Você e eu no carro indo para a praia, o sol está indo em direção ao poente e, brando, passeia no topo das palmeiras na beira de estrada. Sinto o vento bater em minha face ao mesmo tempo em que balança seus cabelos. Seu sorriso está leve, como sempre, mas há nele um brilho que ainda eu não vira; vem em mim límpida a certeza de que eu realmente gosto de você. Eu estou tranqüila e sinto que você também está. Nós estamos conversando sobre assuntos agradáveis que, não me lembro porque, ocasionam um assunto desagradável, que não deveríamos falar sobre. Eu começo ficar um pouco angustiada, mas peço que mesmo assim continuemos conversando sobre aquilo. Eu tento não me aborrecer e me manter entretida com meus pensamentos, mas chega um momento em que não consigo suportar. Não sei o que aconteceu comigo, eu não conseguia respirar, tudo ao meu redor parecia atar meus pés, minhas mãos, me prender por inteiro. Calamo-nos, sabíamos que tinha muito mais sobre aquele assunto a ser dito, porém, não podíamos dizer. Você, já bastante apreensivo, pára o carro longe da estrada, encosta no capô e fuma um cigarro. Eu não sei explicar até hoje o que vi naquela hora, olhando você frente àquele céu púrpuro, iluminado por aquela luz fraca de fim de tarde, fumando de um jeito que abandona o mundo. Eu não conseguia saber se você esta vindo ou partindo, se eu gostava ou não de você. Tudo foi me deixando mal de mais para que eu pudesse continuar ali. Meus pensamentos estavam em um turbilhão tão grande que eu pergunto gritando: o que está acontecendo comigo?! Você faz uma cara de desprezo, balança a cabeça em sentido negativo – como quem se mostra desapontado – se afasta do carro e me dá as costas. Eu percebo que não conseguirei mais agüentar, o mal-estar se torna grande de mais, começo a sentir um aperto tamanho no estômago. Eu saio andando e encontro um orelhão, ligo para a rodoviária e pergunto o horário do próximo ônibus. Eu me odeio de um modo que ninguém imagina.
(Esse aforismo é uma interpratação da música you, her and me, da Nina Nastasia)
(Esse aforismo é uma interpratação da música you, her and me, da Nina Nastasia)