, mas ela nunca está; é sempre um vão, o abismo impreenchível do sonho que inevitavelmente se dá. Ele retorna para casa, toma um banho bastante quente e chora como uma criança; e como se envergonha disso. Dentro do desejo de um abraço dorme um sono profundo. Sonha que ela se aconchega no seu ombro enquanto ele lhe conta uma história qualquer: ela ouve como se fosse a coisa mais importante do mundo. Esse sonho simples mostra o que ele tem de mais inteiro, conciso e autêntico e, mesmo assim, algo tão idiota, tão comum e banal... Acorda e fica quase uma hora inteira deitado no escuro se lembrando do sonho e sentindo como lhe faz bem. Dia claro. Levanta café roupas trabalho. Ela permanece em cada passo ato gesto, mas ele não está, não existe, é somente um grande vão: a falta constante daquilo que o pertence sem ele possuir. Ele sente o vão, aprendeu a estar nele. Passos vagarosos. Chega. Os alunos estão silenciosos, calmos como não é costume. Ela se vai, fica ao seu aguardo: espera-lhe na cama, bem vestida perfumada, a dona da casa; sua amante, sempre pendente, presença faltante; sua incontornável constante e iminente desilusão... sua amada, sua amiga, sua eterna companheira: – solidão.
11 de julho de 2011
A janela mostra coisas importantes
"O que me possui é somente aquilo que absolutamente não se deixa possuir." Veja bem: só porque poucas coisas nos possuem, tentamos determinar o fundamento delas, pra tentar nos sentir seguros, crendo que sabemos de alguma coisa sobre aquilo que nos possui. Mas a verdade é que nada sabemos sobre isso, e nem devemos na verdade, pois, são elementos de mais, e mesmo que conseguíssemos fazer uma análise suficiente a respeito disso, ela seria sempre provisória, pois outros elementos, novos elementos apareceriam no durante mesmo da análise. Tem que ser assim: "não se pode determinar o que nos possui, porque muitas coisas constam em algo que consegue nos possuir, e muitas coisas novas aparecem, de modo que é impossível determinar uma característica apenas como a principal e determinante." Dever ser assim com tudo, na verdade. Porém, aquilo que nos possui assusta, nos deixa inseguros de mais para conseguir suportar não saber o que existe ali e que nos faz sentir tão juntos a tal coisa. Mas temos que suportar. Senão ficamos nessa determinação só pra fugir da nossa insegurança, e assim perdemos muito tempo com teorizações inúteis, em vez de fazermos coisas mais importantes, como tirar aquela música no violão, ou ler outro livro daquele poeta, ou escrever a poesia para aquele sentimento, eu passear pelo parque, ou... qualquer coisa que seja no nosso gosto (pra não dizer agrado e ser mais formal e kantiano). Mas teorizar não é ruim (porque sempre tem gente que leva por esse viés e interpreta esse tipo de sentimento anti-teoricista como uma espécie de irracionalismo); então, teorizar é bom (no sentido moral mesmo, de levar à excelência) só que o mais legal é o seguinte: é sempre provisório, teorizar é sempre andar na corda bamba, é um eterno treinamento; nunca cessa, nunca tem fim, nunca permite a perfeição; a não ser a perfeição do ato, a do per-fazer completamente alguma coisa no enquanto daquilo que se faz; essa perfeição sim, essa, toda ação a qual nos integramos completamente permite.
4 de julho de 2011
Tempos do durante
Que tempo não é verbal? Será mesmo que existem tempos que não sejam - verbais? "Tempo verbal" não seria, pois, um pleonasmo? Depende pelo que se entende por verbal. Acho eu que há tempos bastante estranhos, que seria difícil encontrar um nome para eles. Sendo assim, se verbal nesse caso se referir ao tempo que se mostra na declinação conjugal já pré-estabelecida de uma palavra, então acho que existem sim tempos que não são verbais. Tempos que só conseguem se mostrar no vento impetuoso, no olhar pela janela, no passeio pelo parque... Tempos que juntam todo passado e futuro amarrados num durante calmo de seu caminhar, mas turbulento de sua incessante e incansável projeção. Tempos do além concretizante e do concreto transcendente; tempos da felicidade concretizada, mas também das agonias dos desejos irrealizados. Tempos estranhos, que misturam um passado que já se foi, com um que não foi mas poderia ter sido, mais um presente que lembra, com outro que deseja e projeta, e mais outro que permanece. Tempos da concórdia e da discórdia ao mesmo tempo, tempos, talvez, do durante...
1 de julho de 2011
Aos anti-metafísicos
Acho, sinceramente, que todo esse alarme contra a metafísica, toda essa tentativa de se colocar em uma perspectiva que não seja metafísica, que esteja sempre ciente de sua finitude, contingência e indiferença, é talvez por medo do poder que há em uma posição que se assume como "verdadeira". Talvez os anti-metafísicos tenham medo do poder que uma posição metafísica pode possuir: tenta-se tirar tal poder mediante a crítica desse tipo de posição que se pretende infinita, mas isso colocando o poder na mão deles mesmo, que tentam exercer poder mediante a crítica da metafísica, ou seja, mediante a própria metafísica, e isso sempre dizendo que isso não é metafísica. Pra mim isso é como falar mal do patrão pelas costas e depois ir lá lamber seus sapatos na hora do aumento; ou como reclamar da instituição em que se estuda ou trabalha enquanto se é o pior aluno ou o pior funcionário. Enfim, o que quero dizer é mais ou menos o seguinte: se a filosofia tem algum poder, é na crença de que ela pode superar, quer dizer, é na "crença" de que ela pode traçar algo infinito que esse poder consegue se sustentar. Se a filosofia virar uma espécie de literatura, de entretenimento pessoal que nunca pretende superar, ela perde poder social, e eu não posso considerar isso bom, pois, mesmo nazista, é Heidegger hoje quem mais nos atenta para os desastres da técnica, é hoje Nietzsche quem mais fala das desgraças do último homem, e isso significa: são eles que mantém nossa sociedade ciente de que não é tão fácil assim estar com a verdade. E não venham me falar que o perspectivismo de Nietzsche não influenciou algum destino, não pegou as rédeas depois que toda a Europa leu seus livros, pois eu sinceramente não acredito. Dá pra ver que essa onda esteticista que hoje assola o próprio Brasil, de alguma forma veio também da popularização de Nietzsche feita por alguns. Acho que é necessário aos filósofos terem algum tipo de poder na sociedade, nem que seja o poder de sempre mostrar a contingência do que se mostra como necessário e, com isso, apontar: há outra saída. Mas para isso é necessário que eles se achem possuidores de alguma espécie de verdade, nem que seja uma verdade tão peculiar como a de Heidegger: seu desvelamento. Mas posso estar bastante errada, entretanto assim agora se me aparece o que devo fazer com essa bagunça toda que esses anti-metafísicos arrumaram, bagunça essa que muito gosto, e que muito me diverte, claro, afinal, sem isso o que seria da metafísica? Talvez outro tipo de religião. No fundo, para bem pensar, tem-se de ser um pouco esse tipo anti-metafísico de vez enquando, entrar em crises profundas com a filosofia e considerá-la somente um grande erro teórico, para depois retornar rejuvenescido para esse tipo de conhecimento que, talvez, seja o mais estranho que a humanidade já experimentou. O grande problema que vejo é o de querer assumir uma posição rígida perante a metafísica, a saber, uma posição anti-metafísica, e falar como se a própria metafísica pudesse morrer e, além disso tudo, achar que se faz algum tipo de pensamento mais rigoroso, mais correto, mais justo talvez, que consiga se livrar da metafísica eximindo-lhe sua pretensão pública e política, algo que acho deveras absurdo. Vejo quase claramente que pedir pra um filósofo fazer filosofia como quem escreve um romance, é mandá-lo fazer literatura e matar a própria filosofia. Sinceramente, se pedissem isso pra mim eu mandaria cuidar de sua própria vida, pois se quisesse fazer literatura já o estaria fazendo; fico na filosofia porque gosto mais dela do que qualquer outro âmbito com o qual já lidei. E outra, sinto que há na filosofia uma pretensão política que talvez ela não possa se livrar, mas isso é especulação, assim como a seguinte frase: a verdade é que acho que os anti-metafísicos são tão metafísicos quanto todos os mais metafísicos, pois a metafísica parece algo constitutivo, que quanto mais se nega, mais se afirma. Finalizando, sinto algo estranho nesse tipo de discurso anti-metafísico, que aqui só atentei para tal, pois vejo como algo importante a ser investigado a fundo.