26 de maio de 2011

Especulações a respeito da ação

Quando somos muito influenciados por algo e nos damos conta disso, numa vontade de independência normalmente tomamos a posição oposta a esse algo, achando que assim teremos uma posição mais própria; quando somente entregamos essa posição à mera oposição já estabelecida pela coisa a que se opõe, o que nada mais é do que a tentativa de forjar para si mesmo uma autenticidade. É necessário estar em paz consigo mesmo e com os outros para conseguir tomar decisões próprias... Mas resta saber, o que é essa paz? Ela é possível? E se cada ação conseguir se sustentar somente enquanto reação a algo? Parece haver uma distinção entre uma ação própria e aquela a que simplesmente se entrega ao que já está dado ou, o que dá no mesmo, aquela que simplesmente é contra o que já está dado. No entanto, mesmo a ação de pensar dessa maneira que penso agora, é um tipo de reação referente a algo e, por isso, de algum modo não possui completa autenticidade. Parece-me impossível ter um tipo de autenticidade completamente independente daquilo que já está dado, daquilo que é normal, comum, ordinário, pois a autenticidade me parece sempre algum tipo de reação contra esse normal que aí está. Talvez a autenticidade resida não numa independência, mas numa dependência assumida daquilo que se depende, uma decisão a respeito do que depender... Esse é um assunto delicado, pois essa decisão não ocorre no vazio de uma subjetividade inteiramente livre para escolher o que quiser, mas também não se pauta somente numa determinação histórico-cultural-individual que se construiu ao logo do tempo. Parece que a decisão reside entre essas duas posições, uma ação entre o construtivismo e o determinismo, digo, para não fazer uso indevidamente de termos: parece uma decisão que reside no entre da total livre escolha e da total impossibilidade de escolha. O construtivismo dá poderes de mais ao homem, enquanto o determinismo nega um poder que este tem. Nessas horas me parece impossível novamente escapar de Aristóteles, pois uma ação virtuosa é aquela que encontra o meio termo entre a livre escolha e o destino determinado, já que aceita aquilo do qual não pode fugir, mas também faz restrições e reconhece quando algo ruim nesse destino pode de ser modificado: reconhece aquilo contra o qual se pode e deve lutar. Pois saber diferenciar aquilo que se pode daquilo que se quer é essencial, no sentido de ser extremamente necessário quando se tem em conta algum tipo paz na existência. Muitas coisas queremos, e isso é fácil, querer é fácil, difícil é saber querer aquilo que se pode, e não só isso, querer aquilo que de pode e deve. Pois, igualmente, muitas coisas podemos, mas nem tudo que podemos, devemos fazer. E o dever aqui não é algo kantiano, que respeita algo pré-estabelecido; o dever aqui nasce de cada ação, de cada ocupação, de cada situação peculiar e única. Mas assim acabo eu amarrando de mais às coisas e querendo determinar uma norma para como se deve agir para conseguir paz e assim ter uma autenticidade, quando o que me tento me remeter aqui é a algo outro... que não diz respeito a um sistema que tenta preencher o vazio esquemal-totalizante que existe nas ações, mas tenta indicar uma impossibilidade de se estabelecer esse tipo de esquema, e que, no entanto, compreende que nem por isso cada ação não tenha uma espécie de regra. Por isso, não se pode pretender negar nem uma imposição esquemal, nem uma contingente, ou, o que dá no mesmo, nem uma certa liberdade, nem uma certa impossibilidade. O que cada um deve, quer e pode, nem ele mesmo sabe, pois não há isso talhado de antemão. E esse é o perigo constante da existência... Cada ação nossa é o pontapé inicial de algo que só conseguimos ver muito de longe o que seja, e que podemos imaginar o que seja, mas jamais saber exatamente. Mas isso não quer dizer que não consigamos prever de algum modo, e que porque não conseguimos prever exatamente, não tenhamos que tentar prever absolutamente nada. Não! Tentar prever é importante, mas temos que ter incluído nas previsões as contingências, temos que estar preparados para a rasteira, e isso não sempre amedrontado, olhando pros lados, desconfiando de todos, mas nos fortalecendo, para quando cairmos tomarmos não muito mais do que alguns arranhões. Falando assim parece aqueles sistemas clássicos da auto-ajuda que fornece a ilusão de regras muito eficazes para se conseguir algo como a paz. Mas não se trata disso, nisso tudo reside um andar na corda bamba constante, um olhar para o abismo; reside aqui, muitas vezes, a sensação de que não vale a pena continuar pois nada faz absolutamente sentido algum... É algo de cunho extremamente pessoal, e se de algum modo condiz com a personalidade de um outro, é somente por coincidência. Falo isso, para não acharem que quero fazer uma ética do poder, dever e querer, para não acharem quero criar a fórmula do bem viver, pois desse bem viver que normalmente se quer eu nunca entendi a respeito, pois é um o bem viver das regras e da segurança, enquanto o meu bem viver é saber viver em paz com esse abismo que me assombra constantemente. Na verdade talvez se consiga uma paz com esse abismo quando se aceite que se tem de permanecer em constante guerra com ele. Mas não uma guerra mesquinha, que apunhala pelas costas, mas uma guerra, por exemplo, contra uma característica que se considera muito ruim em uma pessoa que se ama muito, de modo que não se pode nem se deve negar tal característica, por mais se queira, e sim se deve aceitá-la e saber conviver com ela lutando contra ela a cada vez que ela aparecer. Vivi isso com um egoísmo exacerbado de uma pessoa que gosto muito, e tive de aprender a conviver com ele e a cada vez tentando à mil e um malabarismos para não demonstrar que isso me desagradava profundamente e, assim, tecer comentários brandos e firmes, que pudessem ajudar essa pessoa a sair disso que a atrapalhava na convivência com as pessoas que ela mesma ama. É difícil, eu também tenho muito desses “defeitos” que têm de ser abandonados, que dificultam nossa convivência com quem amamos, e temos de algum modo aprender a lidar com eles em vez de tentar negá-los absolutamente, pois assim entraríamos num processo de negação de uma coisa que nos constitui, e é quase certo que isso traz conseqüências graves ao nosso humor, ao nosso modo de lida com as coisas, pois é como se estivéssemos negando nós mesmos. Temos de, antes de negar o que há de ruim em nós, tentar compreender esse ruim... E de novo parece uma fórmula da auto-ajuda, quando é somente visão do abismo, tentativa de compreender esse vazio abismal que é o uma vida sem Deus, sem família... uma vida solitária. A cada um de nós cabe decidir aquilo que somos capazes e aquilo que devemos; só não está facilmente sob nosso domínio aquilo que queremos... Por isso, mesmo que querer seja fácil, mesmo que o querer ocorra mais comumente, com mais facilidade, ele é também o mais difícil, pois muitas vezes temos que aprender a lidar com quereres somente como quereres, pois eles muitas vezes não são realizáveis... Além do mais, não há formula no mundo que consiga decidir algo por nós. Viver é difícil, cada coisa ligada à vida é difícil, e se não soubermos lidar com o difícil, nos transformamos em algo precário, em algo que apenas amolece e morre. E se fazemos o contrário, se por uma vontade vida extrema, enrijecemos e enclausuramos tudo num sistema fechado, endurecemos de modo a não termos como nos mover e, assim, aos poucos, também morremos... Por isso não consigo fugir, ao menos agora, de Aristóteles: é necessário achar um meio termo entre a maleabilidade e a dureza, é necessário ser duro e maleável ao mesmo tempo, algo como a metáfora: ter os músculos fortes, mas não muito, para não perder a elasticidade propícia nos movimentos. É necessário ser forte, mas não forte ao ponto de enrijecer, e sim forte até o ponto de não perder a maleabilidade... E isso tudo são somente especulações, especulações de uma estudante de filosofia que não está conseguindo escrever sua monografia, provavelmente por saber que ali não mora algo realmente filosófico e, além disso, por ser uma pessoa que não consegue ninguém pra conversar sobre os temas que mais a interessam e necessita, pois, escrever... São também somente especulações que um dia aparecerão como erradas, mas que agora aparecem como a coisa mais acertada que alguém, no tipo de vida que levo, poderia dizer.