Na frase: "O que me possui é somente aquilo que absolutamente não se deixa possuir." existe algo simplificador e absurdo, que deve ser abandonado. Uma frase mais correta, que substituiria mostrando melhor o que aquela tentou, seria: "não se pode determinar o que nos possui, porque muitas coisas constam em algo que consegue nos possuir, e mesmo que conseguíssemos fazer uma análise suficiente a respeito disso, ela seria sempre provisória, pois outros elementos, novos elementos apareceriam no durante mesmo da análise, de modo que é impossível determinar uma característica apenas como a principal; muito menos somente uma característica como sendo a determinante." Isso mostra o seguinte: determinar uma característica inapreensível como sendo a determinante (por exemplo, dizer que o mistério é o fundamento de algo, ou que o próprio inapreensível o é) é ainda simplificar e facilitar a análise de algo. Conceitos que apontam o ideterminável dessa maneira, quer dizer, que determinam o indeterminável como algo que não se pode determinar, não fazem jus ao indeterminável, pois o que se tem de fazer é exatamente isto: tentar determinar o indeterminável mesmo com a certeza de que nunca conseguiremos de-terminá-lo. É assim que se cria, é assim que se suporta uma vida sem Deus: fazendo seu papel de maneira ainda melhor do que ele fazia: determinando, a cada vez, o indeterminável; e assim, dando sentido. Mas note bem, tal colocação nada tem a ver com uma vontade de irracionalismo e negação de conceitos e teorias, pois estes são necessários e, se bem utilizados, ou seja, se ocorrendo junto com aquilo que experienciamos, são bons, no sentido moral mesmo, de levar a excelência. Pois existem sempre aquelas interpretações que tomam a impossibilidade de uma teoria total como a obrigação de se tornar anti-racionalista, anti-teórico e anti-conceitual. Essa atitude não passa de uma resposta à frustração de não poder apreender a "realidade" com uma teoria total, é uma frustração para com aquilo que a "realidade" exige: a criação de conceitos e teorias sempre provisórios, e nunca finais. É sobre isso a que Nietzsche parece se referir quando fala de uma assunção da capacidade criativa do homem. Há de haver uma assunção da impossibilidade de teoria final sem uma frustração para com isso, sem a negação desta impossibilidade a partir da tentativa de desconstrução de conceitos e teorias; essa é a crítica que faço aos que acreditam que desconstruindo valores, conceitos, teorias, estão automaticamente fora do que Nietzsche chamou de vontade de verdade e que aqui agora me referi como vontade de teoria final. O desejo voluptuoso por desconstrução advém do "trauma" causado pela impossibilidade de teoria final, pela falta do grande sentido para a vida que isso trazia; é necessário superar esse "trauma", e não assumi-lo como o certo a se fazer. É necessário compreender porque há essa vontade de conseguir uma teoria final e da desconstrução descabida, e aprender a lidar com isso, refrear tais vontades. Isso pode ser conseguindo através da dedicação àquilo que é provisório. A maioria de nós tem grandes problemas ao se dedicar àquilo que é finito, de aceitar a finitude e provisoriedade das coisas: seja a leitura de um texto, o preparar de um almoço, ou a vida como um todo; afinal a vida mesmo é sempre provisória e finita. Tendemos pensar da seguinte maneira: "se vai se findar, pra que se entregar inteiramente?" É preciso aprendermos que a vida está na entrega ao provisório... Mas isso não quer dizer que temos de nos integrar a tudo "como se fosse a primeira vez", pois temos de saber usar o que já vivemos para viver melhor aquilo que vivemos hoje. Se não for assim, sempre viveremos as mesmas coisas e cairemos nos mesmos buracos, o que seria, enfim, uma espécie de burrice, de irracionalismo mesmo. Se resguardar para tentar não cometer os mesmo erros é deveras importante, o que não significa que temos de criar teorias antecipadoras que dêem a certeza do que vai acontecer, do tipo: se antes tal pessoa que agiu assim me fez mal, essa que agora agiu da mesma maneira comigo também o fará, então me afastarei dela. Não. A situação é outra, a pessoa é outra, há sempre novos elementos para teorizarmos, inclusive em nós mesmos. É necessário fazer uma análise completamente nova a respeito de uma nova situação, mesmo que tenhamos de suportar o medo de que ocorra tudo do mesmo jeito, de que cometamos o mesmo erro. Esse medo de cometer o mesmo erro é bom, mas tem de saber ser usado para impulsionar teorias mais abrangentes e fecundas, e não pra impulsionar uma entrega total e irracionalista, ou, pelo contrário, um enrijecimento normativo que quer determinar tudo de ante-mão. É sobre isso também que falava num texto anterior, a respeito do bom-senso: a respeito de um meio termo entre o "conservadorismo" e o "liberalismo". A assunção de análises provisórias seria a assunção do meio termo entre o "conservadorismo" e o "liberalismo", que chamei de bom-senso. Afinal, conceitos e teorias de mais fazem o homem ficar receoso de tudo, a ponto de se aprisionar, não conseguir ir para além daquilo em que acredita, negando-se viver muitas coisas que não deveria se privar, para assim conseguir viver melhor. Só que, sem conceitos e teorias, podemos nos juntar às vacas e aos leões, não é mesmo? E se assim se quer, que assim seja: juntai-vos, pois, a eles, irracionalistas e "libertários" de todo tipo. No meu caso, democratas que sois, "respeitadores" do direito e da livre expressão da minoria, respeita-nos, minoria, e deixa-nos "escolher" tentar ser o que somos, deixa-nos "escolher" tentar ser humanos...