Os dois freqüentavam os mesmos lugares, se conheciam de vista e apreciavam a aparência um do outro. Mas esse tipo de beleza já havia trazido amarguras de mais em suas vidas, por isso não a davam nenhum valor. Eram desprovidos de um sentimento chamado esperança, não por nunca tê-lo tido, mas por não suportarem a certeza de que ele deriva da palavra espera, gerando assim uma acomodança com as coisas da vida. Gostavam de se mover como bem entendiam, dotados da capacidades de poder optar o que viver. Eram de poucos colegas, alguns até mesmo em comum; quantos aos amigos, esses eram inexistentes.
A cada vez que um via o outro tentavam esconder de si mesmos o interesse. Ambos já haviam se machucado de mais idealizando, com isso se tornaram tão realistas e racionalistas que não conseguiam mais acreditar em seus próprios sentimentos. Mas a vida, todo desprevenida e exata que é, os juntou, e nem mesmo eles poderiam imaginar o quanto lhes custariam aceitar que não era preciso racionalizar.
Foi numa noite quente de verão que se encontraram em um bar. Um em cada extremidade do balcão, bebendo as mesmas bebidas de sempre, com o mesmo jeito taciturno e tímido de olhar para tudo e para nada ao mesmo tempo, evitando o encontros dos olhos descautelados. Ele, sem querer, olhava para ela e reparava em sua beleza, gostava da sua aparência tristonha, mas logo continha-se e deslocava seu pensamento. Conseguia fazer isso com tamanha facilidade, por causa da prática constante. Já ela, tentava não olhar para ele em nenhum momento, pois diferentemente dele, achava melhor prevenir do que remediar. Mas ela não podia evitar em reparar o seu jeito de andar quando ele se levantava, era tão perspicaz que lhe ocorria de se esquecer de onde estava por um momento, mas logo em seguida ela deslocava seu pensamento tal qual ele fizera, com a mesma facilidade. Era como a história do gato que de velho já não caçava, e do rato que por medo das tantas perseguições do passado se trancafiara dentro da toca. Ambos acomodados em suas solidões.
Foi por um amigo em comum que eles se aproximaram e se sentaram lado a lado, e foi lá que o balcão, antes extenso, se tornou muito pequeno quando o amigo os deixou a sós. Eles não disseram nada, o incomodo era tanto que se levantaram na mesma hora e toparam-se de frente como há tanto evitaram. Ele lhe deu licença e ela se foi. Quando ela já estava na saída do bar, sem conseguir evitar a lembrança da imagem das belas mãos dele e em seguida de seu olhar curioso, sentiu-se estremecer com um toque firme em seu braço. Era como se uma força apertasse cada célula de seu corpo, entendendo antes mesmo de se virar o que havia ocorrido: a situação embaraçosa que passara há pouco no balcão teve como conseqüência uma bolsa esquecida, que como conseqüência ocorrera do rapaz segui-la para a entrega. Não houve uma só palavra, ele mostrou a bolsa, ela a pegou, ambos muito embaraçados. Ela se vai.
No percurso para casa lhe vem um nó na garganta e ela tenta se lembrar de algo engraçado para não chorar, em vão. Ele permanece um instante parado no mesmo lugar, até que volta para o bar procurando algo para se entreter e não pensar na textura do braço dela, inutilmente. Ele terminou a noite embriagado. Ao se deitarem para dormir ambos pensaram um no outro. A velocidade das lembranças era maior do que qualquer capacidade de criação barreiras para se esconderem de seus próprios sentimentos. A vontade do toque não pode ser evitada. Assim, dormiram com lembranças de coisas que nunca ocorreram. Ela sonhou que ele estava a abraçando em vez de entregar-lhe a bolsa, passando as mãos em suas costas como se a consolasse por uma perda. Ele sonhou que acordou com ela deitada ao seu lado, nua. Os dois acordaram sentindo um medo tão grande de algo que não conseguiam chegar nem perto do conceito em palavras.
A noite chegou novamente e ela não se conteve e saiu. Ele, tranqüilamente, ouvindo música em casa, pretendendo permanecer quieto até que o sono chegasse, lembrou-se daquela textura e teve uma vontade incontrolável de senti-la, não mais em seus dedos apenas. Ele saiu de casa.
O incomodo era tamanho no bar, eles se preocupavam tanto em fugir um do outro que quando se perderam de vista se sentiram tão sozinhos, lembrando do toque firme, da textura, a fuga dos olhares e seus encontros desprevenidos, que começaram a procurar um pelo. Se encontraram num tropeço de olhares e ficaram estáticos por alguns segundos e logo em seguida caminharam um em direção ao outro. Se abraçaram e ela começou a chorar, e ele a abraçava passando as mãos em suas costas, tal qual ocorrera no sonho. A tal força apertando suas células chegaram a picos tão agudos que ela não conseguia parar o pranto, e ele, estranhamente, sentia como se aquilo já ocorrera antes, como se aquele abraço já tivera sido dado. Foi então que ele começou a prestar atenção no cheiro que vinha dela, era tão agradável que ele se esqueceu que existia por instantes. O choro cessou quando ela sentiu o nariz e a face dele se aconchegando em seu pescoço. Sentindo aquela textura ele moveu levemente a boca até a extremidade do ombro dela e depois até parte fronteira do pescoço subindo em direção a boca. Eles acariciam o rosto um do outro, até que as bocas se encontram. As mãos já não sabiam mais pra onde iam, eles não sabiam nem onde estavam ou quem eram, se encaixaram tão perfeitamente que foi como se fossem um só, foi como se a felicidade e as tristeza chegassem a picos extremos ao mesmo tempo. Eles não conseguiam mais saber quem era quem, ou se estavam vivos ou mortos.
Ele acordou de manhã tendo a certeza de que a encontraria nua, como no sonho, mas a única coisa que ele achou foi o cheiro dela impregnado nos lençóis e por toda a casa e a lembrança de uma pele que parecia lhe faltar, como se a tivessem arrancado do corpo dele. Doía-lhe todo o corpo, ela lhe faltava como se fosse um órgão.