29 de maio de 2011

A verdade como sonho

A verdade não é algo que se tem de conquistar, não é uma criação ou uma perspectiva na qual se deve estar, mas uma linha tênue entre o querer e o poder, entre o poder e o necessitar, entre o necessitar e o dever... É a entrega àquilo que se acha que é, mas que nunca se tem certeza se realmente é. Ela é a visão tentadora de uma segurança que se sabe que não há. A verdade é um sonho belo de eternidade que se propõe como possibilidade só no presente, é um futuro incerto que sempre escapa de alguma forma, não se sabe como. É um sonho perdido que não se consegue parar de ter saudade, e que move mais pela falta do que pelo seu estar aqui. É algo que remete muito mais ao cuidado, sutileza e fragilidade do enquanto e do durante, do que à grandeza e conquista de um futuro. Se Nietzsche usou a metáfora de que a verdade é como uma dama a qual se tem de conquistar, respondo-lhe com uma metáfora de seu velho mestre, que foi seu mestre não só em muitas outras coisas, mas também na arte de fazer metáforas: "A verdade não é uma prostituta, que se coloca no pescoço sem ela querer: ao contrário, ela é uma beleza tão frágil, que não permite, nem mesmo àquele que tudo por ela sacrifica, saber ao certo se está a seu favor." ¹

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1. "Die Wahrheit ist keine Hure, die sich denen an den Hals wirft, welche ihrer nicht begehren: vielmehr ist sie eine so spröde Schöne, daß selbst, wer ihr alles opfert, noch nicht ihrer Gunst gewiß sein darf." (Arthur Schopenhauer. Die Welt als Wille und Vorstellung. Aus der Vorrede zur zweiten Auflage.)