O "ser" foi esquecido, e isso não importa. Eu mesma fui esquecida, e isso, claro, importa menos ainda. Como diria um tal Kirilov: "isso me é indiferente". O esquecimento acontece de modo necessário, tal como diria o velho jovem Nietzsche, assim como a indiferença, tal concordaria nosso mais são suicida. Talvez nós, filósofos poetas, pessoas normais, sem Deus sem serem ateias, tenhamos de aprender a suportar o esquecimento e indiferença daquilo que mais lembramos e diferenciamos. Talvez nossa maior força esteja na assunção da fragilidade, indiferença e esquecimento de tudo que mais prezamos. Se Heidegger diria que o suporte é a diferença, digo agora que o suporte é a indiferença; e se Nietzsche diria que a pulsão principal é a busca por poder, digo que até agora a pulsão principal foi a fuga da simplicidade e insignificância da vida. Mas teríamos de continuar lidando assim? morando sempre nesta fuga? Seria esse o melhor modo de lidar com a morte de Deus? (Morte de Deus lê-se: fim de um grande sentido para as ações, início do fim do idealismo, início do fim do platonismo). Mas não seriam essas falas e perguntas elas mesmas um grande niilismo e, portanto, uma negação idealista do platonismo? uma negação platônica do platonismo? Talvez nunca possamos estar certos de quão niilistas somos nós, e talvez o modo de lida daquele que nunca sabe ao certo, seja o mais cabal dos niilismos, e talvez o mais cabal dos niilismos seja a única forma de suportar a falta completa de grande sentido e de, assim, conseguir estar pela primeira vez onde estamos. Ultimamente tenho morado em uma vontade de verdade niilista e ciente de sua fragilidade e ilusão, uma vontade de verdade que quer criar não para poder criar, mas que cria sem querer: cria apenas estando no mundo... Meu idealismo niilista agora é suportar a simplicidade e insignificância de tudo, e morar dentro de uma casa na qual se suporta cada imperfeição, cada rachadura na parede, cada enfeite ridículo; cada coisa. Começo a morar numa casa que há muito para mim fora construída, mas que nunca me permiti habitar: numa absoluta incompreensão de tudo, num idealismo realista; num entre! num durante sem método e com as regras mais absurdas já experimentadas; numa bagunça completa, onde não se gosta de quase nada, mas aceita-se quase tudo, e isso sendo: nem um homem de ação, nem um camundongo de consciência hipertrofiada; nem um conservador nem um revolucionário; mas uma pessoa. E nisso tudo uma solidão; uma solidão... que nem posso falar sobre, pois a reduziria a algo que alguém conhece, quando isso é indiferente, quando eu mesma escrevendo essas letras inúteis é completamente indiferente ao que quer que seja. Depois de 6 anos que a li, começo a compreender "a náusea" de Sartre.