22 de dezembro de 2010

A partida inconcretizada

Uma flecha de luz atravessa os morros as árvores e depois a janela, acertando em cheio seu rosto parado no tempo dos sonhos perambulantes que adormecem invadindo seu inquietos olhos totalmente cerrados. E esta manhã é uma imensidão do canto e da penumbra  em que me encontro sentada a sentir o derramar-se de seus sonhos no assoalho velho e tosco da madeira que veio de alguma mata que hoje nem deve mais existir. Faltam-me forças para suportar esta flechada que silenciosa assalta, a ti, mas que fere realmente, a mim; e que sangra de leve sim, ininterruptamente, o meu coração incrustado em pedra de saudade e vontade de partida e liberdade. Cada dobra do lençol esconde um sonho secreto e proibido, inatingível; cada uma delas é o mostrar-se de uma realidade que sorri para mim atrevida e despretensiosa mediante a inconcretude plácida dos sonhos iluminados no algodão cru que lhes sustenta. A inconcretude da possibilidade que dentro disso tudo me arroga, apropria-se, apodera-se de mim, mostra-se como um vento brando a balançar suavemente as folhas pálidas de uma árvore num lindo quadro em aquarela. Algo me avisa ali, sussurrando pelas águas de um riacho cristalino no meio de uma floresta remota, esquecida e intocada: "tens de... partir." Mas ainda assim permaneço no canto secreto da casa, a me demorar dentro da sensatez da imagem de seu rosto iluminado. Como pode uma coisa dessas?: uma flecha de luz endereçada a outro, ferina me atingir e, ainda por cima, me pedir para levantar sem pena e sair em retirada, a caminhar sabe-se lá para aonde e por quanto tempo? [...] Continuo sentada; percebo que nunca mais fui invadida pela magia de seus sonhos, e por isso, devo partir. Levanto-me, faço silenciosamente, a mala, e parto, não sei, não faço nem idéia, para onde...