20 de fevereiro de 2006

Métodos do caos

Ela sonhou ser um pássaro que se jogou do penhasco mais alto que encontrara e, cheia de incertezas, parou de bater as asas e sentiu um aperto no peito que só lhe fazia bem. O mau gosto era todo dela. Sentiu o vento lhe varrer a suposta alma como se fosse extravasar a qualquer momento. E a dor era tanta que só lhe fazia bem. Acordou de pé e viu a si mesma sonhando que estava caindo, conseguia ao mesmo tempo viver de pé e viver de queda. E a angustia era tanta que só lhe fazia bem. Andava sozinha dentre a multidão enquanto caia incessantemente. E o caos era tanto que só lhe fazia bem. Quando o chão se aproximou ela abriu bem as asas e, num rápido desvio, voou até o penhasco novamente para repetir o mesmo processo de masturbação da alma. Mas o medo já não era o mesmo. Foi então que começou a viver para achar métodos mais eficazes que lhe propiciassem mais sofrimento. Estava viciada em dor. E a perda era tanta que só lhe fazia bem. Morreu da certeza de que ia morrer, mas sentindo uma dor insuportável — que só lhe fazia bem.