E se no fundo cada palavra que digo for somente um devaneio, uma desculpa inocente de alguém que quer encontrar o sentido único de tudo? E se, no fundo, for sempre somente uma defesa contra um desejo do que não se pode realizar?: uma vontade de um grande sentido como tivéramos nós antes da morte de Deus? Não seria isso tudo, cada palavra, somente uma defesa contra a distância e a impossibilidade de um sonho romântico que permanece firme como vontade, mas se desfaz quando "realidade"? Pode ser... Entretanto acho mais pertinente ver essas dúvidas como pertencentes muito mais à dificuldade que existe em desistir de um grande sentido que não mais pode ser, do que como a defesa contra essa grande meta: parece-me mais a saudade e a dor da perda do grande sentido, do que a tentativa de se defender dele ambicionando negá-lo. Desistir de um grande sentido é difícil, porém necessário e bom quando se consegue, a partir dessa perda, aprender a viver no durante das coisas. Assim diz o pensamento agora: abandone a grande meta, viva no durante... Mas é difícil mesmo, viver no durante; pois, a grande meta, que é o jagunço do grande chefe, que é o futuro do pretérito, percebendo a possível desonra da imagem de seu líder, quer vingar sua morte, e persegue a todo custo o durante, seu pior inimigo. Mas o durante se mantém tranqüilo, não pelo querer permanecer, mas por sua obviedade e clareza na ação. O durante não tem que tentar permanecer, ele simplesmente permanece..., e isso mesmo quando escondido na ânsia do homem de hoje por aquilo que não pode ter. O durante é o inconcreto concretizando-se, a cada instante: é o concretizante; no particípio presente. Ah, tempo perdido! Tempo verbal que se perdeu nas aventuras do nosso pensamento e permaneceu somente como substantivo e adjetivo, ou se pode substituir, somente como sujeito e predicado... quando na verdade é uma exigência temporal, algo que se impõe no viver. Ah, particípio presente! tempo que não é mais verbal!... Mas me falem agora uma coisa: há em algum lugar um tempo que não seja verbal? Porém, mesmo esquecido, ele é um tempo que ainda permanece, e, se me fiz entender, ou seja, se consegui fazer o leitor sentir, nesse pequeno texto, ao menos um pouco daquilo que sinto agora, ver-se-á que é um tempo que permanece não somente como substantivo e adjetivo, mas como algo mais límpido e libertador do que qualquer substantivo e adjetivo, ou se pode ainda dizer, do que qualquer sujeito e objeto... Antes tivéssemos perdido o futuro do pretérito e mantido esse tempo da concórdia e do contentamento com o durante. Quiçá consigamos, mediante todo esse esforço, substituir um pelo outro e assim mais viver, bem viver, amando mais o simples e fazendo dele toda a grandiosidade que se pode mais amar e querer... (Longa Pausa) Mas agora penso cá comigo: que grande bobeira estou a falar. Estou eu aqui, tentando apreender essa coisa, sabe-se lá o que, pela palavra durante e por um tempo perdido por mim romantizado. Que coisa boba é viver... Às vezes caio na risada, numa risada solitária e muito pura, de não conseguir parar, ao ler o poema de Parmênides, por exemplo, ou de lembrar da afirmação de Thales de que "tudo é água"; ou ao me olhar no espelho e saber que ali existe algo que eu chamo de "eu"... É de se rir mesmo: saber que esse "eu" pode ter nascido da vontade de um homem de explicar a realidade totalmente... E saber que essa interpretação que acabo de dar é historicamente localizada, finita, e que daqui há algum tempo não existirei mais nela... É extraordinário!, mal dá pra acreditar!, muitas vezes duvido de tudo que a filosofia me ensinou... (Pausa) Como posso me fazer entender? É difícil falar, cada palavra acaba se enviesando para fora daquilo que se pretende manter. É tudo muito incerto... cada palavra sustenta aquilo que um dia não foi capaz de dizer, e assim inaugura um aberto, instaura um abismo... (Pausa) E eu me rio de mim mesma, muito, quando me vejo aqui, a escrever para ninguém, e a saber que esse texto se perderá completamente e que serve somente para mim, para eu mesma suportar toda a dificuldade que existe em uma vida solitária... E quando digo "eu mesma" já me coloco como um "eu", e já me coloco também como "gênero feminino", parecendo assim que sou um "eu" e um "gênero", dando margem a possibilidade da existência de uma pré-compreensão disso que posso ser, tirando assim um pouco da insegurança, uma insegurança que diz respeito a algo muito certeiro: que ninguém "se" conhece, pois não há um "se" para alguém conhecer... Viver na palavra é viver diante de um abismo, no qual é necessário o máximo de cuidado para que não se desvie do que se mostra só para tentar negar essa insegurança constante que é viver com a vertígem da queda... É, não é fácil... Ao menos acho que nunca fui tão sincera...