- Não tem pra quê, não é assim que a coisa funciona. Não há um grande sentido nas ações, as ações têm seu sentido nelas mesmas, na simplicidade de sua ocorrência. Você tem que antes estar certo daquilo que faz pra não precisar desse tipo de pra quê. Se faz uma coisa porquê se faz, porquê se gosta de fazê-la, ou simplesmente porque se tem de fazê-la.
- Mas isso não é ser ingênuo, não é até mesmo querer algo que não se pode ter? Pois, pelo que vejo, é tudo movido por um projeto, uma meta.
- Veja bem, o pra quê que você fala é um sentido com uma grande meta. Vejo que existem metas e metas, projetos e projetos. Se meta mostra depois, posterioridade, além, e projeto, pro-jectu, jogar, lançar adiante, para frente, então isso não significa apenas uma finalidade a ser atingida, e sim apenas palavras que remetem a noção de que sempre há um "para um depois do aqui e agora". Temos que entender essa meta como a possibilidade da continuidade do durante, e não algo que determina o durante e o enclausura no estático, pois, na verdade, o durante é que determina o rumo, o sentido da meta, e não o contrário. Caso se coloque o futuro como determinação do presente, se enclausura o presente em algo que tem de vir, e tudo que estiver nesse presente e não fizer parte desse ter de vir, será sentido como inútil e sem sentido. É necessário aceitar o durante das ações para aprender a viver sem Deus, ou seja, viver sem um sentido para uma grande meta. A meu ver, a assunção da morte de Deus é a assunção da simplicidade do viver, a transferência da "ação para Deus" para a "ação no mundo". E isso é muito mais complicado do que parece, pois agir no mundo não é também agir do modo que se bem entende, pois fazer isso é ainda querer contestar Deus de alguma forma, e ainda necessitar de sua existência. Agir no mundo é estar na aptidão de agir de modo coerente não só com nossa vontade, mas com a conjuntura na qual estamos. É quase uma união do necessitar, querer e ser capaz. Talvez o dever seja exatamente essa união, pois o que se deve é querer aquilo que ao mesmo tempo se necessita e se é capaz. Acho isso o mais difícil. Só com a união de capacidade, possibilidade e necessidade há uma ação completa, a qual se faz por prazer e por dever ao mesmo tempo, na qual se quer aquilo que se deve.