29 de junho de 2011

Prefácio ao livro de meu pai

É um livro noturno, dá pra sentir; iluminado vezes pelo luar, vezes pela penumbra de um cômodo qualquer, vezes pelas luzes incandescente-amareladas nas ruas das madrugadas. Um livro que anda pela noite e observa não somente as ruas, mas também quartos fechados. Há nele resquícios de um romantismo da segunda geração, um pessimismo sonhador, sombrio e apaixonado. Parece tentar apreender um clima e sensação de uma boemia bastante peculiar, muito sonhadora, e um tanto nostálgica... Aparenta um apelo tardio por uma juventude que escapou por entre os dedos, junto de uma tentativa de assunção de toda feiura que se dá quando envelhecemos. Porém, essa assunção parece ocorrer mediante uma revolta, uma assunção via um pessimismo às vezes corrosivo, mas que sempre no final aponta para uma felicidade entristecida: sonhos de infância no jardim talvez, certamente uma inocência perdida, e que faz falta... Dá a sensação de um envelhecer que não consegue se assumir, mas que percebendo isso, em vez de assumir que não consegue assumir, tenta infligir uma aceitação da velhice a partir do dever de estar velho, o dever de ser carrancudo e desiludido. Fala do tempo que passa e que não se deixa represar, e da desilusão abismal que vem com toda experiência do existir. Parece a visão amarga de alguém muito doce, que não pôde aceitar sua doçura na vida contemporânea dos valores perdidos e da incoerência generalizada e, sendo assim, sentiu-se obrigado a se tornar amargo. São palavras solitárias, que navegam num rio à contra mão, que lutam contra a morte sem querer assumir que o fazem. Por isso, mora aí, por traz de todo pessimismo, um esplendor e felicidade pelo viver. O livro guarda em si o peso de uma leveza que deveria ser assumida, mas que não pode sê-la. Sinto que guarda sempre uma impossibilidade de algo importante e desejado; talvez a nostalgia de amor e coragem juvenis, a vontade descabida, talvez, de um conto de fadas... Talvez guarde também algum quixotismo das idéias, alguma loucura que cria moinhos que não podem deixar de ser reais. Acho que mora no livro também uma incapacidade de aceitação da finitude das coisas belas da vida: a finitude da intensidade da juventude; enfim, algo que um dia todos nós teremos de enfrentar. A resposta a essa finitude é uma revolta agridoce, que não se contenta em se contentar com a vida ser só isso mesmo... Há, pois, algo de heróico também. Sinto além disso, uma vontade de comunhão impossível, de escapar de uma solidão que não há saída, junto do desejo latejante e incontornável por uma paz que se sabe que não virá. Mas isso são somente acenos, apontamentos para aquilo que o livro traz em si. Não tenho muito a dizer além do seguinte: mora aí um carinho extremo pela existência, um amor grande, mas estranho e bastante peculiar por tudo que vive; algo que merece a atenção e o carinho daquele que lê. Lembra-me às vezes a imagem de um vinho muito caro e antigo que foi deixado em uma adega por um enólogo que já morreu, e que agora permanece esquecido por aqueles que não entendem muito de vinho. Lembra-me às vezes, numa versão mais feminina, um brinco belíssimo que perdeu seu par, e que agora serve só no porta-jóias... Alguma beleza triste e sem fim, que se tem de guardar sem poder dividir... Mas estou falando de mais, um livro tem de falar por si; talvez este livro seja, mais do que tudo: 
“Uma flor ao revés 
Na primeira primavera”...

24 de junho de 2011

A confusão dos tempos verbais

Caminho à beira-mar, vento forte. Era de tarde, brilhava um crepúsculo maduro. Algo me escapava das mãos, que vazia estavam: trilhas no meio do mato talvez, conversas num banco de praça, abraços vazios guardados timidamente nos lençóis desarrumados. Não sei. A areia macia construiu uma casa à beira-mar, olhei para ela, está ao longe. Você estaria em uma ducha no quintal a se molhar e olhar para o mar. A ducha arrancaria algo de você, não sei o que era. Lavaria algum tipo de violência talvez que tornara-te agressividade calma e permanente, força compassada e estável, que permanecia... Olhava-te pela janela. Estava feliz. Havia um brilho sorridente e calmo em mim. Meus olhos se encheriam, vendo, pois, você embaçado através da felicidade que os preencheu. A areia em meus pés me mostra, finalmente, meus pés. Olho para frente, o grande mar impetuoso. Percebi que abandonara a casa, a ducha e a lágrima que caia. Engulo o nó bem amarrado da garganta. Ele bate no estômago como gelo e diz para mim: solitária serás, sempre foras... Diz ainda: a casa não existiu, não existia, não existe e não existirá, no máximo ela existiria, mas agora, nem isso mais... Levanto bem de vagar, já era noite. Choro de felicidade por existir, por caminhar sem propósitos pela praia, por não saber se tinha ou não uma casa para abandonar...

Uma homenagem

A todo o momento estás aqui, não é mesmo? E que fazer de ti? Que fazer com o vazio impreenchível que tu és? Que fazer da vontade de libertar-me de ti em conjunto da vontade de tê-lo para sempre comigo? És o companheiro mais antigo, mais amigo, e mesmo assim, não te bastas. E quantas tentativas frustradas de personalização de ti ainda terei de me reaver? Muitas, não é mesmo? Eu sei, muitas... E porque sempre a me seguir, porque sempre és só tu? Gosto de ti, mas não só de ti. Essa é a verdade... Vais-te um pouco, deixa alguém entrar, pois esse corpo já não agüenta. Os dias coloridos querem o colorir dos olhos de um outro alguém, para olhar junto também, para fazer conjunto, compartilhar isso tudo. Pois contigo é só o grande vazio junto da grande solidão, porque tu me persegues em todos os lugares e nunca me deixa amar nada que não esteja a tua altura. Que faço eu contigo, grande nada possibilitador de tudo que amo, grande liberdade por mim incompreendida? Ideal infantil e necessário que me mantém na solidão. Seria tudo um grande erro? um enorme equívoco teórico? Talvez... Mas que fazer então? Que fazer contigo? que fazer de ti, grande carinho, tender eterno, inocente e desavisado: amor – pela sabedoria...?

O esquecimento do ser

Um dia quem sabe consiga eu substituir tudo aquilo que exige este verbo: ser; substitui-lo talvez por outras palavras que a ele mais ou menos equivalham. Desse modo possa eu talvez me lembrar de seu estranho poder e consiga, ao menos ao longe, vislumbrar sua colossal força e beleza. Numa missão solitária talvez, mas não de quem rema contra a correnteza, mas de quem vai por outros rios...

15 de junho de 2011

Sobre o processo de leitura e pensamento

- A minha leitura e o que penso, num diálogo com o autor, é mais do que uma mera leitura do que ali consta. Esse último tipo é uma leitura-julgamento, que diminui o autor que ali não está pra se defender e dar outra interpretação. Assim se engradece o leitor facilmente, que fica de bem consigo mesmo, achando que é bom ao mostrar a fraqueza alheia. Pra mim, esse processo todo vem da fraqueza.

- Exatamente! Acho que essa leitura-julgamento vem de uma fraqueza mesmo. Acho que uma leitura bem feita, pelo contrário, é um modo de ir além daquilo que já considero grande de mais e, entretanto, se me revigoro com isso, é só por saber que estou à altura do diálogo que ali se encontra, e que até mesmo consigo ir para além do que eles pensaram! É uma espécie de força no ir além, mantendo junto a humildade de saber que, por mais que se tente, muito dificilmente se chegará ao nível de autenticidade e dedicação desses pensadores... Mora aí uma força na comunidade de pensamento e na humildade do fazer!, e não a fraqueza do que julga! E também, sabe-se que esses pensadores só não foram além do texto que agora chega para nós porque, para depois desse texto, teve mais vida e mais pensamento que muitas vezes não foram registrados. Sabe-se muito bem que esses pensadores eram competentes o bastante para sempre ir além daquilo que já registraram no papel, e se não o fizeram foi por incompetência do respeito à grandeza de si mesmos, e se o fizeram, podemos constatar em seus diversos textos e ver  que o fizeram de modo sempre extraordinário, tão extraordinário que nos faz pensar na maioria das vezes: se eles vivessem hoje, muito provavelmente fariam interpretações infinitamente melhores que as nossas. Acho que a leitura, o pensamento, e tudo que fazemos a esse respeito é, no fundo, uma tentativa de ser à altura, de ser em comunidade com algo que consideramos genial. É uma tentativa de irmandade e comunhão com o espírito sagaz e dedicado desses homens! Mas não só isso, claro, porém acho que esse é um ponto principal, um fator muito importante que existe dentro do prazer que temos para com o processo de leitura e pensamento.

Pensamento dispersivo

Existe um tipo de dispersão do pensamento que instiga a uma eterna tentativa da reunião dessa dispersão; tudo de um modo cambaleante, mas compassado, que mostra sempre a possibilidade de afirmação da impropriedade e diversidade dos acontecimentos como a possibilidade de apropriação e do intenso labor interpretativo que mora junto da simplicidade complexa de cada ato!

13 de junho de 2011

Declaração a respeito dos verbos

Deixa eu fazer uma declaração importante: sou apaixonada pelos verbos! Mas muito! Vê: futuro do pretérito, pretérito imperfeito, pretérito-mais-que-perfeito! A tabela de conjugação dos verbos no português é quase uma poesia por si mesma! Tem também aquela coisa das partículas implícitas nos tempos subjuntivos: que, se e quando! No alemão não é legal assim não, viu, fiquem sabendo. Não chega nem perto! Atrever-me-ia dizer que Heidegger não sabe é de nada, que com essa tabela da conjugação dos verbos é possível fazer filosofia até de ponta cabeça! e que a nossa tabela de verbos, por si, é poesia e filosofia ao mesmo tempo!

12 de junho de 2011

O fim do rock'n roll

O melhor ocorrido na música dos últimos tempos foi que rock'n roll conseguiu se separar do "'n roll". Mas não só isso, melhor ainda: mais atualmente, o principal acontecimento na música foi o rock ter chegado a seu fim e dado vazão ao nascimento do que chamamos de post-rock, juntando alguns antigos elementos do rock com elementos da música clássica e das músicas regionais tradicionais (que talvez possamos chamar de folk tradicional). Da mesma forma que Heidegger nos diz que houve o fim da filosofia, podemos dizer que houve o fim do rock. O rock chegou a um ponto no qual esgotou todas as suas possibilidades de articulação, e o que acontece dentro de suas possibilidades agora é somente uma repetição daquilo que já foi feito. As bandas de hoje que ainda tentam manter o título "rock", o fazem apenas por um tradicionalismo barato e, principalmente, por preguiça. Vejo que a enorme maioria dos artistas que mais merecem consideração, ou seja, que fazem música pela música, quer dizer, pela necessidade não utilitarista de se fazer arte, têm uma influência abissal do rock, mas estão bastante longe do lema "sexo, drogas e rock'n roll", e de qualquer clichê ligado a esse âmbito cultural e tecnicamente musical; para ser mais clara: estão longe de clichês ligados à cultura de libertinagem e vício em drogas do rock, assim como ao campo harmônico e estrutural das melodias de rock, incluindo também as letras das músicas. Essa cultura e estrutura vive somente como uma vaga lembrança: vive somente como a lembrança daquilo que um dia foi o nascimento de uma grande coisa, mas que hoje é somente moralismo. O rock teve seu fim, esgotou suas possibilidades e, com isso, deu lugar ao surgimento de coisas novas na música, que não conseguimos muitos rótulos ao tentar enquadrar; aliás, pelo contrário!, conseguimos rótulos de mais, e exatamente por isto: por serem tipos de música tão variados, a ponto de se tornar quase impossível rotular, surgindo assim nomes como lo-fi, math-rock, slowcore, e tantos, tantos outros. Hoje, por causa disso, a música está mais relacionada ao "experimental": ligando este termo à experiência: às experiências de criação de novos elementos depois de se ter visto quão repetitivo se tornou algo que um dia foi revolucionário. Hoje o rock'n roll é algo tão reacionário quanto qualquer tradição fortemente arraigada e que tende morrer e, por isso, não quer se deixar morrer, e desencadeia assim uma série de atitudes reacionárias, sejam elas conservadoras ou rebeldes (pois a rebeldia no rock já se tornou uma atitude tradicional). Talvez o rock seja ainda muito mais reacionário do que qualquer outro âmbito, pois é um reacionário que se esconde na máscara de libertário e despojado, quando, hoje em dia, é só preguiçoso e acomodado. O rock teve seu fim e nos libertou para o novo na música. É uma pena que a maioria desperdice esse fim e queria manter o rock a partir de um tradicionalismo que tenta fazer um "revival" das décadas passadas; com relação a isso conhecemos muitas bandas, não é mesmo? Talvez bandas de mais! Com relação ao que se diz hoje "rock" e está por aí exibindo suas carinhas bonitas na internet e na TV, acho que não preciso comentar muito, pois se sabe que isso é somente expressão de uma sociedade individualista, personalista e vaidosa de mais, que não consegue colocar a expressão artística acima do indivíduo, e desse modo nega a própria arte e afirma somente o indivíduo vaidoso e voluntarista, queredor da criação de sua própria imagem como o substituto de um Deus que já morreu. É picaratagem, sabemos, e nos serve somente como objeto de crítica. O fim do rock é algo bom, e deve ser assumido da maneira mais fecunda possível, e com isso quero dizer: deve ser trazido às claras e assumido como uma tarefa que se cumpre quase por obrigação; e digo "quase", por não ser uma tarefa totalmente necessária, mas que, ao mesmo tempo, se mostra como a única possibilidade de continuarmos de maneira suficiente e decente com isso que chamamos de música. Porém, destaco o seguinte, para deixar muito claro: não estou aqui apoiando as apelações para o experimentalismo extremo, pois muitos querem continuar com a preguiça, comum ao rock feito hoje em dia, com tentativas de músicas experimentais de mais e pouco artísticas: dando valor muito mais à fuga do tradicionalismo do que à arte mesma e, assim, de algum modo ainda mantendo o tradicionalismo: pois ir contra o tradicionalismo pelo seu oposto contrário é ainda estar dentro do tradicionalismo, já que se tira exatamente deste suas regras: assume-se as regras tradicionais apenas virando-as ao avesso; como se com isso se escapasse dessas regras, quando na verdade isso é estar mais do que nunca dentro delas. Lancemo-nos ao fim do rock, mas não caiamos na preguiça de afirmar que não é bom aprender teoria musical, de que não é legal ser um músico dedicado e competente. Sabemos, cuidado e esforço fazem parte da boa arte. E se me chamarem de tradicionalista por isso, respondo com calma a vocês, do "rock'n roll": os tradicionalistas são vocês, que querem manter um lema morto e que carregam atrás de si somente uma carcaça.

8 de junho de 2011

Sobre o tempo da eternidade

Houvera um tempo em que eu descia as escadas, cheia de esperança, com sonhos em verde limão, rosa chá, azul anil e vermelho carmim. O céu mal existia, as ruas, mal sei se as via. Via somente meus sonhos, coloridos aquarela, infantil apego à eternidade finita que já postulava meu destino. Cada pisada no chão era um salto no infinito, cada olhar, a visão daquilo que seria. Mas a vida fez questão de me mostrar que era necessário reconhecer a aquarela como tinta pra quadros, a eternidade, como alimento ilusório do durante, e a pisada no chão, como pisada no chão. Daí, em vez de completamente amarga ou de completamente doce, como é comum acontecer nessas situações, fiquei assim, agridoce, apenas com um leve peso nos olhos: coisa de quem sabe que a vida é a coisa mais difícil a se cumprir, mas que nem por isso tenta escapar da certeza instigante e dúbia que é o estar nela. Por isso sinto hoje que toda minha tristeza vem do amor... Sinto que, no fundo, minha tristeza mora dentro da felicidade pela ambiguidade da vida. Enfim, aprendi esses tempos que é preciso antes e acima de tudo amor, mas que esse sentimento só se sustenta quando acompanhado de uma boa dose  de realismo...