12 de outubro de 2011

Sobre a beleza do que já morreu

Num funeral, o morto, pela primeira vez, mostra a vida mostrando a não-vida; tem assim seu primeiro grau de esquecimento. Este esquecimento permanece, mas retornará transformado pela saudade, que tornará o morto mais vivo do que quando vivo. Não sei o que ocorre, mas o que já não existe mais parece ter maior força de beleza sobre nós, parece nos tomar com uma suavidade e importância ainda não experimentada naquilo que é presente como concretude. Pensando pela cabeça de Schopenhauer, talvez esse seja o engodo que a natureza nos criou para pensarmos com mais suavidade na morte. Já pela cabeça de Heidegger, talvez esse seja o modo que encontramos para tentar escapar da responsabilidade de sermos um algo que se projeta estando sempre desde a angústia com a certeza da morte; desse modo, esse embelezamento do que já morreu, poderia ser apenas um engodo com relação à responsabilidade de decidir, responsabilidade essa que é trazida justamente pela certeza de que um dia findaremos também; é como se fosse uma fuga do fim mediante a imortalidade da imagem embelezada do depois-do-fim. Talvez a beleza exacerbada de algo que já se foi possa mesmo ser um engodo, algo que advém de uma incapacidade de suportar o nosso próprio fim e, de alguma forma, seja junto com isso a tentativa de embelezarmos a "idéia" que vem da projeção de nossa própria morte.

Porém, pensando melhor, agora isso tudo me parece algo outro: parece-me ter a ver com um lançar-se para além-de-si, um projetar-se para uma comunidade inexistente mas desejada; parece-me uma espécie de voluntarismo involuntário do homem que, mediante uma obstinação de seu modo de ser, não consegue abrir mão daquilo que deseja; talvez seja uma incapacidade de sair do que Hegel chamou de consciência infeliz. Quem sabe seja o modo de lida de um tipo de homem que consegue ver somente na beleza de si, advinda da imagem que ele projeta do depois de sua morte individual, a possibilidade de uma reconciliação com alguma totalidade.

Dostoiévski em Os Irmãos Karamazov fala a respeito de um tipo de homem que ama a humanidade como um todo, mas que ao mesmo tempo não consegue lidar com os homens em particular: quanto mais esse tipo ama a humanidade em geral, menos consegue suportar o homem individual, e quanto mais conhece o homem particular, mais ama a humanidade como um todo. É o homem cindido, um tipo que lembra a da consciência infeliz hegeliana: o homem desenraizado da participação política de sua terra e que, para suprir tal desligamento, se torna um livre pensador, que estabelece verdade somente na concordância consigo mesmo. Esse homem, depois, se torna um cético, começa a tomar a realidade como inexistente, simplesmente por ela não ser aquilo que ele deseja. Quando ele se dá conta de que não é possível viver em comunidade desse modo, ele toma consciência da cisão que se formou em seu ser, toma consciência de que ele mesmo não possui o que Hegel chama de espírito: ele se dá conta de sua incapacidade de se reconhecer na comunidade em que vive. Tal homem consegue ter somente o que Dostoiévski chamou nesse mesmo trecho de "amor contemplativo", sem conseguir ter o que ele chamou de "amor ativo", pois esse tipo de homem não é capaz de concretizar seu amor pela humanidade nos homens particulares, já que provavelmente sua idéia de humanidade (e também de homem em particular) não coincide nem com a comunidade na qual ele vive, nem com os homens com os quais ele convive. Esse homem muito facilmente se torna um daqueles sábios obstinados.

Vejo especialmente Nietzsche como um tipo de consciência infeliz, um sábio obstinado que não conseguiu se estabelecer em uma comunidade e que, para se livrar do fardo de ter que lidar com isso, chamou de espírito de rebanho a vontade de estar em comunidade. Vejo que especialmente este homem via na projeção da imagem da morte de si uma beleza extraordinária, e que se reconciliou com o mundo mediante o que ele mesmo falou em carta para sua mãe: pelo medo de que um dia o tornem santo. Esse medo, aos meus olhos, era na realidade uma vontade oculta que ele interpretou de um modo diferente desse que faço agora. Talvez toda sua filosofia possa ser interpretada como a tentativa de reconciliação com a comunidade mediante o legado de sua obra que o tornaria "imortal" e "eternamente" belo depois de sua morte. Mas isso é um psicologismo que suja o pensamento desse homem com o que ele mesmo chamaria de um espírito de peso, mas que aos meus olhos é somente um tentativa de sondar o modo de ser-humano, uma curiosidade a que me atrevo, uma tentativa, finita e incerta de sua certeza, mesmo momentânea, não ter de dar às coisas elas mesmas (pois as coisas nunca terão elas mesmas), mas uma tentativa de andar ao redor das coisas colocando-as nas melhores das luzes (tal falou Nietzsche em algum aforismo do Humano, Demasiado Humano). A pretensão desse tipo de investigação não vai muito além da tentativa de viver na dubiedade e insegurança que é própria da vida daquele que sente prazer em estar no que Heidegger chamou de "piedade do pensamento": o questionar; e que vê beleza muito mais no durante do que na imagem do depois da morte.