12 de junho de 2011

O fim do rock'n roll

O melhor ocorrido na música dos últimos tempos foi que rock'n roll conseguiu se separar do "'n roll". Mas não só isso, melhor ainda: mais atualmente, o principal acontecimento na música foi o rock ter chegado a seu fim e dado vazão ao nascimento do que chamamos de post-rock, juntando alguns antigos elementos do rock com elementos da música clássica e das músicas regionais tradicionais (que talvez possamos chamar de folk tradicional). Da mesma forma que Heidegger nos diz que houve o fim da filosofia, podemos dizer que houve o fim do rock. O rock chegou a um ponto no qual esgotou todas as suas possibilidades de articulação, e o que acontece dentro de suas possibilidades agora é somente uma repetição daquilo que já foi feito. As bandas de hoje que ainda tentam manter o título "rock", o fazem apenas por um tradicionalismo barato e, principalmente, por preguiça. Vejo que a enorme maioria dos artistas que mais merecem consideração, ou seja, que fazem música pela música, quer dizer, pela necessidade não utilitarista de se fazer arte, têm uma influência abissal do rock, mas estão bastante longe do lema "sexo, drogas e rock'n roll", e de qualquer clichê ligado a esse âmbito cultural e tecnicamente musical; para ser mais clara: estão longe de clichês ligados à cultura de libertinagem e vício em drogas do rock, assim como ao campo harmônico e estrutural das melodias de rock, incluindo também as letras das músicas. Essa cultura e estrutura vive somente como uma vaga lembrança: vive somente como a lembrança daquilo que um dia foi o nascimento de uma grande coisa, mas que hoje é somente moralismo. O rock teve seu fim, esgotou suas possibilidades e, com isso, deu lugar ao surgimento de coisas novas na música, que não conseguimos muitos rótulos ao tentar enquadrar; aliás, pelo contrário!, conseguimos rótulos de mais, e exatamente por isto: por serem tipos de música tão variados, a ponto de se tornar quase impossível rotular, surgindo assim nomes como lo-fi, math-rock, slowcore, e tantos, tantos outros. Hoje, por causa disso, a música está mais relacionada ao "experimental": ligando este termo à experiência: às experiências de criação de novos elementos depois de se ter visto quão repetitivo se tornou algo que um dia foi revolucionário. Hoje o rock'n roll é algo tão reacionário quanto qualquer tradição fortemente arraigada e que tende morrer e, por isso, não quer se deixar morrer, e desencadeia assim uma série de atitudes reacionárias, sejam elas conservadoras ou rebeldes (pois a rebeldia no rock já se tornou uma atitude tradicional). Talvez o rock seja ainda muito mais reacionário do que qualquer outro âmbito, pois é um reacionário que se esconde na máscara de libertário e despojado, quando, hoje em dia, é só preguiçoso e acomodado. O rock teve seu fim e nos libertou para o novo na música. É uma pena que a maioria desperdice esse fim e queria manter o rock a partir de um tradicionalismo que tenta fazer um "revival" das décadas passadas; com relação a isso conhecemos muitas bandas, não é mesmo? Talvez bandas de mais! Com relação ao que se diz hoje "rock" e está por aí exibindo suas carinhas bonitas na internet e na TV, acho que não preciso comentar muito, pois se sabe que isso é somente expressão de uma sociedade individualista, personalista e vaidosa de mais, que não consegue colocar a expressão artística acima do indivíduo, e desse modo nega a própria arte e afirma somente o indivíduo vaidoso e voluntarista, queredor da criação de sua própria imagem como o substituto de um Deus que já morreu. É picaratagem, sabemos, e nos serve somente como objeto de crítica. O fim do rock é algo bom, e deve ser assumido da maneira mais fecunda possível, e com isso quero dizer: deve ser trazido às claras e assumido como uma tarefa que se cumpre quase por obrigação; e digo "quase", por não ser uma tarefa totalmente necessária, mas que, ao mesmo tempo, se mostra como a única possibilidade de continuarmos de maneira suficiente e decente com isso que chamamos de música. Porém, destaco o seguinte, para deixar muito claro: não estou aqui apoiando as apelações para o experimentalismo extremo, pois muitos querem continuar com a preguiça, comum ao rock feito hoje em dia, com tentativas de músicas experimentais de mais e pouco artísticas: dando valor muito mais à fuga do tradicionalismo do que à arte mesma e, assim, de algum modo ainda mantendo o tradicionalismo: pois ir contra o tradicionalismo pelo seu oposto contrário é ainda estar dentro do tradicionalismo, já que se tira exatamente deste suas regras: assume-se as regras tradicionais apenas virando-as ao avesso; como se com isso se escapasse dessas regras, quando na verdade isso é estar mais do que nunca dentro delas. Lancemo-nos ao fim do rock, mas não caiamos na preguiça de afirmar que não é bom aprender teoria musical, de que não é legal ser um músico dedicado e competente. Sabemos, cuidado e esforço fazem parte da boa arte. E se me chamarem de tradicionalista por isso, respondo com calma a vocês, do "rock'n roll": os tradicionalistas são vocês, que querem manter um lema morto e que carregam atrás de si somente uma carcaça.