20 de fevereiro de 2006

Métodos do caos

Ela sonhou ser um pássaro que se jogou do penhasco mais alto que encontrara e, cheia de incertezas, parou de bater as asas e sentiu um aperto no peito que só lhe fazia bem. O mau gosto era todo dela. Sentiu o vento lhe varrer a suposta alma como se fosse extravasar a qualquer momento. E a dor era tanta que só lhe fazia bem. Acordou de pé e viu a si mesma sonhando que estava caindo, conseguia ao mesmo tempo viver de pé e viver de queda. E a angustia era tanta que só lhe fazia bem. Andava sozinha dentre a multidão enquanto caia incessantemente. E o caos era tanto que só lhe fazia bem. Quando o chão se aproximou ela abriu bem as asas e, num rápido desvio, voou até o penhasco novamente para repetir o mesmo processo de masturbação da alma. Mas o medo já não era o mesmo. Foi então que começou a viver para achar métodos mais eficazes que lhe propiciassem mais sofrimento. Estava viciada em dor. E a perda era tanta que só lhe fazia bem. Morreu da certeza de que ia morrer, mas sentindo uma dor insuportável — que só lhe fazia bem.

1 de fevereiro de 2006

Perder-se não é caminho

Deixou enfim de acreditar nas mentiras contadas por ela mesma e tomou, num só gole para dentro de si, a idéia de que a dor nunca passará. Concluiu e aceitou, enfim, que não ama ninguém, assim como ninguém a ama, mas que é necessário. A espera que é a esperança se transformou numa vontade de desconstrução, cujo conceito é surpreendentemente diferente de destruição. Enquanto os outros falavam em destruir ela pensava em desconstruir, e quando lhe diziam que estava desanimada, não se importava em explicar — mais uma vez para si mesma em silêncio — que estava conformada. Enfiou cada palavra que seria dita para dentro de si e gritou! Gritou tão alto e com tanta força dentro de si que fez do silêncio a sua casa e dessa casa um turbilhão. Encontrou na dor um aconchego e nesse aconchego a solidão. A partir de então ela poderia fazer o que quisesse da sua vida, mas havia um problema, ela não sabia o que queria fazer dela. Foi então que temeu seguir perdida... por toda a eternidade.