Talvez seja mesmo vindo de uma grande queda em um abismo monstruoso esse vento idiota que parecia anteontem ser um vento do vindouro. Sou uma pessoa tão estranha, tão desentendida comigo mesma, com vontades tão contraditórias e ao mesmo tempo de uma personalidade tão inocente, que às vezes chego ao limiar da burrice. Por vezes sou ruim, mas não ruim por querer, e sim por inocência. Magôo as pessoas não por maldade, talvez por um egoísmo tão arraigado e que se manifesta tão espontaneamente que faz, como um grande amigo me disse, meu orgulho falar mais alto do que meu cérebro, isso sem eu nem notar. Como é possível alguém normal sentir uma vontade de futuro, idealizar com base nessa vontade toda uma estrutura de realidade que não existe e, o pior de tudo, agir, sem medir qualquer conseqüência, baseada nessa vontade? Eu devo estar ficando louca, devo ter pirado sem perceber! Quanta vontade de nada reside nisso tudo? quanto “preferir ainda querer o nada a na querer”? Como eu pude me perder de forma tão desesperadora? O que me aconteceu durante esses vinte anos para eu conseguir me tornar essa coisa, esse alguém que só consegue pensar com imediatidade e insensatez e por isso vive sempre pelos cantos, saltitando pelas bordas, já que prevê sempre algo absurdo e não consegue se entregar completamente ao que tenha uma existência concreta, a algo que possa realmente ser realizado. Porque há essa névoa tão densa que não me deixa ver mais do que um metro para além de onde estou? e que me faz enxergar no horizonte somente coisas ilusórias e, pior, acreditar cegamente nelas? Porque meu desejo é movido pelo que não posso ter, pelo inexistente? Por que sempre busca incansável pelo inalcançável? O que é isso que me faz agir tão inconseqüentemente, levar a vida de um modo tão afoito e temerário? Alguém me responda, por favor, estou a ponto de enlouquecer! Eu já não sei mais para onde estou indo, em que lugar estou, o que quero, o que sinto. Se ao menos tivesse coragem de acabar com tudo isso de uma vez por todas, mas nem a isso eu me permito. Devo ser algum tipo de pessoa fraca em demasia, que não sabe lidar com a vida e que, assim sendo, carrega em si um ódio cansado do mundo e a todo momento sente vontade de se vingar de tudo. Talvez seja a vontade de vingança o que torna meu horizonte tão turvo e me faz agir imprudentemente visando ao nada. Devo ser um humano ressentido com o mundo e que não quer admitir que é ressentido, daí se ressente duplamente: com o mundo e com o fato de ser ressentido. Quem sabe minha interpretação da realidade esteja totalmente fundamentada nessa tentativa de esconder de mim mesma esse duplo ressentimento. Devo ser um alguém do tipo que aprendeu tanto a pensar só em si mesmo que, quando quer alguma coisa, não sabe olhar para os lados, para trás, para frente, mas somente para dentro de si! Eu devo ser ninguém; alguém que sente vontade de futuro e crê que poderá ser eternamente feliz mediante ela deve ser ninguém. Eu devo ser alguém inexistente que vi no horizonte nebuloso do meu futuro e que desejo ser, devo ser uma imagem ilusória que criei para sublimar a idiotice consumada do que realmente sou. A verdade é que uma belíssima imagem do amanhã se postou bem na minha frente em uma noite de inverno, andou para longe em direção ao mar, obrigou-me a entrar na água e me abandonou em denso alto-mar com uma jangadinha! Essa imagem passou pela minha frente, seduziu-me com sua beleza mágica até um abismo sem fundo e me empurrou! Como podem imagens ilusórias desse tipo ter um poder tão colossal sobre mim? Agora estou grávida de futuro, assim como Macabéa. Para tudo se findar perfeitamente só me resta a morte. Entretanto, a vida, sei bem, não será generosa comigo como Clarice foi com a sua personagem, ela não me matará logo; demorarei como o diabo para morrer e permanecerei prenha do absurdo até o dia em que uma mercedes amarela num dia de chuva mansa me pegar desatenta enquanto sonho com o póstumo...