Seus cabelos se encontravam presos por um grampo em um coque feito com zelo, no entanto, frouxo. Ele o observava com cuidado, achando-o belíssimo sobre os ombros e pescoço pálidos da mulher que se encontrava a sua frente. Ele estava de frente para ela, no meio da sala, sentado em uma cadeira há alguma distância dela, talvez um passo largo. Ela estava sentada em uma pequena mesa à frente dele, virada de lado, de modo que ele conseguia ver apenas seu perfil. À direita dela existia uma parede e nela uma janela, que se encontrava quase que de encontro com o lugar onde ela estava, somente um pouco a frente, talvez três ou quatro palmos. Ela tentava se manter em uma postura adequada, mas parece que não conseguia. Enquanto isso bebia café em uma das velhas xícaras amareladas pelo tempo que ele conservara consigo.
- As xícaras são as mesmas.
- Sim, as mesmas.
- O café está bom, bem melhor. - Diz sem olhar para ele, fitando pela janela e se fingindo entretida com algo ao longe; estava bastante apreensiva, mas forjava relativamente bem certa tranqüilidade.
- Sim, esse é melhor. - Respondeu bastante calmo, observando apreensivo o coque, pois este parecia que a qualquer momento deslizaria e despencaria, desenrolando-se ombros a baixo.
Ele se encontrava na cadeira de modo confortável. Trajava roupas caseiras de verão: uma blusa de flanela branca e um calção brim, cinza já bem desbotado; isso mesmo apesar do tempo frio. Seus cabelos não tão curtos, lisos e pesados, se enredavam em grandes tuchos diferentes que pendiam para vários lados, e que mudavam de direção quando ele, talvez pelo espanto de tê-la novamente em casa depois de tantos anos, passava a mão pela cabeça se agarrando a um tucho de cabelo, e assim permanecia durante alguns segundos enquanto olhava para um lugar fixo sem ver nada, e depois soltava-o de um vez, como quem solta uma grande aflição. Ele possuía uma expressão séria, mas ao mesmo tempo um brilho infantil e calmo nos olhos. Ela continuava a fitar para além da janela, tentando se mostrar bastante segura; mas ela não conseguia enganá-lo.
Percebendo que seu coque cairia a qualquer momento, de repente tirou o grampo e sentiu seus cabelos longos, finos, quase dourados, despencarem, frios, sobre suas costas aquecidas. Sentiu também o olhar dele para aquela queda que dificilmente seria por ele esquecida e que, durante muitos anos permaneceu com ele como um tesouro secreto, e isso mesmo muito depois de não mais conseguir se lembrar claramente da imagem.
- Bem, vim aqui para falar que voltei para a cidade, e vou ficar; e para tentar conversar com você. Mas como está ainda mais calado do que o de costume, acho que só me resta ir embora. - Falou levantando da cadeira.
- Ficar? Ficar para sempre? – Perguntou assustado levando junto com ela.
- Talvez. – Disse ela de pé ajeitando o vestido.
Ele se sentou novamente.
- Ando calado. Não é culpa minha, mas mesmo assim peço que perdoe-me.
- Não tem porquê. - Falou com o tom sério que mantivera o tempo todo desde que entrara, e irredutível no seu levantar-se da cadeira, permanecendo de pé, completou: - O importante é que está bem.
Andou em direção à porta. Ele a acompanhou, abriu a fechadura e lha fez uma reverência profunda. Ela respondeu com um sorriso educado e partiu.
- Mais um pouco de força para suportar sua fraqueza e ela permaneceria. Porque estou condenado a amar uma mulher que não consegue se entregar? Se ao menos eu pudesse demonstrar alguma coisa, dar a ela alguma certeza... mas se o faço ela se sente obrigada a se entregar, e se o faz por obrigação perde completamente o interesse: sente-se entediada e não consegue permanecer. Tem que descobrir tudo por si própria para conseguir permanecer, mas ao mesmo tempo não quer descobrir, pois gosta demasiadamente da angustia da dúvida. Talvez o que ela tenha amado em mim tenha sido acima de tudo essa angústia demoníaca a cerca de mim e dos meus sentimentos. A verdade é que ela consegue se entregar somente a essa dúvida estúpida! Por que fui gostar justamente de uma mulher apaixonada pela angústia e pela dúvida!? (Pausa) Pensando bem, isso diz muito sobre mim... – Pensava isso e várias outras coisas, logo após ela sair.
- Se me rendesse tudo estaria perdido, e nunca mais seria amada. Nunca poderei me entregar a ele, pois é um homem incapaz de suportar aquilo que se rende. É orgulhoso demais, necessita sempre da luta. - Pensava ela quase no mesmo momento.
- A impossibilidade do encontro, da permanência; o desejo banal, frívolo, voluptuoso pelo novo, pelo diferente: a incapacidade de suportar o tédio... isso tudo está de tal forma arraigado em nós que não se sabe mais como livrar-se desse desejo de devorar. A pusilanimidade, a incapacidade para o amor... é isso que nos persegue. - Pensava ele em voz alta, muito aturdido, sem saber pra onde ir, andando em círculos em sua minúscula sala, tentando entender como tudo aquilo acontece. Falava ainda:
- Não há mais o que fazer, não fomos feitos para isso que se chama permanecer. Mas por que então o desejo? Por que então permanece esse desejo de permanecer? Esse desejo concreto de algo completamente inconcreto, impalpável por essas mãos desejosas da eternidade. Como é difícil suportar o desejo pelo infinito! Mas é necessário, é necessário, tem de ser! Se não... senão... Meu deus, se suportar isso não for necessário, tenho medo, tenho medo do que possa acontecer!
Ele parecia já prever de algum modo o que aconteceria: naquela mesma noite ela escreveu um bilhete e tomou de uma vez só uma forte dose de veneno, que a matou muito rapidamente. Ela contava 36 anos, ele, 44. O bilhete continha as seguintes palavras:
“A mim não é mais possível crer que seja possível qualquer coisa: não posso me entregar a nada, não pertenço a qualquer lugar. Em mim corre apenas uma vontade vociferante por tudo aquilo que não posso ter. Nada mais me prende, nada mais me encanta como antes, pois já sei: o que quero nunca poderá ser – possuído.”
Descobriram logo o corpo, já que ela estava em um hotel. Ela foi encontrada debruçada sobre uma escrivaninha, com o mesmo vestido que trajava na visita da véspera, ao lado de um cinzeiro cheio que prendia o bilhete citado. A letra era de quem escreveu com mãos firmes, o que mostra que ela escrevera o bilhete antes do ocorrido, ou que estava de certo modo calma e, por assim concluir, decidida a respeito do que faria: ambos apontam para o fato de que foi premeditado.
Como as últimas chamadas de seu celular foram para ele, logo ligaram a fim de investigar e, assim, lhe comunicaram a morte.
Ele desligou o telefone imediatamente. Ficou tão horrorizado que não conseguia parar no mesmo lugar. Não conseguiu sentir nada: nem pena, nem saudade... apenas uma frieza extrema dentro de si, um grande vão. E era isso o que mais lhe aturdia: ele não conseguia nem mesmo ficar triste com a morte dela.
- Como ela não pode compreender, como pode não entender que havia algo que a possuía, e que esse algo era exatamente aquilo que não se deixa possuir! Como pode ela ser ingênua ao ponto de não perceber!? Como pude eu mesmo sê-lo!? (Pausa) Mas, pensando bem, talvez tenha sido exatamente isso, talvez tenha sido o conhecimento desse aspecto de sua alma que a levou a tal solução. Pois ela mesma já não suportava morar sempre dentro de um vazio... ser possuída somente por um grande nada, ter somente um desejo pelo que é grande demais para existir. O que ela não suportava era exatamente não suportar permanecer... Mas por que não suportou? Eu mesmo tenho de suportar isso todos os dias! Por que preferir a morte a suportar? O que a levaria a isso? Qual constituição de sua personalidade ainda não consegui desvendar para conseguir compreender tudo isso!? Uma incapacidade de suportar o abismo, uma franqueza leviana talvez... Mas uma atitude leviana não condiz com o que conheço dela, ela pensaria antes. Isso tudo certamente foi muito bem premeditado, e é possível até mesmo que a visita fosse parte determinante do plano, talvez tenha chegado a pensar: se ele tiver tal atitude, faço, se ele agir de outra tal maneira, permaneço. É possível que ela tenha voltado somente para isso, talvez fosse ainda sua única pendência: eu mesmo, sua última pendência; a única coisa que ainda segurava essa mulher apaixonada pelas pendências! E não conseguiu isso de mim... pois, de fato, eu estou em paz e não propiciaria mais pendência a essa alma inquieta!
E numa espécie de culpa misturada a um nojo completo por ela e por toda a realidade, sentou na cadeira que ainda estava no meio da sala e ficou olhando para aquele lugar próximo a janela. Afundou seu rosto nas mãos e permaneceu ali por horas, numa espécie de vazio que causava um grande nojo só pensar que ainda permanecia ali, que ainda existia...
Muita coisa ocorreu depois disso, mas não sei narrar, não posso, não consigo terminar, pois, sinceramente, não tenho força para o fim... Desculpem-me.