12 de agosto de 2010

"Uma fotografia muda"

Num entardecer suave, de céu limpo e quase alaranjado, batia um vento impetuoso balançando com igual leveza as árvores e as minúsculas, delicadas florezinhas que dão em cachos para cima e que parecem pequeninos pedaços de algodão púrpuro. Essas florezinhas cobriam um vasto terreno na beira da estrada de chão, moviam-se e existiam com tamanha sutileza. Tinham um pôr-do-sol de verão à contra luz, que as atravessava com facilidade, devido a sua textura plumária que deixava escapar dentre aqueles pelinhos os raios daquela luz quase dourada; isso tornava a atmosfera mágica. Nesse entardecer eu me encontrava sentada na varanda a olhar essa imagem. Como eu queria poder guardá-la para sempre... fazer uma música naquele momento que a remetesse eternamente. Pintá-la em um quadro no qual eu pudesse ressaltar todo aquele feitiço de cores... Eu tirei fotos dessas florezinhas, mas as perdi... Por isso, faço um texto para homenageá-las e para nunca mais me esquecer. Estou apaixonada pelas cores! Um dia desses um grande amigo me perguntou: qual a cor mais bonita? Eu não saberia responder, pois as cores são bonitas em contexto, em relação umas com as outras e com quem às observa. É necessário que eu esteja dentro das cores, das coisas, dos lugares para que eles causem impacto em mim; é preciso que as cores consigam entrar dentro de mim através de formas, sentimentos, lembranças, sonhos, sensações, sons, cheiros, vento, imagens, músicas... tudo de uma vez só e num mesmo instante que se repete. Talvez eu poderia dizer que a cor mais bonita é aquele púrpuro de algo que parecia algodão mas não era e que se movia como pluma sendo atravessado por aquela luz pastel-amarelada que me fazia sentir leve um espírito que nem existe. Mas, sinceramente, eu não sei qual é a cor mais bonita... pois me parece tamanha injustiça com o verde e azul daquelas folhas e céu que vi deitada por de baixo da castanheira em um dia em que eu me sentia tão bem; ou com o intenso rosa-avermelhado em contraste com um verde fosco, quase musgo, que vi nesta manhã nublada de primavera saltando para fora de um muro de chapisco cinza; ou com o salmão suave de minha toalha pendurada no varal quando iluminada pela luz fraca que vem do céu, com o sol já bem posto, no momento em que me encontro em casa, deitada na cama, com as luzes apagadas, na penumbra do denso entardecer, e estou, sem querer, a pensar no infinito...