Acho, sinceramente, que todo esse alarme contra a metafísica, toda essa tentativa de se colocar em uma perspectiva que não seja metafísica, que esteja sempre ciente de sua finitude, contingência e indiferença, é talvez por medo do poder que há em uma posição que se assume como "verdadeira". Talvez os anti-metafísicos tenham medo do poder que uma posição metafísica pode possuir: tenta-se tirar tal poder mediante a crítica desse tipo de posição que se pretende infinita, mas isso colocando o poder na mão deles mesmo, que tentam exercer poder mediante a crítica da metafísica, ou seja, mediante a própria metafísica, e isso sempre dizendo que isso não é metafísica. Pra mim isso é como falar mal do patrão pelas costas e depois ir lá lamber seus sapatos na hora do aumento; ou como reclamar da instituição em que se estuda ou trabalha enquanto se é o pior aluno ou o pior funcionário. Enfim, o que quero dizer é mais ou menos o seguinte: se a filosofia tem algum poder, é na crença de que ela pode superar, quer dizer, é na "crença" de que ela pode traçar algo infinito que esse poder consegue se sustentar. Se a filosofia virar uma espécie de literatura, de entretenimento pessoal que nunca pretende superar, ela perde poder social, e eu não posso considerar isso bom, pois, mesmo nazista, é Heidegger hoje quem mais nos atenta para os desastres da técnica, é hoje Nietzsche quem mais fala das desgraças do último homem, e isso significa: são eles que mantém nossa sociedade ciente de que não é tão fácil assim estar com a verdade. E não venham me falar que o perspectivismo de Nietzsche não influenciou algum destino, não pegou as rédeas depois que toda a Europa leu seus livros, pois eu sinceramente não acredito. Dá pra ver que essa onda esteticista que hoje assola o próprio Brasil, de alguma forma veio também da popularização de Nietzsche feita por alguns. Acho que é necessário aos filósofos terem algum tipo de poder na sociedade, nem que seja o poder de sempre mostrar a contingência do que se mostra como necessário e, com isso, apontar: há outra saída. Mas para isso é necessário que eles se achem possuidores de alguma espécie de verdade, nem que seja uma verdade tão peculiar como a de Heidegger: seu desvelamento. Mas posso estar bastante errada, entretanto assim agora se me aparece o que devo fazer com essa bagunça toda que esses anti-metafísicos arrumaram, bagunça essa que muito gosto, e que muito me diverte, claro, afinal, sem isso o que seria da metafísica? Talvez outro tipo de religião. No fundo, para bem pensar, tem-se de ser um pouco esse tipo anti-metafísico de vez enquando, entrar em crises profundas com a filosofia e considerá-la somente um grande erro teórico, para depois retornar rejuvenescido para esse tipo de conhecimento que, talvez, seja o mais estranho que a humanidade já experimentou. O grande problema que vejo é o de querer assumir uma posição rígida perante a metafísica, a saber, uma posição anti-metafísica, e falar como se a própria metafísica pudesse morrer e, além disso tudo, achar que se faz algum tipo de pensamento mais rigoroso, mais correto, mais justo talvez, que consiga se livrar da metafísica eximindo-lhe sua pretensão pública e política, algo que acho deveras absurdo. Vejo quase claramente que pedir pra um filósofo fazer filosofia como quem escreve um romance, é mandá-lo fazer literatura e matar a própria filosofia. Sinceramente, se pedissem isso pra mim eu mandaria cuidar de sua própria vida, pois se quisesse fazer literatura já o estaria fazendo; fico na filosofia porque gosto mais dela do que qualquer outro âmbito com o qual já lidei. E outra, sinto que há na filosofia uma pretensão política que talvez ela não possa se livrar, mas isso é especulação, assim como a seguinte frase: a verdade é que acho que os anti-metafísicos são tão metafísicos quanto todos os mais metafísicos, pois a metafísica parece algo constitutivo, que quanto mais se nega, mais se afirma. Finalizando, sinto algo estranho nesse tipo de discurso anti-metafísico, que aqui só atentei para tal, pois vejo como algo importante a ser investigado a fundo.