28 de setembro de 2011

Descaminho

O vazio é tamanho que mal poderia encaixar algo que se equiparasse ao que lhe compete, talvez nem mesmo palavras; logo elas, às quais pertence a maior solidão, imensidão e infinitude. O sol nascendo agora, talvez, devorando a imensidão da madrugada, pudesse ao menos chegar perto de preencher ao menos a metade da metade de tal abismal sentir. Algo próximo da infinitude e totalidade da morte, mesclado à incondicionalidade e eternidade de um amor maternal; algo no entre do terror da inexistência e do amor completo e pleno por aquilo que já morreu. Caminhar necessário e descompassado que me levou a perder-me. Eterno sonho inconcretizável, perene horizonte de luz matinal: inesvaível, insondável, intransitável... Infinita luz fantástica da eterna aurora de meus desejos, luz branda dos picos vibrantes das montanhas de minha permanente esperança perdida. Arco-íris intocável que nunca se foi... Pouco importa o fazer-se dos sonhos agora, mesmo que eles se façam a todo o momento, pois meus sonhos já não são mais horizontes, são muros intransponíveis, pedras irretiráveis. (Longa pausa) Se cresse em Deus, rezaria a ele para que isso tudo acabasse. 

11 de setembro de 2011

Solidão e vulgaridade

O que fazer depois que se "descobre" clareira do ser?! A clareira mostra, investiguemos então, originariamente, sem esquemas objetivantes, o que se mostra. Mas como fazê-lo sem levar em conta que, como estudante de filosofia e como pessoa que vive em uma comunidade, não posso ficar apenas investigando o que se mostra sem um "sistema", sem um "esquema" objetivo e, ao menos relativamente, fixo; isso porque a própria academia e a nossa vida cotidiana pedem sistemas e modos bem objetivos para que consigamos bem nos estabelecer e relacionar. Então o que fazer?: entregamos-nos a esse modo objetivo que pede a "sociedade" e vivermos em maior unidade com os outros e com nossas instituições?, ou renegamos estes tais modos em partido de um senso de verdade que não deixa estabelecer sistemas objetivos? É difícil responder a isso. Eu mesma não sei como me livrar de tal senso de verdade, mas ao mesmo tempo sinto a necessidade extrema de me livrar dele para que consiga estabelecer alguns sistemas objetivos e viver um pouco melhor na comum-unidade: sinto tal necessidade de objetividade imperar sobre mim, mas, ao mesmo tempo, sinto imperar também, talvez com maior força, a necessidade de negar cabalmente todas as formas de estabelecer sistemas objetivos. 

Por que isso acontece? Isso é para mim um grande mistério. Esse é o dilema da solidão que talvez tenha sofrido Heidegger, Rilke, Nietzsche, Schopenhauer e, muito provavelmente, Sócrates: o dilema do que fazer com a vontade colossal que leva a não se deixar reger pelo que já está dado como regra; e isso de modo tão extremo a ponto de não permitir de modo algum a si nem mesmo tentar conseguir estabelecer conceitos objetiváveis; e junto com isso, claro, o dilema de como isso leva a uma solidão profunda e a uma incongruência abissal com o que pede as regras sociais. Rorty tenta ficar no meio do caminho, separando as tentativas de libertação da tradição como tentativas da vida privada, e não da vida política. Mas como separar assim tão cabalmente duas coisas que se mantêm no momento mesmo no qual profiro palavra? se a minha "obsessão" por não se deixar levar pelas regras já dadas, leva-me quase imediatamente a uma posição política?, no sentido tanto de tentativa de ação na vida pública, quanto de modos de vivência com os outros? É muito mais complexo do que separar esses âmbitos: vida privada versus vida política. Nossa vida "privada" atinge diretamente nossa vida "política", e vice-versa.

Schopenhauer diria que quanto mais o indivíduo é sociável, no sentido de condizer com as regras sociais estabelecidas e ser por isso "popular", mais é ele vulgar. Se trata disto talvez: o indivíduo que não é vulgar é aquele que não consegue se deixar levar pelas regras dadas, o que o faz sentir-se de algum modo um ser humano superior. Mas o que fazer com essa superioridade? Guardá-la em solidão na "floresta negra"? Partilhá-la com os "poodles"? Ou enfim, em nome dela, tomar a "cicuta"? Foram decisões difíceis tomadas por esses homens, e sem elas talvez seríamos piores. Mas, se pensarmos de um outro ângulo, às vezes elas me parecem muito fáceis...