- Eu tenho tido vontade somente de estudar, estudar, estudar... mas, ao mesmo tempo, não consigo fazê-lo completamente: por muitas vezes sento para ler, leio uma ou duas páginas e então começo a vagar pelos mais diversos pensamentos. O texto do Van Gogh ainda me toca, muito, e me sinto exatamente como ele o descreve: uma ave enjaulada, que têm força para empreender algo, mas que, por algum motivo, não é capaz. E, exatamente como ele fala, falta-me as ligações, as ligações com as pessoas para que eu consiga de alguma forma me ligar completamente ao mundo e me libertar nisso que tenho força-para. E isso tudo pode ser apenas devaneio, o falar de um alguém que se perdeu completamente e já não consegue achar mais qualquer coisa que seja: sim, pode ser isso; por isso me sinto na obrigação de não deixar ser assim. Mas como fazê-lo? Como empreender algo quando vivemos em um tempo onde de tudo se descrê, num tempo em que a vontade de empreender algo é considerada uma falácia teórica, um a-senso!? Esses dias comecei a escrever um conto: era o conto sobre uma grande idéia, sobre a assunção da superação como algo constitutivo, sobre a assunção da simplicidade e da solidão; mas não consegui terminá-lo, não pude terminá-lo, pois quase sempre sinto não ter força para o fim. O conto oscila entre dois personagens: um que não conseguiu assumir a simplicidade do viver, e outro que conseguiu; mas um personagem aturde demasiadamente o outro, mesmo eles estando tão distantes: são dois polos de uma mesma coisa, são posições diferentes que moram dentro de um mesmo sentimento: o sentimento que alguma vez chamei de sentimento de abismo. Eu mesma sou a eterna oscilação entre esses dois personagens, e tenho medo de que a parte fraca venha a vencer. Sabe... é como se houvesse a meta, como se eu soubesse exatamente para onde devo mirar, mas o arco não está teso: está frouxo, frouxo como uma corda que, apesar de muito forte, está pouco estirada e não consegue lançar a seta mais do que três passos adiante. Já não sei mais o que fazer e a cada vez sinto-me mais e mais fraca. É como se depois da morte de Deus tudo que fosse grande e misterioso perdesse completamente o crédito. Mas eu, que já não creio em Deus, não consegui me desvencilhar da vontade da existência de algo grande e misterioso. Talvez devesse me desvencilhar, e foi a isso que convenci nesses últimos tempos: que deveria me desvencilhar. No entanto, isso me enfraqueceu de tal forma que mal posso suportar. Esses dias vi um filme que forjava mais ou menos isto: um homem perdeu todas as relações com as pessoas preciosas para ele e, tentando se rerguer de alguma forma dessa situação, conseguiu não o sucesso, e sim se perder completamente, perder até mesmo o pouco que ainda possuia; esse homem, nesse inferno niilista em que entrou depois disso, aprendeu a ser grande. No entanto, ele termina como Van Gogh: morto jovem; e nem na hora de sua morte consegue ter paz, pois matam até mesmo o abismo, a única coisa a que ele ainda se detinha. Mas ao menos esse homem conseguiu sua grandeza, assim como Van Gogh; já eu, sinceramente, sinto-me exatamente como naqueles versos de Sá-Carneiro: "um pouco mais de sol - eu era brasa, um pouco mais de azul - eu era além". Veja, o tempo que ele usa: o pretérito imperfeito... o passado - imperfeito. Mas diria até mesmo que "eu seria brasa", que "eu seria além". E mesmo tendo certeza da minha grandeza, não consigo empreendê-la completamente, mas somente pelas metades, pois faltou-me um golpe de asa. Na verdade, falta-me; no presente... (Pausa) Mas não! É desse poema que fujo, fujo dele como o diabo da cruz! É dele que tento e tentarei fugir minha vida inteira, e é a partir dele que um dia conseguirei transformar minha profunda miséria em algo que ao menos seja inspirador, como disse Vincent. Esse poema me liberta naquilo que não me posso deixar ser! (Longa pausa) A verdade é que o golpe de asa que me falta é um abraço. Na verdade, agora percebo, cada escrito meu até hoje guardou em si - um abraço...