20 de julho de 2011

A eterna companheira

A noite ascende luzes neons incandescentes fosforescentes que abrem ruas silenciosas no durante das casas fechadas. Estrada de chumbo a-pesar nas costas junto aos pés atentos. Pés estrada calçadas postes passo passa tudo. Ela não, ela não passa. Ele caminha, pensa pensa pensa não consegue saber motivo. Nem consegue chegar perto de saber. Mas sabe que é assim, que é a mulher que não existe a única capaz de roubar-lhe desejos no meio da noite e arrancar-lhe da cama noctívago. A única que ele gostaria de ter consigo; ao menos às vezes: conversa no parque, ver o teto juntos. De repente sente que está naquela coisa estranha que se está quando muito triste: coração descabido, aperto da garganta. Sabe, ela existe, está por aí, mas sabe também, será quase impossível encontrá-la. Entende-se mais ou menos bem com isso. Sente-se livre; livre de mais. Num bater de asas a tristeza se vai e toma conta dele a calma, calma compassada, contida de sua turbulência e encanto. Passa passo não sabe rumo. Seus olhos entranhados nas coisas que retornam para ele com um hálito fresco e seco de um vento frio e pesaroso do inverno recém chegado. Passo passa não sabe onde. Está sempre com ela, mas ela nunca está; é sempre um vão, o abismo impreenchível do sonho que inevitavelmente se dá. Ele retorna para casa, toma um banho bastante quente e chora como uma criança; e como se envergonha disso. Dentro do desejo de um abraço dorme um sono profundo. Sonha que ela se aconchega no seu ombro enquanto ele lhe conta uma história qualquer: ela ouve como se fosse a coisa mais importante do mundo. Esse sonho simples mostra o que ele tem de mais inteiro, conciso e autêntico e, mesmo assim, algo tão idiota, tão comum e banal... Acorda e fica quase uma hora inteira deitado no escuro se lembrando do sonho e sentindo como lhe faz bem. Dia claro. Levanta café roupas trabalho. Ela permanece em cada passo ato gesto, mas ele não está, não existe, é somente um grande vão: a falta constante daquilo que o pertence sem ele possuir. Ele sente o vão, aprendeu a estar nele. Passos vagarosos. Chega. Os alunos estão silenciosos, calmos como não é costume. Ela se vai, fica ao seu aguardo: espera-lhe na cama, bem vestida perfumada, a dona da casa; sua amante, sempre pendente, presença faltante; sua incontornável constante e iminente desilusão... sua amada, sua amiga, sua eterna companheira: – solidão.