Era noite, eu caminhava em um lugar escuro. O céu estava completamente nublado e possuía um tom quase vermelho. Viam-se apenas sombras e penumbras ao redor. Às vezes a luz de um relâmpago soltava sua fúria. O vento estava impetuoso e balançava de forma assustadora os galhos e as folhas das árvores. Ninguém estava comigo, nem ali e nem em lugar algum: a solidão era absoluta. Ouvia-se apenas o silêncio das árvores cantando uma música de terror e medo. A vida me levava naquele momento para a minha solidão mais desolada, minha hora mais silenciosa. Enquanto eu andava, meu demônio me rondava, cruel e atrevido, cheirava meu pescoço, roçava em minha pele, entrava por debaixo de minha roupa; meu demônio, minha solidão. Sem choro e sem vontade de choro eu continuei, apenas o desespero me arrastava pela estrada, a des-esperança, o sentimento do mais denso, profundo, negro e violento oceano dentro de mim. A única ligação com o mundo era aquela penumbra macabra. Eu era uma fera sem bando, faminta e sedenta, em uma densa floresta. O vento fez as árvores cantarem uma música tão soturna que começou a chover. Um trovão explodiu ao redor do meu corpo. Eu era aquele lugar sombrio, era o próprio desespero, a própria desesperança, a solidão; por isso, amava de mais. Corri para a luz da cidade como uma fera assustada corre para dentro da escuridão da mata a fim de se proteger, e nessa luz vi em mim aquela pele e garras de fera num corpo tão humano... Não havia lugar para mim no mundo naquela noite, talvez nunca houvera. A esperança retorna: “ainda há de haver um lugar” – sentia eu. Toda a minha vida é a espera por esse lugar, e para onde quer que eu vá, seja em que direção for, eu caminho para ele. Meu demônio se aquietou, permaneceu apenas caminhando ao meu lado. Meu lugar é o sem-lugar. Quero um lugar de verdade, e não mais somente um vazio...
20 de abril de 2010
Eternidade e efemeridade
Algo me embala ao sono mais profundo e com os pesadelos mais terríveis que já tive, pesadelos mais reais que a própria realidade. Minha época de pessimismo, descrença, decadência. Mas com que rapidez surpreendente ela se vai e deixa ser tomada por aquela velha gratidão pela vida. Que ciclo horripilante é a vida! Deve-se suportar dores e prazeres efêmeros com aparência de eternos! Cruel e ao mesmo tempo acolhedora é a vida: leva-me ao infinito, à eternidade, e depois me joga novamente em frente a esse muro completamente intransponível do devir. Permito que me leve; temo, mas não nego ser levada: leve-me, vida, ao infinito e eterno, ao que de mais metafísico e humano possa existir! Não tenho medo de ser humana, e esse parece ser todo meu erro, sendo mesmo assim meu eterno acerto. O homem tem medo da efemeridade!? Eu digo que o homem tem medo é da eternidade...!