15 de dezembro de 2009

Oração do escritor apaixonado

Que o ideal de beleza e intensidade que possuo não desvalorize o que tenho, mas valorize e instigue a busca por mais beleza e intensidade naquilo que me pertence. Que meus anseios mais veementes por imagens longínquas e extraordinárias me façam amar isso que a vida dá ao meu redor, mesmo quando parece tudo tão chato. Que eu compreenda sempre a beleza de estar não estando e de me sentir apaixonada somente por aquilo que remeta a algo grande de mais para existir. Que a negação que eu faça da vida seja somente em benefício de sua afirmação. Que a esperança sempre esteja a me perseguir, o desconhecido à minha espreita e o infinito em meu horizonte. Que a vida sempre seja essa glória e essa dor, e que permita sempre eu me relacionar dessa forma tão magnânima com ela através das palavras!

Nós

Você e eu no carro indo para a praia, o sol está indo em direção ao poente e, brando, passeia no topo das palmeiras na beira de estrada. Sinto o vento bater em minha face ao mesmo tempo em que balança seus cabelos. Seu sorriso está leve, como sempre, mas há nele um brilho que ainda eu não vira; vem em mim límpida a certeza de que eu realmente gosto de você. Eu estou tranqüila e sinto que você também está. Nós estamos conversando sobre assuntos agradáveis que, não me lembro porque, ocasionam um assunto desagradável, que não deveríamos falar sobre. Eu começo ficar um pouco angustiada, mas peço que mesmo assim continuemos conversando sobre aquilo. Eu tento não me aborrecer e me manter entretida com meus pensamentos, mas chega um momento em que não consigo suportar. Não sei o que aconteceu comigo, eu não conseguia respirar, tudo ao meu redor parecia atar meus pés, minhas mãos, me prender por inteiro. Calamo-nos, sabíamos que tinha muito mais sobre aquele assunto a ser dito, porém, não podíamos dizer. Você, já bastante apreensivo, pára o carro longe da estrada, encosta no capô e fuma um cigarro. Eu não sei explicar até hoje o que vi naquela hora, olhando você frente àquele céu púrpuro, iluminado por aquela luz fraca de fim de tarde, fumando de um jeito que abandona o mundo. Eu não conseguia saber se você esta vindo ou partindo, se eu gostava ou não de você. Tudo foi me deixando mal de mais para que eu pudesse continuar ali. Meus pensamentos estavam em um turbilhão tão grande que eu pergunto gritando: o que está acontecendo comigo?! Você faz uma cara de desprezo, balança a cabeça em sentido negativo – como quem se mostra desapontado – se afasta do carro e me dá as costas. Eu percebo que não conseguirei mais agüentar, o mal-estar se torna grande de mais, começo a sentir um aperto tamanho no estômago. Eu saio andando e encontro um orelhão, ligo para a rodoviária e pergunto o horário do próximo ônibus. Eu me odeio de um modo que ninguém imagina.

(Esse aforismo é uma interpratação da música you, her and me, da Nina Nastasia) 

O eterno desconhecido

Era noite, ela estava deitada na cama com as luzes apagadas. Os faróis dos carros que passavam na rua refletiam e passeavam pela sua parede em luz fraca. Ela teve vontade de se levantar. Permaneceu imóvel. Sentiu uma força tamanha vindo de dentro de si e que a empurrava para fora, para todos os lados, para além de si, para além daquele lugar, daquela hora. Depois de alguns minutos se levantou e ainda na penumbra foi até a cozinha e bebeu um copo d’água. Olhou pela janela, a cidade parecia agitada, e ela mesma também estava agitada, mas de um modo bem diferente do da cidade. Acendeu uma vela e encheu um copo de com vinho. Bebeu toda uma garrafa. Teve vontade de sair. Vestiu seu vestido mais bonito, se pintou, calçou os sapatos e... quando olhou pela janela viu que estava chovendo. Quis desistir. Teve vontade de chamar alguém para sair com ela, mas ela era sua de mais naquela noite... Apagou a vela, abriu a porta com cuidado. Sentia um frio no estômago, iria novamente rumo ao desconhecido, entretanto ela sabia, encontraria somente o conhecido. Pegou um táxi.

De dentro do carro dava para observar a chuva caindo nas poças e as luzes dos faróis e semáforos refletindo no asfalto e nessas poças. Alguém mais além dela teria percebido como a cidade estava colorida e cheia de vida naquela noite? Alguém mais sentia aquele frio no estômago, aquela coragem de viver, aquela vontade de dançar, de encontrar o indecifrável, de se apaixonar? "Certamente", pensava ela, "mas onde... onde!?" Teve vontade de encontrar alguém obscuro, misterioso, impenetrável, indesvendável... Chegou ao bar. Era um lugar fechado, escuro e bonito, pouco iluminado. Algumas pessoas dançavam, outras apenas olhavam, outras apenas bebiam. Gostou de estar ali. Era estranho, ela não se sentia sozinha, era como se alguém estivesse ao seu lado a guardado, aguardando. Sentou-se no balcão. Permaneceu. Bebeu. Bebeu. Bebeu. Voltou para casa com o dia raiando, acompanhada de nenhum desconhecido. Do carro dava pra ver, seria dia de sol, céu azul intenso com poucas nuvens. Teve vontade de ir à praia. Desceu na praia, tirou os sapatos e caminhou com os pés na areia por alguns minutos. "Onde estarão os guerreiros nesse mundo onde a guerra é proibida?" — se perguntou. Voltou a pé para casa. A luz da manhã era suave e a rua estava quase deserta. As árvores a convidavam para ficar, mas ela tinha de respeitar o convite de sua cama.

Entrou em casa silenciosamente, tomou um banho morno, vestiu seu pijama, fechou a cortina, se aconchegou na cama e dormiu imediatamente. Sonhou que o desconhecido estava a sua espreita, esperando ela ficar desatenta, a fim de surpreendê-la na sua hora mais silenciosa. Ele estava em cima e baixo da sua cama, espalhado pelas janelas e pelas suas roupas. Sentia-o em todos os lugares, a todo o momento: em sua pele, dentro da geladeira, no seu prato de comidas. Ele estava prestes a aparecer em sua forma personificada quando... o relógio tocou. Três e meia da tarde. Esperava um beijo, mas possuía somente aquele frio idiota na barriga de quem tem fome de perigo mas tem somente uma casa, um vazio, conceitos inadequados de algo que procura mas não sabe o que é. Estava melancólica, mas ainda assim feliz, pois o desconhecido esteve a sua espreita a noite toda; ela sabia, um dia ele apareceria quando ela estivesse mais desprevenida, a levaria enfim para longe de toda essa monotonia e a permitiria consumar seu desejo mais profundo: o de sempre renovar seus desejos quando eles se enfraquecem. Ela aguarda pacientemente: um dia o desconhecido entrará pela sua janela e a levará para o lugar mais bonito em que já esteve e, desde então, sempre que ela se sentir morta, ele reaparecerá para levá-la a outros lugares ainda mais bonitos e desconhecidos, a outros horizontes cada vez mais belos. Enquanto isso ela caminha sozinha e esperançosa, sempre encontra algo extraordinário que a faça amar a vida, mas no fundo ela consegue sentir a força do seu desejo mais secreto e poderoso, o seu desejo mais íntimo e instigador de todas as suas ações: o desejo da companhia do eterno desconhecido.