25 de janeiro de 2006

A deslembrança do aconchego

De tanto tentar lembrar a deslembrança do abraço que ocorrera na noite passada, acabou tendo devaneios. O abraço deslembrado lhe faltava, era como se ela sentisse saudade de algo que não ocorrera. Tudo estava estranho: quando achava que o choro estava chegando percebia que não, e quando pensava que o sono havia se tornado presente, notava que estava sonhando acordada. Tudo doía de forma tão incomum que ela supôs ter encontrado o modo de machucar a alma. Com aquela dor insuportável ela se afundou dentro de si mesma e não sabia mais diferenciar o real do surreal, às vezes se atrapalhava trocando o nome das coisas, chamando dor de alma e alma de corpo, céu de inferno e inferno de terra. Um dia lhe ocorrera de esquecer do próprio nome e até mesmo se confundir pensando na própria existência, sem conseguir distinguir se ela existia mesmo ou se perdera-se nos tantos devaneios que tivera e acabara por se tornar o fruto de sua própria imaginação. E de madrugada ela tentava entender como podia sentir um pouquinho da alma de outra pessoa dentro de si e ter falta de um abraço que ela não se lembrava de fato, mas que, assim sendo, podia idealizá-lo e fazer dele um suporte para outra suposta realidade.