Somente os tolos são felizes: foi a forma que encontrei de tornar minha tristeza menos desesperadora. Ver por debaixo, o escondido, o secreto, o podre, parece ser essa a função de minha existência. Sentir na aparente inocência, ou na aparente nobreza de um comentário qualquer, o mau cheiro, todos os cálculos maliciosos, conscientes ou inconscientes, que há por traz dele. Sentir o fedor de meus próprios comentários e ações, saber de tudo o que se passa em minha mente de ruim que me leva a pronunciar algumas palavras, praticar algumas ações. Perceber essas coisas não poderia gerar outra coisa senão ânsia de vômito para comigo e com todos os outros, uma vontade enorme de não me pronunciar em público, de não ouvir o que os outros têm a dizer. Criou-se assim em mim uma vontade de expor minhas malícias, meus cálculos frios, minha velhacaria, maquiavelismo, estrategismo sujo! para que a náusea diminua, já que as conversas se tornariam ao menos um pouco mais francas e suportáveis. É a forma que me sinto livre: expondo meus cálculos e o de outras pessoas. Porém, isso magoa, fere a liberdade do outro que se sente livre na ignorância sobre toda essa malícia que escondemos em nós. E guardar faz mal, ah... como faz mal. Não o simples guardar, mas o pensar o cálculo que uma pessoa fez ao agir de certa forma e não dizer-lhe; é como falar mal dela pelas costas. Como faz mal não conseguir conversar total francamente com as pessoas sem magoá-las, sem fazer com que elas sintam nojo de mim; talvez o mesmo nojo que sinto por elas não saberem enxergar quão velhaco somos nós, humanos... Como causa mal estar não poder ser totalmente verdadeira com as pessoas que mais estimo. É por saber que irei magoar que guardo, e se guardo, sinto estar falando mal das pessoas pelas costas; tudo isso me faz sentir tamanho mal estar. O saber enxergar a malícia não é exatamente o que gera o mal estar, mas sim o saber que ninguém quer ouvir o que de mais franco e nobre eu tenho a comunicar, que nenhum ser quer conversar sobre o que mais gosto de ouvir e falar. A franqueza é a pior qualidade que alguém pode possuir, pois ela faz um mal irremediável unicamente à pessoa que a possui. Quem é franco sempre fica só, pois o que todos querem ouvir é o consolador, o anestesiante, e a verdade nem sempre traz em si essa função. Todos, mas não eu, garanto-lhe, não eu...