Quando encontrar alguém que entenda sem eu precisar dizer, levar-lho-ei a um chão que cause preguiça de mais para que consigamos levantar. Assim poderei me encontrar dentro desse outrem que se encontrará dentro de mim e, enfim, ficar calada por toda a eternidade.
10 de dezembro de 2006
10 de setembro de 2006
2 + 2 = 4
Ela se construiu baseada em algumas atitudes premeditadas, assim como qualquer outro humano. Odeia a sentimentalidade de quem não sabe racionalizar, falsa sentimentalidade. Mas se esse ser sentimental chegasse e lhe dissesse: "Pobre ser racional, que fica aí a se esconder dos próprios sentimentos dentre esse vazio de racionalidades... Tens medo." De certo ela ficaria pasma e compartilharia dessa opinião. Ela já não se agüenta muito bem sobre as pernas, seu raciocínio é tão lento que ela nunca se assusta. Os ombros e o pescoço já não suportam o peso de sua cabeça, por isso ela a apóia em sua mão e pensa: "Que infantilidade escrever em terceira pessoa..." Mas foi a forma ela encontrou de sair de si mesma e se observar de um outro ângulo que não seja tomado pelos sentimentos e que reafirme sua suposta racionalidade. Conhecer a si mesmo traz amarguras, ou as amarguras trazem o auto-conhecimento? Ela não sabe. Está confusa, consegue se enxergar em cada pessoa que se aproxima.
14 de julho de 2006
Conceitos de barro
Contente vem de contentamento (susto). Ela aprecia o caos, mas está preocupada, pois pode estar atormentando alguém que não necessita tormenta. Se uma teoria dela estiver correta (o que um humano causa em outro humano é o mesmo que este causa naquele), ela está fazendo um grande mal a alguém que, supostamente, vivia em paz. Ela agüenta firme e respira quando a dor é causada por ela nela mesma, mas, resta saber se ela suportará confirmar sua teoria e saber que o seu inferno pessoal pode influenciar em outros; que o seu caos pode criar um caos ainda maior, nela e em outra pessoa que se aproximar muito. Talvez devesse andar com uma placa: "Cuidado, não se aproxime muito: alta taxa transmissível de caos e empatia desordenada".
20 de fevereiro de 2006
Métodos do caos
Ela sonhou ser um pássaro que se jogou do penhasco mais alto que encontrara e, cheia de incertezas, parou de bater as asas e sentiu um aperto no peito que só lhe fazia bem. O mau gosto era todo dela. Sentiu o vento lhe varrer a suposta alma como se fosse extravasar a qualquer momento. E a dor era tanta que só lhe fazia bem. Acordou de pé e viu a si mesma sonhando que estava caindo, conseguia ao mesmo tempo viver de pé e viver de queda. E a angustia era tanta que só lhe fazia bem. Andava sozinha dentre a multidão enquanto caia incessantemente. E o caos era tanto que só lhe fazia bem. Quando o chão se aproximou ela abriu bem as asas e, num rápido desvio, voou até o penhasco novamente para repetir o mesmo processo de masturbação da alma. Mas o medo já não era o mesmo. Foi então que começou a viver para achar métodos mais eficazes que lhe propiciassem mais sofrimento. Estava viciada em dor. E a perda era tanta que só lhe fazia bem. Morreu da certeza de que ia morrer, mas sentindo uma dor insuportável — que só lhe fazia bem.
1 de fevereiro de 2006
Perder-se não é caminho
Deixou enfim de acreditar nas mentiras contadas por ela mesma e tomou, num só gole para dentro de si, a idéia de que a dor nunca passará. Concluiu e aceitou, enfim, que não ama ninguém, assim como ninguém a ama, mas que é necessário. A espera que é a esperança se transformou numa vontade de desconstrução, cujo conceito é surpreendentemente diferente de destruição. Enquanto os outros falavam em destruir ela pensava em desconstruir, e quando lhe diziam que estava desanimada, não se importava em explicar — mais uma vez para si mesma em silêncio — que estava conformada. Enfiou cada palavra que seria dita para dentro de si e gritou! Gritou tão alto e com tanta força dentro de si que fez do silêncio a sua casa e dessa casa um turbilhão. Encontrou na dor um aconchego e nesse aconchego a solidão. A partir de então ela poderia fazer o que quisesse da sua vida, mas havia um problema, ela não sabia o que queria fazer dela. Foi então que temeu seguir perdida... por toda a eternidade.
25 de janeiro de 2006
A deslembrança do aconchego
De tanto tentar lembrar a deslembrança do abraço que ocorrera na noite passada, acabou tendo devaneios. O abraço deslembrado lhe faltava, era como se ela sentisse saudade de algo que não ocorrera. Tudo estava estranho: quando achava que o choro estava chegando percebia que não, e quando pensava que o sono havia se tornado presente, notava que estava sonhando acordada. Tudo doía de forma tão incomum que ela supôs ter encontrado o modo de machucar a alma. Com aquela dor insuportável ela se afundou dentro de si mesma e não sabia mais diferenciar o real do surreal, às vezes se atrapalhava trocando o nome das coisas, chamando dor de alma e alma de corpo, céu de inferno e inferno de terra. Um dia lhe ocorrera de esquecer do próprio nome e até mesmo se confundir pensando na própria existência, sem conseguir distinguir se ela existia mesmo ou se perdera-se nos tantos devaneios que tivera e acabara por se tornar o fruto de sua própria imaginação. E de madrugada ela tentava entender como podia sentir um pouquinho da alma de outra pessoa dentro de si e ter falta de um abraço que ela não se lembrava de fato, mas que, assim sendo, podia idealizá-lo e fazer dele um suporte para outra suposta realidade.