Tenho tido vontade de dançar... de ser perpassada por um ritmo tão intenso que me leve ao cúmulo da inconsciência. Vontade de, em um fluxo voluptuoso e alucinante, perder meu corpo e derramar-me completamente na realidade. Tenho tido vontade de parar de sentir a consciência se fazendo a cada microssegundo, vontade de inocência. Quero voltar com o sujeito para o seu lugar de origem: o corpo. Quero sentir antes de saber. Quero dançar, dançar até sentir o vigor de todas as coisas agindo sobre o meu corpo, sentir cada célula do meu corpo exigindo movimento, devir, fluxo, vida. Quero escancarar toda a sensualidade que sempre reprimi, deixar-me ser possuída pela beleza que sempre desacreditei. Quero assumir minha lascívia e sublimá-la na dança. "Deus está no rádio"!
21 de setembro de 2009
A jovem idealista
Zaratustra estava a caminhar no sol brando da manhã em terras planas quando, próximo a um campo florido, encontrou uma jovem aos prantos. Zaratustra perguntou então a jovem o que havia acontecido, e ela respondeu:
– Fui enganada pelas imagens, pela beleza daquilo que quero ser e não consigo, desejei ser algo que vi no horizonte nebuloso de meu futuro e abandonei tudo o que tinha para sê-la, mas não posso, não sou capaz... Agora permaneço doente de saudade daquilo que abandonei e de desejo por aquilo que idealizei. Sou uma impotente, sei que não conseguirei parar de desejar essa imagem absurda que fabriquei de mim, terei para sempre uma vontade de nada.
Zaratustra olhou bem para a jovem e falou espantado:
– O que estás a dizer, jovem idealista?! Não tens “vontade de nada” quando anseias o futuro, a terias se desejasse ser algo que não podes ser. Se pensas que não consegues atingir o que idealizas é porque, quando consegues te tornar aquilo que antes idealizastes, já possuis um outro ideal que te impulsionas a superar também o que já conquistaras; tu sempre idealizas algo melhor para si, mesmo quando já conseguiu realizar o seu máximo, é disso que vem o sentimento da incapacidade. Entenda, esse sentimento não prova que és incapaz, mas somente que permaneces sempre andando na corda que está entre o que foste e o que queres ser. Tu já superaste muito de ti mesma e estás, neste momento, a te superar; não és, pois, incapaz, apenas permaneces na angustia da vontade de crescimento. Acalma-te, alma insatisfeita, aprenda a satisfazer-se com aquilo que ganhou, deseja mais somente depois que aprendestes a amar aquilo conseguistes e necessitas, e aprendas a deixa para trás, sem culpa, aquilo que tens certeza de que não podes continuar possuindo. O que tens é uma vontade de superação de ti mesma, não tenhas dúvida disso; quem tem vontade de se superar está sempre com fome de si mesmo. Pára de choramingar e tenha coragem para enfrentar a perda necessária que há quando se deseja algo desse tipo. Coragem, solitária idealizadora daquilo que queres ser! Aprenda a ter as mãos vazias! És mulher, por isso, teu caminho é ainda mais árduo que de um homem aspirante a auto-superação; já que fostes ensinada a ser escrava e, devido as circunstâncias de sua época, aconteceu de desejar a auto-superação e, assim sendo, não consegues te desprender da sensação de que és impotente e da vontade de agradar os outros. Não tenhas medo de ser o que tu és: teu maior desejo não é agradar os outros, e sim agradar o teu homem; então, atenha-se a isso, mantenha-se sempre na preparação para a chegada do homem que te tornará mais ti mesma. Por enquanto, não receeis não agradar ninguém, mesmo que por esse motivo permaneças por longo tempo sozinha a caminhar em um deserto. Se te ressentes com o mundo por ele não te compreender, aprenda a compreender o mundo; tu és mulher e, por isso, a compreensão está nas suas qualidades mais nobres! Idealiza e luta daqui para frente somente pelo que te pertence. Tu vieste do vale, bem sei, por isso ainda não sabes lidar com o horizonte em terras tão planas como estas, pois aprenda: o horizonte não é esse demônio que há pouco disseras, ele é somente todas as possibilidades; tu terás somente que estar sempre na busca pela possibilidade que te tornarás mais ti mesma, mais forte. Entretanto, lembra-te, tu és uma mulher, sendo assim, atenha-te a isso e nunca tente tomar para si o modo de ser forte de um homem. Sabes muito bem que tua força está em tua delicadeza, desejar virilidade só trará ressentimento pelo que desejas e não podes ser; aí sim, terás vontade de nada. O que torna um outro forte poderá ser tua mais profunda doença e desgraça, então descubras por ti mesma o que te dá força, para assim ser mais plenamente; do contrário, será sempre um espelho retorcido de outrem que se fortaleceu pelos próprios meios.
Quando Zaratustra terminou suas palavras, a jovem já havia parado seu pranto. Ela disse-lhe:
– Eu chorava tanto porque era necessário, neste momento, me deixar levar ou pela futilidade ou pelo meu próprio, e cria, lamentando, não ter capacidade para continuar na busca de mim mesma em solidão, mas você me deu coragem, amigo, para seguir o caminho que me cabe.
– Zaratustra compreendeu bem o que a jovem dizia e seu peito se encheu de alegria. Ele lha falou: Aprenda a idealizar somente o possível e tenha orgulho daquilo que conquistou. Não tenhas medo de errar e possua nobreza o bastante para admitir que errou, só assim será possível se desprenderes daquilo que já está por demais maduro e sair novamente rumo ao desconhecido. Desse modo poderás lutar a cada vez por aquilo que queres ser.
Assim falou Zaratustra.
– Fui enganada pelas imagens, pela beleza daquilo que quero ser e não consigo, desejei ser algo que vi no horizonte nebuloso de meu futuro e abandonei tudo o que tinha para sê-la, mas não posso, não sou capaz... Agora permaneço doente de saudade daquilo que abandonei e de desejo por aquilo que idealizei. Sou uma impotente, sei que não conseguirei parar de desejar essa imagem absurda que fabriquei de mim, terei para sempre uma vontade de nada.
Zaratustra olhou bem para a jovem e falou espantado:
– O que estás a dizer, jovem idealista?! Não tens “vontade de nada” quando anseias o futuro, a terias se desejasse ser algo que não podes ser. Se pensas que não consegues atingir o que idealizas é porque, quando consegues te tornar aquilo que antes idealizastes, já possuis um outro ideal que te impulsionas a superar também o que já conquistaras; tu sempre idealizas algo melhor para si, mesmo quando já conseguiu realizar o seu máximo, é disso que vem o sentimento da incapacidade. Entenda, esse sentimento não prova que és incapaz, mas somente que permaneces sempre andando na corda que está entre o que foste e o que queres ser. Tu já superaste muito de ti mesma e estás, neste momento, a te superar; não és, pois, incapaz, apenas permaneces na angustia da vontade de crescimento. Acalma-te, alma insatisfeita, aprenda a satisfazer-se com aquilo que ganhou, deseja mais somente depois que aprendestes a amar aquilo conseguistes e necessitas, e aprendas a deixa para trás, sem culpa, aquilo que tens certeza de que não podes continuar possuindo. O que tens é uma vontade de superação de ti mesma, não tenhas dúvida disso; quem tem vontade de se superar está sempre com fome de si mesmo. Pára de choramingar e tenha coragem para enfrentar a perda necessária que há quando se deseja algo desse tipo. Coragem, solitária idealizadora daquilo que queres ser! Aprenda a ter as mãos vazias! És mulher, por isso, teu caminho é ainda mais árduo que de um homem aspirante a auto-superação; já que fostes ensinada a ser escrava e, devido as circunstâncias de sua época, aconteceu de desejar a auto-superação e, assim sendo, não consegues te desprender da sensação de que és impotente e da vontade de agradar os outros. Não tenhas medo de ser o que tu és: teu maior desejo não é agradar os outros, e sim agradar o teu homem; então, atenha-se a isso, mantenha-se sempre na preparação para a chegada do homem que te tornará mais ti mesma. Por enquanto, não receeis não agradar ninguém, mesmo que por esse motivo permaneças por longo tempo sozinha a caminhar em um deserto. Se te ressentes com o mundo por ele não te compreender, aprenda a compreender o mundo; tu és mulher e, por isso, a compreensão está nas suas qualidades mais nobres! Idealiza e luta daqui para frente somente pelo que te pertence. Tu vieste do vale, bem sei, por isso ainda não sabes lidar com o horizonte em terras tão planas como estas, pois aprenda: o horizonte não é esse demônio que há pouco disseras, ele é somente todas as possibilidades; tu terás somente que estar sempre na busca pela possibilidade que te tornarás mais ti mesma, mais forte. Entretanto, lembra-te, tu és uma mulher, sendo assim, atenha-te a isso e nunca tente tomar para si o modo de ser forte de um homem. Sabes muito bem que tua força está em tua delicadeza, desejar virilidade só trará ressentimento pelo que desejas e não podes ser; aí sim, terás vontade de nada. O que torna um outro forte poderá ser tua mais profunda doença e desgraça, então descubras por ti mesma o que te dá força, para assim ser mais plenamente; do contrário, será sempre um espelho retorcido de outrem que se fortaleceu pelos próprios meios.
Quando Zaratustra terminou suas palavras, a jovem já havia parado seu pranto. Ela disse-lhe:
– Eu chorava tanto porque era necessário, neste momento, me deixar levar ou pela futilidade ou pelo meu próprio, e cria, lamentando, não ter capacidade para continuar na busca de mim mesma em solidão, mas você me deu coragem, amigo, para seguir o caminho que me cabe.
– Zaratustra compreendeu bem o que a jovem dizia e seu peito se encheu de alegria. Ele lha falou: Aprenda a idealizar somente o possível e tenha orgulho daquilo que conquistou. Não tenhas medo de errar e possua nobreza o bastante para admitir que errou, só assim será possível se desprenderes daquilo que já está por demais maduro e sair novamente rumo ao desconhecido. Desse modo poderás lutar a cada vez por aquilo que queres ser.
Assim falou Zaratustra.