Pensando em coisas absurdas, ela seguia rumo à praia. O dia estava quente e ela não queria chegar, estava gostando de estar ali com o vento no rosto. É uma sonhadora; pensou na praia e soube que esta jamais seria do modo idealizado por ela. Mas, súbito, olhou ao seu redor e percebeu que não precisava criar imagens, possuía uma, e era realmente bela: um lugar completamente plano com algumas palmeiras na beira da estrada.
Avista alguns quiosques, vê um todo em madeira e resolve parar. Senta-se em uma mesa e se sente entranha – será mesmo que deveria ter vindo? – pensa consigo. Vai até a praia e toma um longo banho. A água está morna, as ondas estão um fortes. Ela sente medo, mas permanece. Vinha-lhe uma agudeza grande de espírito naquele momento. Sai da água e senta-se no bar. Pede uma água de coco e depois uma cerveja mais uma porção de peixe frito. Sente-se triste, acaba achando que realmente não deveria ter ido. Que bobagem, pensa, achar que poderia ter alguma experiência extraordinária ali. Depois pensa melhor e percebe: está gostando de estar ali, mesmo que seu sentimento de mais vida e mais experiências não esteja sendo suprido; ao menos ela está suportando esse sentimento onde existem mais possibilidades do que na cidade, o que o aumenta e ao mesmo tempo o alivia. Fica ali até o entardecer, pensando as coisas de sempre, por vezes tentando imaginar um modo de não ser tão idiota.
O sol está se pondo e as luzes se acendem. Ela pega uma cadeira, vai para longe da claridade e espera a escuridão chegar junto com sua sobriedade. Sua pele está quente, sente bastante calor. Avista um homem fumar um cigarro, vê apenas sua silhueta ante o mar e o céu de forte coloração das tardes de outono. O vento bagunça seus cabelos e a fumaça que ele expira parece jogar junto consigo de dentro dele o cansaço-do-mundo. Ele parece pensativo, incomodado com alguma coisa. Ela sente vontade de ir até lá e conversar com ele. Ela se levanta, vai até o carro e dirige de volta para casa. O sol está se pondo; aquela coloração amarelo-desbotada, um brilho envelhecido que atravessa o cabelo das pessoas, que faz as coisas mais brandas e o mundo mais suave.
Chega na cidade. Há muita agitação, músicas e carros barulhentos, pessoas falando alto, saindo para festas, bares, todas muito bem vestidas. Isso a aborrece profundamente, mas ela tenta manter a leveza do seu dia. Chega em casa, toma um longo banho morno e dorme. Sonha que o rapaz fumando cigarro, percebendo que ela está a observá-lo, vem até ela e diz: "não é estranho que nós dois estejamos aqui pelo mesmo motivo e mesmo assim tenhamos medo de nos aproximar?" Depois disso ele pega em sua mão, a levanta da cadeira, dá-lhe um abraço demorado e se vai, o que a faz ter vontade de chorar. Ela chega em casa e dorme, tal e qual acontecera na realidade. Acorda com ele batendo em sua porta. Quando ela abre, ele a manda fazer as malas e partir com ele. Acorda realmente. Teve vontade de continuar o sonho, e o fato de saber que era apenas um sonho não a incomodava, mas sim o fato de saber que aquela agudeza de sentimento obtida naquele sonho não estava sendo possível na realidade. Havia dormido de mais. Olha pela janela engradada, deve ser meio-dia. Quer ir embora. Faz as malas e parte sem rumo, não se sabe pra onde. Ninguém nunca mais a viu.