9 de novembro de 2012

Liberdade e amizade

"Prender" uma pessoa não pela necessidade ou pela falta, mas pelo visgo da liberdade: eis o segredo — da amizade...

Ceticismo

Quando se é cético não só no mundo das idéias, suspende-se não apenas juízos, mas também ― sentimentos... 

30 de julho de 2012

Se elas pudessem pensar em vez de simplesmente acreditar

"Quando você ouve música, você relaciona com o que já ouviu no passado. É assim que nossa mente funciona. Mas e se você não puder relacionar a algo que ouviu no passado? Você não sabe o que está ouvindo, então tem que inventar algo, criar alguma coisa na cabeça para explicar aquilo. Só quero que as pessoas pensem. Se elas puderem pensar, em vez de simplesmente acreditar em toda merda que os outros querem que elas acreditem. Mas há varias coisas. Quero que as pessoas alucinem, que tenham uma experiência que nunca tiveram antes. Quero que aconteça algo que elas vão lembrar para o resto das vidas. Na verdade, quero o mundo todo em uma peça. Não posso fazer isso, ninguém pode fazer isso, mas é o que quero."

(Glenn Branca)

23 de julho de 2012

Belo Horizonte

A vida é uma relação inviável com a eternidade
Um passeio impossível que se crê, inevitavelmente, 
       ser possível...
Caminhos que dão em lugar nenhum
mas que fornecem a sensação de que darão, a qualquer momento,
       em algum lugar.
Um elevar-se à infinitude mediante o vazio
Expansão a nunca repousar.
E quando foi mesmo que relacionamos infinito e eternidade 
       com permanência e ordem?
Um erro, pois.
Infinito e eternidade têm parte com o caos, com a contínua 
       expansão, com a quarta dimensão
       com Dioniso... 

9 de julho de 2012

Lidando melhor com os urubus (uma homenagem às avessas para Augusto do Anjos)

Que não se dissolva minha vida
Mesmo que ela se dê igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

E que, além disso (ou junto disso), o agregado abstrato das
       saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

21 de junho de 2012

Para nunca

Uma vontade de tudo
Um bicho corroendo minhas entranhas e procurando abrigo
       no infinito
Corte no limiar da existência que me deixa ver a
       possibilidade da plenitude
Sonho impossível do qual não quero nem me posso livrar
Inconstante tormento a passear pelas estradas da
       eternidade.
E nada do que se pode encontrar costurará essa fenda para
       o infinito.
Durmo nos únicos braços nos quais repousei expandindo
Serpentes de tédio invadem minha cama e me tiram dali
arrancam minhas raízes e plantam-nas no infinito
Dissipo-me no vento e explodo num passeio ao acaso
a nunca mais encontrar.
Permanente vir que nunca veio
Eterno para nunca
Somente assim sei amar
(Aliás, não sei amar, e isso basta)

13 de junho de 2012

Do que um homem deve acima de tudo ─ fugir!

Já vi seres brilhantes virarem bancários depois de encontrarem a mulher certa. Fujam da mulher certa!

I will

O horizonte me persegue sendo o limite do ilimitado:
limita infinitamente um caminho
e eu, algo eternamente futuro
um projetar-se insano do eterno para frente!
E a eternidade é apenas uma loucura que nos redime da
       dor que contemos no incessante durante
o transbordar de dentro do abismo do porvir.
Descabidas linhas outonais de um vento-horizonte que
       nunca passou
Limite do infinito a balançar as árvores que calo
Sonhos eternamente perdidos
sonhos perdentes.
Ah, como a existência me dá prazer...
Espero um dia nunca encontrar!

19 de maio de 2012

Amor livre

Percorri com ele toda Freiburg. Ficamos em um hostel de vinte e uma camas por quarto durante 7 dias. Conversamos sobre todo tipo de coisa legal e despretensiosa. Passeamos em silêncio na floresta negra, tomamos porres pelos bares de estudantes e cambaleamos um encostado no outro quase sendo atropelados pelos bondes na Salzstraße. Dividimos todos os dias a mesma cama de solteiro, e pelas manhãs dividíamos um fone, ouvindo música e vendo a neve cair pela janela. Despedimo-nos com leveza: eu iria pra Berlin e em três ou quatro dias voltaria para o Brasil; ele voltaria para a Itália e depois, finalmente, para sua casa na Austrália. Sem saber se gostávamos ou não um do outro, demos um abraço um tanto estranho, sem pesar algum, logo antes dele entrar no trem. Nem uma foto, nem uma tampinha da cerveja que tomamos juntos na estação antes de irmos. Meu trem ainda demoraria uma hora pra chegar, então andei mais um pouco pela cidade tentando achar um cartão postal que valesse a pena. Não achei.

27 de abril de 2012

Syd Barrett interview (London, 1967)

SYD: Well I'll, I'll say... for example, painting at an art school. Or painting, say, in infants school. The initial desire to paint or initial suc-first successes at painting arised, I think, out of a very genuine basic, um, drive one way or another. So, an-and because of family and social set ups are channeled into success or otherwise and, er, er, through schools and such like and one gets different things. And I think un-and, course, one comes across teachers and people like that, teaching and, sort of, instruction and to talk to and there came, and I feel now that having left art school that there are a lot of things...um. ..that I could do. A lot of things I see now, a lot of things went in to me, into my head and thinking that these would, perhaps, changing and altering things. For instance I made a painting the other day...and... it's I could I see and hear very clearly, sort of, different instructions and different criticisms going in to the picture which were in fact p-um-criticisms that I could relate back to art schools and teachers and various things that'd come at that time. So...maybe.. .this would be very valuable, this break. I don't know..and, er, sort of, to... try painting again after a break of going in to pop music and going to.. playing this sort of music....just might work out that, get more, sort of, basic freedom. I don't know, it's something to d-, just things like shape of the paper and, er.. seem to be a lot of assumptions taken place.

INTERVIEWER: When you were saying criticisms you had, criti-, your own criticisms of your work is that what you (??) outside other people?

SYD: Um, criticisms that I, I, I, really, d- yeah… 

INTERVIEWER: Of your own criticisms of your own work… 

SYD: Yeah. 

INTERVIEWER: …that were, sort of, put in to you by teachers and so on. 

SYD: They were what I was channeling into my own criticisms, yah, they were wh-, they were what were governing what I was doing, in to pai-,er, why it was happening. 

INTERVIEWER: Do you ever… get… I don’t know… frightened by, I use this word because it’s, it applies to me by, er, the systems that, I mean this, in a sense, I don’t know, could be better worded, this in a sense, you know, is a system, when, when you’re, realise that the criticisms that you’re using… on… have been put in to you, y’know, sort of, conditioned. But, but when you realise more and more what it is that controls all the systems that, you know, system upon system, sort of, working your way through one in to another and another..does this really…bother you…or even frighten you? The feeling that you’ll never be free, that you’ll always be a prisoner? But, maybe you don’t have that feeling? 

SYD:……Yeah I do!…. 

INTERVIEWER: Do you think that you can be free if you can realise, I mean, get to a point where you realise…you know, more and more and more systems (??) 

SYD: Er yeah. I think, er, m-maybe, maybes… 

INTERVIEWER: The realisation’s, sort of, freeing you on and that… 

SYD: Yeah, well, yes, in slowly in time, ya know, it’s-ss, well it happened with this painting, I mean-er, I finished a picture I got through… a lot of things… I wanna, it’s quite enjoyable, you know… and the idea is, to, I would like to get hold of that and be able to assimilate the, um, the system as it comes in, rather than… um… ss-you know, see it as it goes out. 

INTERVIEWER: Yep….. Do you find yourself in patterns and constantly repeating the same patterns over and over? 

SYD: Mmmmm! 

(Pause) 

INTERVIEWER: What are you.. working on at the moment in… inside yourself?… Do you know? 

SYD: (Pause) Yeah. 

INTERVIEWER: Do you care to say? 

SYD: Umm, I carn- er, sort of… I can’t really say, because it’s obviously taking too much time to think about it. I don’t, I, ss-um…..(pause) It’s not really difficult. 

(Pause) 

INTERVIEWER: Do you ever feel when you see people, or do you often feel when you see people that you could tell them something about themselves that they don’t already know (??)? Or do you look at people that way?… I feel you do, that you really sort of observe people… Do you? 

SYD: Nah I think it’s something about… um.. wow, really gets… pretty… involved… this stage… I can’t… see… yeah there is a, I certainly do get a ss-feeling of what people are like and, er… it really, the really, the, the complication comes out in talking, but this only comes out at certain times because of a feeling that talking is, in fact, a much, a far less, er, valuable thing than, er, and it’s almost superfluous, to…wha-… to… to everything else, you know, to sort of, general, as-s, I don’t know, sensing people (??) value of people… But the same time, it’s a contradiction that the wor-, that words and talking to the people should be difficult in any way. So one… goes, one is hesitant to say ‘No I can’t say anything’, you know… An- an I know as well this is something that occurs only at times, ya know, other times it doesn’t… and it’s cool. 

INTERVIEWER: Yeah maybe that I think more in terms of words when I, ya know, see someone and have an impression. I mean like, your impression of me… which you must have… on… would you care to tell me? And be like absolutely honest… Do you have one? 

SYD: In words? 

INTERVIEWER: Yeah. 

(Pause) 

SYD: Um…Wow! 

INTERVIEWER: (Laughs)… I mean really be honest. And I’m asking this cos you may have something to give me, I don’t know. 

(Long pause) 

INTERVIEWER: Not the general things, I mean whatever, mean what the main thing that sort of hits you. And I-I’m not asking for a personality critique, ya know, cos I know enough about myself that I don’t need that. 

SYD: Well… (mumbles) there’s so many different things, that on different levels, that I could… say, that of impressions of you, so I give us, I don’t know, I just, maybe the most strange thing is, um… meeting you, talk, sort of s-saying… eh… very strange to meet you… Well it tisn’t really strange, it’s not many people that…that sort of… one can…wr-interviewers and such like, as, as, and you came in to that class. Erm… sort of, used to, I mean generally it just sort of say hello and to get to say the questions and go again… I don’t know… very, I don’t know (laughs) Wow. 

INTERVIEWER: (Laughing) I see you’re holding back. 

SYD: Yeah, yeah… er. 

INTERVIEWER: I mean, I mean I don’t c-, you know, it maybe something that sends me back, I don-, maybe, you know, probably not anything I’m going to want, want anyone to hear… and it’s sort 

SYD: No- (Laughs) Not at all! I, I understand. I think I learn a lot from you… and er… (stammers) the thing, th-th-that you see, there’s the… I… I’m not, I know I feel from you that in, you not,really, that I could say anything and do anything and you would st-, I mean, you are recording it and that’s cool and, er… But I could… and I know that applies to you, to me and you, you know, cos really I, I, you are, I assure you, you can do anything you want, but… And in talking, I mean, that includes if… I want to… if I wanted to say nothing or if I… I want to act in an extr-extraordinary way… then I feel that that too is justified 

INTERVIEWER: You have your relatives? 

(Cut in tape) 

INTERVIEWER: Because, I don’t know, ya know maybe in a sense there’s something I could tell you I don’t know what it would be. And the same thing, ya know, I’ve done this a couple of times, not, not in interviews.. . but ya know, when I met someone who, you can see in their eyes this-s, depth, what am I saying… do you have anything to tell me? 

SYD: (Laughs) 

(Pause) 

INTERVIEWER: Mmmmm 

SYD: (deep breath) 

(Tape cuts off)






24 de abril de 2012

Ácida manhã

Noite assombrosa
caminhou com o vento e explodiu
       nas cores
Manhã descontida
espaço transbordante que intransitou-se
       em imagens de sons iluminados
Melodia de luzes e sombras claras a se inverterem no ar
Fotografia oscilante de um som que permaneceu
       escapando no raio de um vento matinal
Sentir pastoso
       pintou a imagem de um som que não pude capturar
E agora, quando vejo um cabelo ao vento
entendo que não posso manter...
E agora, a beleza parece só uma coisa
que tenho de tentar no segredo que ela mostra
Talvez ela seja um passeio desprositado
trazendo a sensação de chegará-em-algum-lugar
mesmo sabendo: não acontecerá.
Chegar tornou-se o mesmo que continuar.
Depois disso, tudo que um dia parei retornou
e fez fluir, fluir sem cessar
A vida agora é contínua num vento bem lírio.
amanheci; essa é a verdade
Amanheci? Que nada
Quem amanheceu foi o mundo...

19 de abril de 2012

Uma história eternamente sem nome

Ele é tipo um Sócrates da modernidade: não escreve nada, mas confunde todo mundo. Só que Sócrates confundia pela lógica, claro, e ele confunde pela estética. Por isso Sócrates da modernidade. Gosta de pegar as pessoas de surpresa e fazer ironias sérias em horas indevidas. Só tem um defeito: acredita de mais em si, daí não sabe conversar e é sozinho de mais. Defeito? Isso não é um defeito. Mas o fato é que isso deixa esse rapaz triste, por isso falei defeito. Mas o que tem de errado na tristeza? não é mesmo? Na tristeza não tem muita coisa de errado não, tem de errado no que ela faz da gente: mórbidos ou loucos. Não sei se são só essas duas opções, mas se for, esse rapaz virou um louco. E um daqueles loucos mais estranhos, um daqueles que não se consegue colocar no hospício mesmo tando na cara que ele não bate bem. O tipo de louco mais perigoso: aquele que consegue viver em sociedade tranquilamente, e cujas pessoas gostam até bastante dele (talvez por eles relembrarem algo que nós perdemos pelo caminho e gostaríamos de reaver: alguma paixão desvairada que nos tiraria do tédio mórbido no qual estamos há muito encarcerados). Esse tal Sócrates da modernidade é um bon vivant na verdade, ele não tem muito de Sócrates. Ou tem né, afinal, o que era Sócrates senão um bon vivant enrustido com todo aquele lenga-a-lenga de maiêutica e blá blá blá? Na verdade acho que todos os filósofos foram bon vivants enrustidos. A filosofia tem alguma coisa a ver com o bonvivantismo enrustido, mas não descobri ainda o que possa ser. Um dia hei de descobrir! 

Mas, ele tinha um defeito esse Sócrates moderno: era apaixonado por uma mulher. E pode haver desgraça pior pra um homem do que ser apaixonado por uma mulher? Pode acontecer de um tudo pra um homem: dívidas, se viciar em drogas e em jogos, muita coisa ruim mesmo pode acontecer, mas a verdade é que essas coisas não chegam nem perto da ruindade que existe na paixão de um homem por uma mulher. Mulheres se apaixonam aos montes, choram dois anos por um mesmo homem e depois arrumam outro e nem mais lembram do antigo; e ainda dizem que foi só uma paixãozinha boba, que não sabiam o que era amor de verdade, mas que agora sim, com o novo amor, agora sabem o que é gostar de verdade de alguém. E se largar esse de agora e arrumarem outro, vão falar a mesma coisa. Mulheres; seres estranhos. Enfim, não tão estranho quantos os homens, que são capazes de viver uma vida toda apaixonados por uma mesma mulher, e que viram solterões convictos só porque não conseguiram mais amar qualquer coisa que seja daquele jeito que amaram aquela maldita que lhes roubou a merda do coração. E normalmente são só umas vadiazinhas, vazias pra caralho, que pagam de muito sábias e bem resolvidas, assim encantando o coração de homens como esse que é o nosso personagem. Pois é, vítima de uma vadiazinha que pagava de artista e muito bem resolvida foi esse nosso Sócrates. 

Fausto nasceu em Vale Verde, porém a mãe dele se mudou para Veredas quando ele tinha uns 14 anos. Fausto não gostou. Vale Verde não era uma cidade pequena, mas também não era grande; fazia fronteira com a capital: Veredas. Mesmo nas zonas que tinha a gente mais rica, Vale Verde não perdia um ar de subúrbio. Tinha muitos bares, meu Deus, como tinha bar aquela cidade. A cada esquina um boteco, e estes quase sempre cheios, mesmo aos domingos. Coisa estranha aquela cidade, parece que lá as pessoas não levavam a vida tão a sério, então acabava que bebiam muito. Ou elas bebiam muito por isso não levavam a vida tão a sério? Ainda não sei. Sei que bebiam pra caralho. Já em Veredas não havia clima de subúrbio, e até os subúrbios tinham um ar meio burguezinho, um todo lugar uma vontadezinha escrota de ser burguês. Nunca entendi direito. Sei que era assim.

A verdade é que Fausto não gostou de Veredas: os amigos da escola agora olhavam de mais pra ele; em Vale Verde ele era só mais um na escola, junto com os outros, brincando e enchendo o saco de suas vidas e intercalando isso com o futebol do recreio. Agora ele é um novato que é observado por todos os olhos e que não consegue se encontrar mais junto dos outros. Você pode pensar que isso acontecia porque ele um novato; é, também, mas o fato é que as pessoas de Veredas sempre tinham os olhos para os outros, elas não sabiam viver junto, olhar junto. Não sei o que acontecia naquela cidade, mas o fato é que a qualquer momento que você saísse na rua parecia haver olhos te vigiando, esperando pelo que você vai fazer, ou querendo saber aonde você vai. Acho que isso acontecia porque eram pessoas tão solitárias que gostariam de saber se as outras eram também solitárias que nem elas, aí ficavam vigiando pra saber. Ou então não: ou então eram tão solitárias que gostavam de observar todo mundo por causa da eterna esperança de encontrar um semelhante. Essas generalizações que eu estou fazendo, vocês sabem, né? são só ficções. Não tem uma cidade inteira de pessoas assim, falo da maioria. Mas te confesso que a maioria tão enorme dessa cidade era assim que dá quase pra falar que era todo mundo, pois mesmo quem não era assim acabava virando, pois de tanto observar que tava sendo observado começava a observar de mais, daí acaba que acabava observando sempre também. 

Menino Fausto era livre, não gostava de olhos observadores. Gostava de correr livre no campo de futebol, jogando bola à toa, sem medo de ser um jogador ruim ou bom. Gostava de brincar esse menino; acho que na verdade foi o que ele mais gostou de fazer a vida toda: brincar. E brincar sem propósito, só pra sentir a liberdade ali rodeando as coisas. Depois de grande, ele ainda se lembrava de quando jogava bola em Vale Verde, e sentia uma nostalgia violentíssima. Não é de se estranhar que ele virou guitarrista, né? Quer coisa mais inútil, inocente e brincalhona do que tocar guitarra nesse mundo? Tem sim, jogar bola em Vale Verde. Mas ele conseguia se virar com a guitarra também. Poucos homens sabem lidar bem com a guitarra, pois, não sei o que possui esse maldito instrumento, mas ele sempre atrai a mulherada; aí o cara quase que fatalmente acaba se tornando um instrumentista mediocre. É difícil saber lidar com a carga do poder sexual que traz esse instrumento, mas ele sabia fazer isso sim; inclusive sabia se virar dos dois jeitos: sabia brincar com a guitarra quase que nem quando jogava bola em Vale Verde; e sabia também usar a guitarra pra conquistar quantas mulheres lhe fosse necessário. Mas ele era bonito, isso ajudava. Não era aquela beleza chata de se olhar e decorar os traços na primeira olhada: aquela beleza padrão, sabe? Era uma beleza estranha, uns olhos meio vazios de mais, um rosto meio fino de mais e uma cara meio de quem ficou doido e se esqueceu que endoideceu. Magro que só, coitado. Mas no conjunto dava um tipo tão bem apessoado e instigante que agradava mulheres de quase todos os tipos. O que eu acho mais interessante nele é que ele não sabia que era bonito, daí caprichava no estilo: comprava roupa de bom gosto e aprendeu a andar metido. O pior é que isso fazia ele mais bonito ainda. É, não era mole esse nosso Fausto. Mas assim, essa coisa do estilo veio lá de Veredas também: ele pensou assim consigo, na inocência de um menino de 14 anos: "Já que aqui todo mundo me repara, então que reparem algo que os inspire. Vou começar a me fazer pra esse povo, quem sabe assim eu não me torne neles o que eu sou!" Sabido o menino, tá vendo? Sabido desde cedo. E assim foi. Dentro em pouco todas as meninas da escola gostavam ou ao menos queriam alguma conversa ele, e ele que de bobo não tinha nada sabia aproveitar muito bem de todas, hehehe. 

Foi crescendo assim, no meio dessa gente que não tinha muito a ver com ele. A mãe de Fausto, dona Arminda, era mãe solteira; não fosse isso com 18 anos Fausto teria saído de casa. Mas ficou com dó da mãe e resolveu ficar. Valeu a pena: dona Arminda era uma mulher de ouro: forte, determinada, quase macho. Criou os 3 filhos de maneira invejável. Só vi dona Arminda chorando uma vez na vida, e essa vez foi quando Fausto, o caçula, seu preferido, saiu de casa. Nessa noite chorou como uma criança de saudade do menino Fausto. Mas é que ele era uma criança encantadora mesmo, faz mesmo falta onde quer que passe. Já estou adiantando tudo! Eita! Calma. 

Mas então, Fausto logo se enturmou e começou a sair e beber de mais. Em Veredas o povo também bebia, mas em Vale Verde as pessoas bebiam mais pra não serem si mesmas, já em Veredas elas bebiam mais pra se afirmarem. Como ele não gostava de nada daquilo, bebia mais que todo mundo, pois precisava beber pra se soltar de si mesmo, e pra soltar a si mesmo dos outros. Era tarefa árdua. Mas ele se virava bem. Numa dessas noitadas bateu o olho numa menina: vestido curto a vadiazinha tava, toda cheia de si; tinha acabado de receber um prêmio por um quadro que pintara, então tava quase explodindo de vaidade e auto-confiança. Isso atraiu Fausto de tal forma que ele a partir daquele momento falou que não ia se aquietar até comer aquela menina. Na verdade ele já tinha se apaixonado, só falava pros amigos que queria comer pra se esconder de si mesmo. Já tava meio meloso em casa e até mesmo chegava a pensar nela antes de dormir. Pobre Fausto... O pior de tudo é essa vadiazinha morava em Vale Verde e vinha só de vez em quando pra Veredas, o que deixava nosso protagonista ainda mais aflito. Numa dessas noitadas a vadiazinha percebeu os olhares do nosso galã e não é que arrumou um jeito de falar com ele! Conhecia uma amiga que era amiga de um amigo do nosso Fausto e por esse amigo puxou conversa desavisada pedindo um isqueiro: tudo planejado, só que na classe. Era esperta essa vadiazinha, pior que era inteligente a megera. Deixa eu parar de falar assim dela, pois ela também não é o demônio; digo até que é boa moça a menina, no bom sentido, ou seja, de ser gente boa. É, no final das constas eu tô é gostando desse Fausto, aí saber que uma mulher dessas fez um mal tão absurdo pra ele me faz ter raiva dela e chamar ela assim, de vadiazinha. O nome da menina era Thais. Thais era assim, espontânea e atrevida, gostava de luxo e roupas caras, mas no fundo era apaixonada mesmo é por suas pinturas. Veja bem, não por pintar, mas por suas pinturas. Pintava e se deliciava em vaidade de saber que pintou algo tão bonito, e gostava mais ainda de si. E quanto mais pintava bonito mais queria pintar mais bonito só pra se deliciar ainda mais consigo mesma. Isso é coisa de mulher que sabe lidar com a natureza feminina, por isso digo que Thais era muito esperta! 

E o pobre do Fausto se apaixonou por essa vaidade em pessoa, que sabia jogar com os homens como quem joga com os cabelos. Se fodeu Fausto, arrumou paixão com a mulher errada, pois essa daí é que nem você: só gosta do impossível. Essa figura vaidosa e extremamente hábil em ser mulher, trazia algo pra Fausto que o fazia lembrar da infância, lembrar do jogar bola lá em Vale Verde, mas ele não conseguia identificar muito bem o que existia nela que lhe fazia rememorar e sentir aqueles tempos. Algo com ela era sempre uma brincadeira inocente e desavisada que no final não ia dar em nada além do prazer de sentir a liberdade. Foi nisso que ela roubou nosso rapaz pra nunca mais devolver. E numa jogada de cabelo, um sorriso safado de moleca na cara e um cigarro na mão foi que dona Thais se aproximou do nosso grande homem. 

- Você tem isqueiro? 
- Só se você tiver um cigarro. 
- Eu tenho um cigarro, não tá vendo? 
- Um cigarro pra mim eu tô falando. 
- Ah tá, tenho sim; tá aqui. 

Fumaram juntos, conversaram sobre a chatice da festa e da magia do álcool e do cigarro. Se deram bem assim, de cara. Caminhavam no mesmo ritmo esses dois, a saber: num descompasso só, num cambalear que cambaleia cambaleia mas nunca cai. Ele, despretensioso e explosivo, ela, calculista e vaidosa. Um casal e tanto, vos digo, um ca-sal e tan-to. Ele estava certo, eles dariam certo, mas ela trocou ele por um australiano fotógrafo que apareceu por Veredas; hoje em dia ela paga de madame e viaja o mundo inteiro pintando seus quadros. Está feliz a moça, bem feliz. De vez em quando, quando ela tá com a auto-estima um pouquinho baixa, sentindo-se meio mal amada, ela liga pro nosso Fausto só pra relembrar que ele ainda gosta dela. Ele não esconde dela não, aí é que ela se derrete toda, dá falsas esperanças pro garoto dum jeito meio torto e escorregadio e depois desliga, voltando a ligar só meses depois, claro, quando ocorre esse tipo de situação de novo. 

Depois disso o menino Fausto nunca mais foi o mesmo. Durante muitos dias depois disso andou cabisbaixo e de olhar distante, não falava quase nada e comia tanto quanto. Mas como não é homem de ficar nessa dor de cotovelo, logo arrumou um jeito de esquecer a vadiazinha: álcool e outras mulheres. Passou a beber todo dia, assim como todo dia fumava duas carteiras de cigarro; traçava todo ser com vagina que lhe aparecia pela frente. A verdade é que já era meio doido o rapaz, depois disso meio que se percebeu doido. E o doido quando se percebe doido, ao contrário do que se pode imaginar, fica mais doido ainda. É sério!: gente doida, quando vê que tá saindo mesmo da linha, quando percebe que tem que dar uma maneirada nas doideiras, aí é que endoida mais ainda. Nunca entendi muito bem isso, mas já conheci gente que era meio doido, todavia tinha casa, família, dinheiro... e aí, quando percebeu a doidice, virou até mendigo e anda hoje pelas ruas sozinho andarilho. Parece que a doideira tá nisso mesmo: perceber a doideira e do nada assim, de uma vez, decidir se entregar a ela. Tem gente que acha que a loucura é só coisa de nascença: pode até ser, mas muita da gente que parece normal e depois fica doida, decide de sã e boa vontade a ficar doido; é meio que um preferir a loucura a essa vida chata. Pra mim esses doidos são os mais sábios, mais sábios até que os sábios sãos. Que nem o cara lá do Pink Floyd que, depois de ter feito aqueles singles e aqueles álbuns geniais num período curtíssimo de tempo, optou pela auto-reclusão pra ficar pintando e fazendo jardinagem. Muito doido; não foi à-toa que depois vieram várias músicas da banda em sua homenagem, com destaque praquele álbum que tem dizendo na música de abertura pro doido: “You reached for the secret too soon, you cried for the moon”. É isso mesmo, esse tipo de gente descobre o segredo cedo de mais. Que segredo? Não sei bem não; e eu que não descubra, senão endoido também. Mas esse povo fica mesmo chorando pra lua, e alguns desejam as estrelas antes de se conformar com qualquer coisa que seja. Esse tipo de loucura é bonito de mais, não gosto nem de pensar que até me dá uma arrepio. Não é à-toa que esse cara rondou que nem um fantasma o grupo durante toda a carreira: o fantasma da beleza da loucura dele talvez até mesmo tenha sido o que manteve essa banda tão unida por tantos anos. Vai saber. Mas meu doido preferido é o Van Gogh mesmo, que deixava até de comer pra comprar tinta, e que chegou, mesmo vivendo na completa miséria, a uma época em que pintava um quadro por dia, tendo em casa uma prostituta que ele achou na rua e chamou pra ser sua esposa, e além disso abrigou junto a mãe e o filho dela, que claro não era dele. Ou então o irmão dele, o Theo, que mesmo sabendo disso tudo ainda mandava dinheiro pra ele viver. Isso sim é coisa de doido. 

Pois é, nosso Fausto, que nunca bateu muito bem, mas também que nunca percebeu isso, percebera agora, porém não sabia muito bem o que fazer com essa loucura. De começo deu pra soltar umas frases desvairadas no meio da noite nos bares, as quais ninguém entendia nada; coisas do tipo: “Se a vida fosse bela, as mulheres não teriam cheiro; em vez disso teriam cheiro as madrugadas.” Ou então: “Não sei se me achei jogado no lixo ou se me joguei no lixo pra me sentir um pouco limpo.” Mas a que mais gosto é esta história daqui, ó: “Mijei em cima do meu cobertor e falei pra mãe que foi o cachorro. Ela não entendeu nada, pois o cachorro nunca entra dentro de casa; aí quando ela se conformou que foi o cachorro mesmo, eu contei que era eu.” E ria, mas ria que nem uma criança quando contava essa história. Nunca soube se era verdadeira, mas acho que não, pois ele tinha um respeito danado pela Arminda. Sei que ele gostava dessa história, e repetiu ela, só pra mim, pelo menos duas vezes. Ih rapaiz, já comecei a querer conhecer o nosso moço, já comecei a querer me intrometer na história. Narrador é foda, né? Não consegue se conter no seu lugar. Se contém aí, intrometida. 

E foi assim que nosso Fausto ficou doido. Começou a usar maconha, ácido, cocaína e mais algumas drogas que lhe apareciam pela frente. Dona Arminda começou a ficar preocupada, mas achou meio normal; ela era meio doida também. Achava que o filho só tava desiludido e ia sair dessa daí há um pouco. Mal sabia ela que ia durar muito mais do que qualquer um imaginava. O garoto ficou mal, mas mal mesmo. Já era magro, depois disso emagreceu uns 4 quilos; ficou que nem um espantalho. Não dormia direito, foi demitido do trabalho, só sabia falar frases malucas de efeito que nem essas que citei. Mas eram frases geniais, não sei se perceberam, mas elas tinham um sentido bem preciso, só que no contexto que ele falava ficava parecendo que era só um desvairado querendo chamar atenção. Talvez fosse isso mesmo, mas a verdade é que gosto das frases e das histórias sem pé nem cabeça desse rapaz, talvez porque compartilhe bastante do sentimento dele. 

Depois disso ele pegou a mania de fazer confusão na cabeça das pessoas; ele já gostava antes, mas depois disso ele começou a fazer tal coisa o tempo todo, de forma desenfreada, em qualquer lugar, com as pessoas mais inapropriadas. Ele falava uma coisa aqui e depois outra lá. Que nem: ele defendia um cantor por tais e tais motivo, e no dia seguinte falava que odiava o cantor por tais e tais motivos outros. O pior é que o filho da puta dava argumentos tão convincentes para os dois lados que quem ouvia achava que era ele mesmo que tava ficando doido, e não o Fausto. Talvez fosse, né? Mas o que ele mais gostava de fazer era ir falando umas coisas bonitas pras meninas que ele tava pegando, até ir fazendo-as concordar com o que ele tava falando, e aí começar ela mesmo a falar o que ele falara. Ia fazendo isso um pouco pela lógica, quando a garota era um pouco inteligente, e somente pela estética do discurso quando ela era meio burra. Aí quando ele via que garota tava completamente na dele e na do discurso, desdizia tudo e falava que tava só sendo irônico, que não concordava com nada daquilo que ele mesmo dissera antes e, consequentemente, com nada do que ela tava dizendo. A menina ficava meio que com cara tacho, achando que tinha acreditado naquela baboseira toda só pra concordar com ele (talvez fosse mesmo). Normalmente a menina ficava tão desconcertada que não sabia nem mais como mover as mãos; ficava meio paralisada, só olhando distante, sentindo o vazio que tudo aquilo lhe causava. Esse foi um momento importante pra algumas mulheres, um momento no qual entravam em contato com o vazio mais extremo de sua existência: o vazio da discordância consigo mesma mediante um homem possível de amar. Ah esse vazio, esse vazio nenhum homem nunca vai saber o que é. Mas então, algumas dessas mulheres voltavam dessa situação revigoradas, afastando o acontecido sutilmente e esquecendo imediatamente o que tinha ocorrido; como um mecanismo de defesa. Já outras endoidaram com ele... É, ele fez muita mulher ficar meio doida viu, vos digo, fez mesmo. Isso é bom, as mulheres hoje em dia são muito certinhas; mesmo as que se dizem mais modernas e atrevidas. 

Agora eu me perdi, dei pra ouvir Pink Floyd aqui na hora que falei da banda e ficou tudo confuso; aconselho que você faça agora uma pausa na leitura e coloque o álbum “The Piper at the Gates of Dawn” pra tocar e ouça um pouco, pra tentar entrar no clima, porque agora estou sentindo que o clima vai mudar: a partir de agora vai ser meio que no ritmo desse álbum: algo num tom meio apocalíptico, aflito e desenchavido. Faz o que te disse, pode valer a pena. Ou então continua lendo aí de boa, só não vai dizer que não avisei: pode ficar meio doido; uma pessoa virada, só de café no estomago, e ainda depois de ouvir parte desse disco, não pode escrever coisas muito entendíveis pra quem não esteja numa situação ao menos parecida com a minha ou com a desse rapaz. 

Continuemos. 

Deixa eu confessar uma coisa agora pra vocês. Eu me apaixonei por esse personagem, e vou ter que me intrometer na história antes que ele suma e eu nunca mais consiga amar ninguém. Foi assim que um dia cheguei em casa e vi um girassol na janela. Não entendi nada, quem poderia ter colocado um girassol na minha janela? Era o girassol mais bonito do mundo: grande e amarelo, mas ainda assim tímido. Com aquele miolo estranho se mostrando assim pra mim, bem na minha cara. Entendi nada. Peguei o dito cujo e coloquei num copo d´água. Sentei na frente dele, e com a mão apoiada no queixo fiquei vendo-lhe olhar pra mim: cabisbaixo, meio que com vergonha de tanta cor e espalhafatisse, meio que tímido de tanta pétala amarela desconjuntada. Foi então que num pulo levantei da cadeira e me lembrei: era ele, ele tinha colocado essa merda de flor estranha na minha janela. Descobri quando lembrei da frase: “um girassol misterioso na janela vale muito mais do uma vida toda juntos.” Eu não tinha entendido direito essa frase e então tinha meio que ignorado e esquecido. Sei que estávamos falando de uma casa no campo que meu pai tinha e ele soltou essa frase assim do nada. Daí eu entendi o que bem eu quis entender sobre a frase e deixei quieto; pois se perguntasse ele não falaria mesmo. E agora aquele girassol ali. Que quer dizer isso? Não sei. Perguntei pro girassol, mas ele era tímido de mais. Mas aqui estou começando do final, e é assim mesmo que tem que ser, pois prum sentimento avesso assim que nem esse que essa bosta desse homem me fez sentir, só começando de trás pra frente pra tentar colocar tudo pra fora. Teve um dia que escrevi bem assim pra coisa que senti depois da história toda acontecer: 



Ao contrário 
abismo ao contrário! 
As palavras não dão mais conta desse sentimento invertido
       da peste 
Ele é o avesso do infinito, 
reverso da paixão inconsolável de uma criança pela mãe! 
Implosão de fogos de artifício entrando pra dento do peito 
e o mundo todo socando o infinito pra dentro da a gente 

Como é que eu vou dizer isso que eu tenho pra dizer? 
Não sei nem como começar 
A verdade é que o lápis me condena 
Não sei ao certo como dizer 
Mas o lápis me sufoca 

Na real, essa história não tem começo, 
ela só tem fim:



Foi assim que essa estória toda começou, foi com esse poema. Maldito poema. Um poema pode acabar com a vida de um sujeito. Conversa séria. Um poema pode agir de forma tão poderosa que ele acaba virando uma entidade que persegue a gente pelo resto da vida, obrigando a gente a viver quase que inteiramente só pro poema. Tem poema que é tão bonito, mas tão bonito, que tem gente que perde a vida por causa dele, ou até mesmo tira a própria vida, por não agüentar o peso abissal que o poema trouxe. A sedução da beleza de um poema é muito maior do que a sedução do ser humano mais sedutor. É uma carga tão pesada de esperança, sonhos, desejos, sexualidade, ambições, contenções e coisas divinamente bonitas que a gente não consegue mais tirar ele da gente, de modo que ou a gente ou ignora ele trabalhando e formando família pra fazer ceia de natal e dar bom dia todo dia, ou se entrega pra ele e fica doido. Às vezes ler um poema é como vender a alma pro diabo: ele te dá o que você quer, mas em troca você tem que dar é a sua alma pra ele. É assustador mesmo. Se você nunca percebeu, pára pra perceber, lembra dos poemas que já leu e diz se sua alma não foi vendida pra nenhum deles. Se não foi, acho melhor até você parar de ler isso aqui, senão é capaz de não entender nada daqui pra frente. 

Pois é, pra esse poema torto e escalafobético é que vendi minha alma. Veja você, vendi minha alma pra um poema que eu mesma fiz. Mas a verdade é que esse poema foi feito com o sangue daquele lá, do demônio: foi feito com sangue do Fausto. Desde esse poema tenho sempre um sabor vidro e corte na boca e a vida nunca mais foi a mesma. Quando eu o escrevi eu tava na cama com outro, justamente pra esquecer do Fausto. Foi então que ouvi um estalo na rua e acordei num pulo. Levantei às pressas e fui na alta-madrugada prum postinho comprar três latão de Itaipava pra conseguir colocar aquilo tudo pra fora; e foi quando comecei a escreve e fumar como uma doida, toda descabelada, de olheiras um pouco só menores a de agora, que escrevi num caderno, à luz de velas e com o sangue cheio de Itaipava e nicotina, essa coisa esdrúxula aí que você acabou de ler e que nunca mais me deixou em paz. Depois desse poema dei que ia ser música. Tentei, tentei, fiz uma música, duas, mas nenhuma delas trazia ele pra fora. Toquei minha guitarra com tanta força que meus dedos chegaram a sangrar. Nem assim. Ouvi música igual uma desesperada, na esperança de alguém conseguisse colocar numa música, ou em várias músicas postas em uma seqüência, esse sapo pra fora da minha garganta. Inútil, tudo inútil. Só tá funcionando mais ou menos agora, com eu igual uma desvairada teclado freneticamente desde 3 da madrugada até agora, uma hora da tarde, só pra tentar explicar o que que esse poema quis dizer mas não disse e nem nunca vai dizer. Explicar o que o poema não disse e ainda saber que não vou conseguir dizer... Coisa de doido mesmo. Eu to ficando é doida. Mas o pior é que é assim mesmo. Pois esse poema tem a ver com o infinito, com o não ter uma casa; tem a ver com a ciganaria, com o nomadismo e com os andarilhos. Esse poema fala é de uma imensidão tão imensa que não se deixa conter num poeminha que quer se fazer aparecer. Se eu quiser me colocar acima desse poema, ele foge de mim, escorrega como água entre os dedos e eu nunca mais conseguirei amar! Por isso Fausto é o culpado de tudo, foi ele quem me trouxe o sentimento pra escrever esse poema, justamente porque ele próprio não se coloca acima de nada: porque ele nunca se coloca acima do sentimento que moveu e costurou esse poema, porque ele sabe melhor do que ninguém que eu tenha conhecido até hoje que pra além desse sentimento só tem o cheio de uma vida sem nada, só tem o concreto, o cimento, a casa, a carne, uma mulher só linda, um homem que não sabe amar o impossível. Pra além dele tem só a morte em vida. E é por ele saber disso tão bem sabido, ou seja, sem ter consciência, sem saber que sabe, só sabendo e vivendo isso tudo, foi que eu me apaixonei por esse demônio. A verdade é que eu não me apaixonei pelo nosso Fausto, eu me apaixonei foi pela vida! Porém, foi através da pujança e inquietude desse homem que eu relembrei de todo o inferno e loucura que eu tinha escondido bem guardado dentro de algum lugar sabe-se lá onde! Foi ele, com essas frases malucas, com essa mania de me fazer acreditar e desacreditar, com esse me levar para o abrigo mais aconchegante e depois me mostrar que estou na verdade é abandonada numa jangadinha em alto-mar, que eu relembrei disso tudo. 

É, não sei se deu pra sacar a tensão da coisa, mas se deu, você percebeu que é coisa séria, sentimento que pega na sente e não sai nunca mais. Agora eu to passando mal, não sei se pela fome ou se por não ter dormido, vou ter que dar uma pausa. Continua ouvindo disco do Pink Floyd que eu não to agüentado não. Acho que é a estória que ta me fazendo mal. Tenho que respirar. Mas me aguarde, por favor, preciso de você pra terminar de tirar esse pedaço de ferro das minhas costelas. Interstellar Overdrive. 

Tem um clipe do Pink Floyd (da música Arnold Layne), no qual eles ficam carregando um boneco de plástico: montam e desmontam o boneco, carregam-no entre eles como se fosse um vivo, brincam com ele, carregando-no pra lá e pra cá. Parece que é o boneco que une os quatro integrantes; parece que é aquele boneco morto, sem movimento, inerte, que faz com que eles se movimentarem e se prendam um aos outros. Esse poema é aquele boneco em forma de letra, e eu estou aqui carregando ele pra lá e pra cá, montando e desmontando-o, brincando com ele, mas sozinha. E pra me prender a quem? A ninguém! Porque nem a mim mesma ele faz eu conseguir me prender. Pra quê estou carregando esse boneco inerte sozinha, pra lá e pra cá? Maldito Fausto! Bendito seja Fausto, não fosse ele ter aparecido, eu seria o bom-senso. Mas, maldito!, pois agora eu tenho que materializar, em tudo que eu fizer, esse beijo que a loucura me deu numa madrugada de um verão infernal quando eu pensava inocente que a loucura era coisa de doido.

Mas deixa eu voltar do início, se não fica confuso de mais. Não que não seja confuso; confuso é mesmo, mas alguma coisa pra ser entendida precisa ao menos de um pouco de ordem, pois mesmo quando a gente fala da total desordem, pra conseguir mostrá-la tem que partir do que tá claro. Desculpa se eu fico na especulação das idéias às vezes, é que o academicismo de vez em quando me pega pela gola e me estrangula nesse mar de merda. Mas assim, do começo então: 

16 de abril de 2012

Eterno quintal

Noite infinita, desfez-se num beijo
Amanhecendo num imenso solar
Quintal sombrio me trouxe o fraquejo
de um gosto seco e salgado a jorrar

Sei que talvez ficaria no alento
Da voz suave que abriu meu sonhar
Mas mal sabia, era só um momento
foi se escondendo em seu retornar

Fui embora, porém, 'inda trago comigo
Sonhos desvairados do acreditar
daquele quintal que me trouxe o abrigo
dos sonhos com algo que nunca será

Eterno quintal onde em fim decidiram
num gole-cachaça a me exagerar
Linda madrugada, quintal escondido,
decide pra mim o que já deveria ter sido:
quero cantar.

11 de abril de 2012

Uma curta história para relembrar o coração

Era uma vez um rapaz cujas bandas favoritas da adolescência eram Mudhoney e Sonic Youth. Seu pai sempre lhe dizia: "Meu filho, você ainda é novo, quando crescer vai gostar de MPB e de música clássica. Isso aí é coisa da juventude; jovem é assim mesmo: rebelde." Esse rapaz nunca acreditou nisso e sempre pensou estar livre da maldição do pai. Porém, não se sabe bem porquê, ele foi deixando aos poucos o Sonic Youth e o Mudhoney de lado e a cada vez mais foi tocando guitarra de modo mais calmo, até começar a tocar violão e largar completamente a guitarra. Hoje em dia você pode encontrá-lo em casa à noite, após o trabalho de bancário, ouvindo Chico Buarque e Tom Jobim, e depois tocando tristonho em seu violão uma música perdida em seus sentimentos aflitos e melancólicos. Nunca mais se apaixonou esse menino. Era um bom menino, juro pra vocês, tinha talento pra ser feliz. Mas sua paixão ficou lá, perdida nos riffs tortos de uma canção que nunca foi tocada. 

10 de abril de 2012

Incipit comoedia!

A filosofia já não me condena ao sustento do incerto que sempre conteve minha alma inteira enquanto ela se despedaçava. Tudo está certo de mais, previsível, arrumado e embasbacado com firulas de uma lógica incapaz de se retirar da mediocridade e voar até o infinito da vida. Ela virou instrumento ou, na melhor das hipóteses, estudo "psicológico" sobre a "alma" de alguns homens. (Psicológico entre aspas, pois me refiro à psicologia de Nietzsche e Dostoiévski, claro! E alma entra em aspas pois me refiro a um tipo de comportamento humano que às vezes se repete e parece criar uma essência.) Chega dessa merda toda, desses argumentozinhos pra provar, explicar, esconder, segurar ou afirmar qualquer coisa que seja. A filosofia agora é pra mim estudo sobre a "alma" humana, tal como qualquer outra coisa. Cansei da filosofia clássica, mesmo a de Nietzsche e Heidegger; só a literatura e a música talvez ainda consigam salvar alguma coisa do que sobrou nessa minha paixão desvairada por sabe-se sei lá o quê. Um rapaz olhou pra si no espelho e disse: "Não importa o quanto me olhe nessa máscara de luz, nunca conseguirei saber o que se esconde por trás dessa carcaça de reflexos tão precisos." Dois anos depois ele olha novamente pra esse mesmo espelho e diz: "Seu idiota! Larga de ser burro! Mas que ladainha é essa que você andou fazendo. Não há nada para além disso aqui! Larga a mão de ser chato!" Incipit comoedia!

Finado Leitão

Finado Leitão,

Se você ainda lê esta porra: saiba que estou com saudades e que não esqueci do seu modo belchioriano da violência calma do sentir não; nem dos seus desenhos e seus textos tortos e geniais; nem da vontade demasiada de viver compartilhada e quase-contida nas bebedeiras, madrugadas e conversas em ruas e calçadas. Que tua filha Clarice esteja bem, e você bem com ela e tua esposa. Uma homagem pra ti:


"Quando eu não tinha o olhar lacrimoso
que hoje eu trago e tenho
Quando adoçava meu pranto e meu sono
no bagaço de cana do engenho
Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus
fazendo eu mesmo o meu caminho
por entre as fileiras do milho verde
que ondeia, com saudade do verde marinho

Eu era alegre como um rio
um bicho, um bando de pardais
Como um galo, quando havia...
quando havia galos, noites e quintais
Mas veio o tempo negro e a força fez comigo
o mal que a força sempre faz
Não sou feliz, mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais"


Um abraço, grande amigo!

31 de março de 2012

Uma história sem começo

Ao contrário
abismo ao contrário!
As palavras não dão mais conta desse sentimento invertido
       da peste
Ele é o avesso do infinito,
reverso da paixão de uma criança pela mãe!
Implosão de fogos de artifício entrando pra dento do peito
e o mundo todo socando o infinito pra dentro da gente 

Como é que eu vou dizer isso que eu tenho pra dizer?
Não sei nem como começar 
A verdade é que o lápis me condena
Não sei ao certo como dizer
Mas o lápis me sufoca

Na real, essa história não tem começo,
ela só tem fim: 

26 de março de 2012

Desejo de infinito

Me cansei de esperar pela vida; ela não virá. Um dia quis ser levada pela vida como pelos braços do homem que nunca amei. Mas se não dá pra ter nem um homem pra amar, como é que dá pra ter uma vida que nos leva? A vida não leva ninguém. Se o Heidegger tivesse em vez de ter se envolvido com o nazismo, envolvido-se com o alcoolismo, ele saberia muito bem disto: manda quem obedece, porém só vive quem deseja o infinito. 

20 de março de 2012

Deixa o samba morrer

Entenda bem: se você não mora no morro você não é sambista, meu rapaz. Esquece o samba revival! Deixa o samba morrer!

16 de março de 2012

Compromisso

Numa noite escura de um verão infernal fiz um compromisso com a solidão através dos olhos vazios de um rapaz. Desde então saio pra festejar o nada, caminho pelas ruas sozinha. Não sei pra onde vou e mesmo assim espero ainda algo encontrar. Luzes respiram minha alma, fumam e bebem minha eterna solidão em tragos fortes. Meios-fios cambaleiam em minhas pernas. E o luar... o luar que não se vai. O infinito me persegue pelos becos até eu me perder embriagada dentro um bar qualquer onde uma menina olha um grupo de homens jogar sinuca. Minha alma se esvai com a dela pela caçapa, chega até a gaveta num barulho e a gente respira. "Onde está a vida!? Onde está a vida!!?" Pergunto desesperada para o cara ao lado. (Pausa) A verdade é que dei um trago longo de mais... Só os fumantes e alcoólatras podem entender.

4 de março de 2012

Winterkurs

Diese winter kam wie ein starker Wind
Wir könnten nicht erwarten
Er kommt ohne Frage, stark und geschwind
Drängte sich in Haus und Garten

Und die Bäume tanzen mit dem Wind die Melodie,
die ich niemals schrieb

Jetzt kommen wir züruck nach Hause
Unserer Herz ist voll und das Leben leer
Was machen wir mit dieser Welt?