"O que me possui é somente aquilo que absolutamente não se deixa possuir." Veja bem: só porque poucas coisas nos possuem, tentamos determinar o fundamento delas, pra tentar nos sentir seguros, crendo que sabemos de alguma coisa sobre aquilo que nos possui. Mas a verdade é que nada sabemos sobre isso, e nem devemos na verdade, pois, são elementos de mais, e mesmo que conseguíssemos fazer uma análise suficiente a respeito disso, ela seria sempre provisória, pois outros elementos, novos elementos apareceriam no durante mesmo da análise. Tem que ser assim: "não se pode determinar o que nos possui, porque muitas coisas constam em algo que consegue nos possuir, e muitas coisas novas aparecem, de modo que é impossível determinar uma característica apenas como a principal e determinante." Dever ser assim com tudo, na verdade. Porém, aquilo que nos possui assusta, nos deixa inseguros de mais para conseguir suportar não saber o que existe ali e que nos faz sentir tão juntos a tal coisa. Mas temos que suportar. Senão ficamos nessa determinação só pra fugir da nossa insegurança, e assim perdemos muito tempo com teorizações inúteis, em vez de fazermos coisas mais importantes, como tirar aquela música no violão, ou ler outro livro daquele poeta, ou escrever a poesia para aquele sentimento, eu passear pelo parque, ou... qualquer coisa que seja no nosso gosto (pra não dizer agrado e ser mais formal e kantiano). Mas teorizar não é ruim (porque sempre tem gente que leva por esse viés e interpreta esse tipo de sentimento anti-teoricista como uma espécie de irracionalismo); então, teorizar é bom (no sentido moral mesmo, de levar à excelência) só que o mais legal é o seguinte: é sempre provisório, teorizar é sempre andar na corda bamba, é um eterno treinamento; nunca cessa, nunca tem fim, nunca permite a perfeição; a não ser a perfeição do ato, a do per-fazer completamente alguma coisa no enquanto daquilo que se faz; essa perfeição sim, essa, toda ação a qual nos integramos completamente permite.