29 de dezembro de 2005

Primeira parte

Os dois freqüentavam os mesmos lugares, se conheciam de vista e apreciavam a aparência um do outro. Mas esse tipo de beleza já havia trazido amarguras de mais em suas vidas, por isso não a davam nenhum valor. Eram desprovidos de um sentimento chamado esperança, não por nunca tê-lo tido, mas por não suportarem a certeza de que ele deriva da palavra espera, gerando assim uma acomodança com as coisas da vida. Gostavam de se mover como bem entendiam, dotados da capacidades de poder optar o que viver. Eram de poucos colegas, alguns até mesmo em comum; quantos aos amigos, esses eram inexistentes.

A cada vez que um via o outro tentavam esconder de si mesmos o interesse. Ambos já haviam se machucado de mais idealizando, com isso se tornaram tão realistas e racionalistas que não conseguiam mais acreditar em seus próprios sentimentos. Mas a vida, todo desprevenida e exata que é, os juntou, e nem mesmo eles poderiam imaginar o quanto lhes custariam aceitar que não era preciso racionalizar.

Foi numa noite quente de verão que se encontraram em um bar. Um em cada extremidade do balcão, bebendo as mesmas bebidas de sempre, com o mesmo jeito taciturno e tímido de olhar para tudo e para nada ao mesmo tempo, evitando o encontros dos olhos descautelados. Ele, sem querer, olhava para ela e reparava em sua beleza, gostava da sua aparência tristonha, mas logo continha-se e deslocava seu pensamento. Conseguia fazer isso com tamanha facilidade, por causa da prática constante. Já ela, tentava não olhar para ele em nenhum momento, pois diferentemente dele, achava melhor prevenir do que remediar. Mas ela não podia evitar em reparar o seu jeito de andar quando ele se levantava, era tão perspicaz que lhe ocorria de se esquecer de onde estava por um momento, mas logo em seguida ela deslocava seu pensamento tal qual ele fizera, com a mesma facilidade. Era como a história do gato que de velho já não caçava, e do rato que por medo das tantas perseguições do passado se trancafiara dentro da toca. Ambos acomodados em suas solidões.

Foi por um amigo em comum que eles se aproximaram e se sentaram lado a lado, e foi lá que o balcão, antes extenso, se tornou muito pequeno quando o amigo os deixou a sós. Eles não disseram nada, o incomodo era tanto que se levantaram na mesma hora e toparam-se de frente como há tanto evitaram. Ele lhe deu licença e ela se foi. Quando ela já estava na saída do bar, sem conseguir evitar a lembrança da imagem das belas mãos dele e em seguida de seu olhar curioso, sentiu-se estremecer com um toque firme em seu braço. Era como se uma força apertasse cada célula de seu corpo, entendendo antes mesmo de se virar o que havia ocorrido: a situação embaraçosa que passara há pouco no balcão teve como conseqüência uma bolsa esquecida, que como conseqüência ocorrera do rapaz segui-la para a entrega. Não houve uma só palavra, ele mostrou a bolsa, ela a pegou, ambos muito embaraçados. Ela se vai.

No percurso para casa lhe vem um nó na garganta e ela tenta se lembrar de algo engraçado para não chorar, em vão. Ele permanece um instante parado no mesmo lugar, até que volta para o bar procurando algo para se entreter e não pensar na textura do braço dela, inutilmente. Ele terminou a noite embriagado. Ao se deitarem para dormir ambos pensaram um no outro. A velocidade das lembranças era maior do que qualquer capacidade de criação barreiras para se esconderem de seus próprios sentimentos. A vontade do toque não pode ser evitada. Assim, dormiram com lembranças de coisas que nunca ocorreram. Ela sonhou que ele estava a abraçando em vez de entregar-lhe a bolsa, passando as mãos em suas costas como se a consolasse por uma perda. Ele sonhou que acordou com ela deitada ao seu lado, nua. Os dois acordaram sentindo um medo tão grande de algo que não conseguiam chegar nem perto do conceito em palavras.

A noite chegou novamente e ela não se conteve e saiu. Ele, tranqüilamente, ouvindo música em casa, pretendendo permanecer quieto até que o sono chegasse, lembrou-se daquela textura e teve uma vontade incontrolável de senti-la, não mais em seus dedos apenas. Ele saiu de casa.

O incomodo era tamanho no bar, eles se preocupavam tanto em fugir um do outro que quando se perderam de vista se sentiram tão sozinhos, lembrando do toque firme, da textura, a fuga dos olhares e seus encontros desprevenidos, que começaram a procurar um pelo. Se encontraram num tropeço de olhares e ficaram estáticos por alguns segundos e logo em seguida caminharam um em direção ao outro. Se abraçaram e ela começou a chorar, e ele a abraçava passando as mãos em suas costas, tal qual ocorrera no sonho. A tal força apertando suas células chegaram a picos tão agudos que ela não conseguia parar o pranto, e ele, estranhamente, sentia como se aquilo já ocorrera antes, como se aquele abraço já tivera sido dado. Foi então que ele começou a prestar atenção no cheiro que vinha dela, era tão agradável que ele se esqueceu que existia por instantes. O choro cessou quando ela sentiu o nariz e a face dele se aconchegando em seu pescoço. Sentindo aquela textura ele moveu levemente a boca até a extremidade do ombro dela e depois até parte fronteira do pescoço subindo em direção a boca. Eles acariciam o rosto um do outro, até que as bocas se encontram. As mãos já não sabiam mais pra onde iam, eles não sabiam nem onde estavam ou quem eram, se encaixaram tão perfeitamente que foi como se fossem um só, foi como se a felicidade e as tristeza chegassem a picos extremos ao mesmo tempo. Eles não conseguiam mais saber quem era quem, ou se estavam vivos ou mortos.

Ele acordou de manhã tendo a certeza de que a encontraria nua, como no sonho, mas a única coisa que ele achou foi o cheiro dela impregnado nos lençóis e por toda a casa e a lembrança de uma pele que parecia lhe faltar, como se a tivessem arrancado do corpo dele. Doía-lhe todo o corpo, ela lhe faltava como se fosse um órgão.

1 de novembro de 2005

A verdade

Nem mesmo sabíamos o que queríamos de nós, tudo vinha tão automático em nossas mentes que mal podíamos explicar o que sentíamos. Nós não estávamos embriagados da felicidade, nem mesmo tristes, talvez pasmos com tal verdade que cobrira nossos olhos. Monotonamente chateados por enxergar que nossa eureca já havia sido descoberta antes com beleza e simplicidade tão supremas, que sentimo-nos envergonhados. Olhávamos um para o outro e não conseguíamos explicar o que havia acontecido. O brilho nos olhos ainda estava ali, mas significava mais que nada apenas. Em nossas monótonas vidas, que um dia foram mais monótonas, sentíamos a liberdade nos prender com cordas de aço e afastar-nos uns dos outros, mas ainda amando. A tristeza, ao mesmo tempo que parecia vir verdadeira, era falsa e confortante, tal qual a felicidade. A beleza das coisas vinha em nossas mentes de forma inconsciente e ilusória. Agora tentávamos olhar o feio e encontrar nele algo novo para nos refugiar, pois a beleza se tornara chata.

31 de julho de 2005

Não é amor

Adeus amor
não nos veremos mais
Enquanto o sol se pôr
nós iremos pra casa

Mas lembre-se de mim ao dormir
E quando acordar de madrugada
com vontade de abraçar
não chore, apenas volte a dormir
pois eu farei o mesmo

Quando sentir o coração descabido
forte pulsante
não se preocupe, amor, não é amor
é apenas medo
Volte a dormir.

4 de julho de 2005

Decodificação

Ela abriu os olhos mais uma vez e soube que viveria algo que já viveu. Abriu a porta como sempre abrira e não viu o céu. Sentiu o mundo pesar em suas costas quando veio chegando a noite. Desaguou quando foi preciso e se reconstruiu em sua própria correnteza. Ela não viu com nitidez, mas o tempo passou e ela ficou velha. Ela não viu as flores, não viu nada. Seu cérebro foi decodificado: uma escrava de si mesma. Deitou na cama e dormiu antes mesmo que sua cabeça encostasse no travesseiro. Abriu os olhos, recomeçara tudo de novo.

14 de junho de 2005

Bom-bons com gosto de plástico

Ela se deitou em sua cama e ficou vendo de lá as luzes de sua caixinha mágica colorida se mexer de acordo com a música, iluminando todo o quarto de forma melancólica. Ela nunca soube direito o que viera fazer aqui. Ela mataria por reconhecimento, se mataria por reconhecimento. Há dois minutos ela achava que podia alcançar as estrelas, mas, apesar de terem brilho próprio, elas eram de plástico. Sentiu um gosto amargo em sua boca que nunca passara, queria estar ao lado de alguém que a dissesse que estava tudo bem e enxugasse suas lágrimas quando ela começou a chorar. Porém ela estava perdida na casa vazia, apenas com sua ilusão presa dentro de sua cabeça. Na verdade era ela quem estava presa em sua ilusão.

11 de junho de 2005

"Sleep alone"

Amanhã de manhã vamos pegar o trem das nove e ir para algum lugar onde não nos possam encontrar. Vamos sair daqui e, ao menos por alguns dias, passear um pouco. Conhecer lugares novos, gente nova. Ver o dia ficando escuro sem que tenha toda essa luz. Vamos fingir que a vida é perfeita e nos divertir. Ir a qualquer lugar que nos faça rir descontroladamente e esquecer completamente do que somos, ao menos por algumas horas. Deixar que meu corpo e minha alma possam repousar em seus braços, sem que tenhamos de nos esconder um do outro, de nós mesmos. E num beijo... me perder no mais profundo sono, de onde acordarei sentindo o cheiro de seus cabelos, com o sol brando batendo na pele, aquecendo cada movimento-abraço feito por nós. Ouvindo apenas o barulho das coisas, a respiração de corações que já não batiam mais, fingindo que somos felizes e que amamos. Depois voltaremos pra casa com os pés doendo e a cabeça leve, e iremos dormir sozinhos, como se tudo fosse verdade.

27 de maio de 2005

A conversa imaginária com um amor idealizado

Numa conversa ele descreveu seu dia para ela de forma extremamente bela. Ela tentou fazer o mesmo, como num belo filme, no qual as câmeras focalizam tudo na hora certa e tudo parece mágico, mas ela não conseguiu; ela não soube dirigir seu filme. Ele disse que a beleza está nas pequenas coisas e ela concordou, entretanto ela não havia vivenciado para compreender. Para ela pequenas coisa eram apenas pequenas coisas, não conseguia ver além disso. Foi então que ela percebeu que suas mãos estavam vazias e que ela não tinha nada a dar àquele generoso garoto que a ensinava dirigir sua vida. A trilha sonora estava ali e os acontecimentos ocorriam de acordo com que se tornavam passado, a cada microssegundo. Mas ela não podia sentir seus braços envoltos na barriga dele, deitados na cama vendo as estrelas pregadas no teto, sentindo o cheiro das coisas. As mãos dela ficaram tremulas, sentiu que tudo era uma farsa; que o cabelo que ali estava sendo acariciado era nada mais do que um favor. Ela não podia ouvir o coração dele, nem dormir em seus braços, mas ele conseguia fazer com que tudo aquilo se tornasse mágico, sem nem mesmo estar. Ela sabia que era uma farsa, mas queria a qualquer custo vivenciá-la.

15 de maio de 2005

A bailarina da corda bamba

Ela subiu sem nenhuma sutileza e começou a se equilibrar na corda. Todos lá embaixo a olhavam com olhos de dúvida, mas ela ia bem, sofreu alguns desequilíbrios, mas ia bem. Com muito esforço ela conseguiu chegar até um ponto louvável da corda, porém houve um momento em que ela percebeu algo estranho, um peso em suas costas. Prestando mais atenção ela conseguiu saber que eram asas, mas ela não as podia ver; era uma ilusão. Ela tentava se concentrar, mas as asas pesavam e pareciam muito reais. Chegou uma hora em que ela não agüentou mais: ela já estava quase na metade da corda e sabia que qualquer desequilíbrio a derrubaria; suas asas eram de mentira e ela sabia disso, mas a vontade de sentir seus pés livres era grande de mais para suportar. Ela quis voar e acabou fazendo de toda a sua luta uma perda. Eles fofocavam lá embaixo: "como ela pode desistir por um motivo tão besta?". Parecia que só ela sabia o significado de tudo aquilo.